segunda-feira, 14 de julho de 2025

A hora é agora!

A extrema-direita sentiu profundamente a mobilização da sociedade civil brasileira em torno de duas questões sensíveis ao consórcio das elites que controla a riqueza nacional, a representação política, os principais aparelhos ideológicos e as narrativas criadas a partir deles: a taxação dos super-ricos e o fim da escala 6x1 de trabalho. Nos últimos anos foram poucas as vezes que vimos a extrema-direita nas cordas, sem saber responder a altura aos ataques sofridos, sem poder de revide. Em que pese sabermos que ela está buscando se recompor para retomar o comando da pauta política.

Todavia, é importante ressaltar que o baque sentido pelos setores conservadores ocorreu quando as iniciativas do nosso campo político romperam as "barragens institucionais" que nos têm aprisionado, representada particularmente pelo Congresso Nacional; mesmo a contragosto de alguns dos "nossos", que preferem manter os movimentos sociais tutelados à institucionalidade burguesa, pois dela usufruem vantagens diversas.

É interessante perceber a acomodação do "progressismo" no Brasil aos estreitos limites da ordem liberal burguesa, privilegiando os arranjos políticos com a centro-direita na montagem de chapas eleitorais, bem como difundindo a ideia de que a realização regular de eleições é, por si só, a personificação acabada da própria democracia. Porém, até determinados dispositivos legais previstos na democracia burguesa são comumente negligenciados por partidos progressistas e mesmo de esquerda. Quantas vezes os governos do nosso campo realizaram plebiscitos, referendos e outros meios para aferir o que realmente pensa a maioria da população brasileira? Ao menos no Pará, isso jamais ocorreu. E no seu estado e município?

Uma forma de manter a extrema-direita na corda e tentar diminuir o apoio que ela obteve junto a parcelas expressivas da população seria realizar campanha por um plebiscito formal em torno da jornada de trabalho e da taxação dos super-ricos. Constranger a extrema-direita a defender publicamente a não taxação ou posicionar-se contra a justiça tributária. Imaginem esse debate durante as eleições do ano que vem. Dessa forma, romperíamos com os limites impostos pelo Congresso Nacional e a mídia corporativa, em especial; desnudaríamos as falácias/narrativas dominantes em torno dessas questões, realizaríamos uma ampla experiência educativa. Mas é preciso ter vontade política para alavancar a mobilização social. O governo Lula, o PT e alguns de seus aliados estariam dispostos a isso? Ou é mais cômodo continuar sendo refém do Centrão e dos arranjos eleitorais daí oriundos? Os movimentos sociais já se decidiram.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Os computadores quânticos irão nos salvar?

Na reportagem exibida no último domingo (dia 27/04) durante o Fantástico, programa da Rede Globo, o repórter mostrou-se fascinado pela capacidade dos computadores quânticos de darem respostas em poucos minutos a questões que poderiam levar alguns sestilhões de anos pelo sistema convencional em vigor. Realmente não há como ficar indiferente a essa tecnologia que, entre outras conquistas, pode contribuir a tratamentos que levem à cura de várias doenças ainda existentes. O problema é que a crença cega na tecnologia pode resultar em ilusões e a novas formas autoritárias de controle social, bem como a relações ainda mais desiguais de poder. Marx já alertava em pleno século XIX sobre a possibilidade de a tecnologia ser empregada para aumentar o poder, a riqueza e a exploração dos(as) trabalhadores(as) por parte da burguesia, justamente por ela não ser "neutra" e integrar uma sociedade dividida em classes, cujos interesses são antagônicos.

Em determinado ponto da reportagem foi afirmado que os computadores quânticos podem, inclusive, nos ajudar a salvar o planeta. Aqui reside dois problemas fundamentais. O primeiro é que a Terra não precisa de nós para continuar existindo. Se alguém precisa ser "salvo" somos justamente nós, que podemos desaparecer enquanto espécie graças ao processo destrutivo em larga escala oriundo da expansão desenfreada do grande capital - particularmente o financeiro. O segundo é que reforça a perspectiva ideológica de que a solução para as crises climática/ambiental se dará inevitavelmente pela tecnologia e não pela política, tão a gosto de certo ambientalismo de mercado. Contudo, quem de fato controla as "novas tecnologias"? Quem tem o poder real de definir prioridades?

Esse fetichismo tecnológico tem grande capacidade de sedução, enormemente ampliado pelas mensagens emanadas através mídia corporativa e das redes ideológicas utilizadas pela burguesia para fazer com que seus valores de classe sejam compreendidos como valores universais da sociedade. As sereias* da mitologia grega também tinham grande poder de sedução, mas os navios afundados e os marinheiros que se lançavam ao mar diretamente aos "braços da morte" nos ensinam sobre os perigos de certos "encantamentos".

* As sereias (Séphora) eram criaturas híbridas, com corpo de ave e cabeça de mulher, que atraíam os marinheiros com seus cantos sedutores, levando-os à morte.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

A democracia virou um problema. Que tal destruí-la?

Numa troca de mensagens recentemente realizada com o meu amigo Sérgio Martins chegamos a um ponto comum: a democracia se tornou um estorvo ao grande capital. Evidentemente, muitas outras pessoas pensam da mesma forma. O juiz Rubem Casara, por exemplo, em seu livro Estado pós-Democrático: neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis, levanta uma questão da mais alta relevância: vivemos realmente num Estado Democrático de Direito? Segundo Casara, a racionalidade neoliberal colonizou o Estado e isto tem consequências brutais sobre quem sofre arbitrariedades de todos os tipos. Observem o que ele diz numa entrevista concedida a Sergio Rodas, da publicação Consultor Jurídico*:
A racionalidade neoliberal é esse modo de ver e atuar no mundo que faz com que tudo e todos sejam tratados como objetos negociáveis. Essa racionalidade colonizou o Estado, as instituições, as pessoas e inclusive o Direito, fazendo, por exemplo, com que as garantias fundamentais passassem a ser percebidas como obstáculos à eficiência do Estado ou do mercado. Em linhas gerais, pode-se dizer que a racionalidade neoliberal se caracteriza tanto por transformar o mercado em modelo de todos os relacionamentos como por seguir a lógica da concorrência e o ideal de ilimitação, instaurando-se uma espécie de "vale tudo" por dinheiro e sucesso.
Indagado se o Estado Pós-Democrático é uma tendência mundial, Casara respondeu:
É uma consequência necessária daquilo que vários teóricos chamam de racionalidade neoliberal. Isso se dá em todo o mundo. Por evidente, em países lançados em uma tradição autoritária, em democracias de baixa intensidade, a pós-democracia se instala de maneira quase imperceptível. Um país como o Brasil, no qual parcela considerável da população prefere apostar no uso da força em detrimento do conhecimento, marcado tanto pela naturalização da desigualdade e da hierarquização entre as pessoas quanto pelo medo da liberdade, a pós-democracia se instalou sem enfrentar resistência.
O fato é que o chamado jogo democrático marcado por eleições regulares (supostamente livres), revezamento no comando do Estado, implementação de políticas inclusivas, respeito às garantias individuais e coletivas, típicas do liberalismo, mesmo quando não colocadas verdadeiramente em prática, são consideradas cada vez mais como obstáculos à livre expansão do grande capital; melhor dizendo, ao livre controle de territórios e dos recursos neles disponíveis, das riquezas produzidas socialmente, da renda, do poder, das pessoas, da comunicação, dos pensamentos, dos comportamentos, dos afetos, dos imaginários... Enfim, uma sociedade onde a única regra seja aquela imposta pelo mercado desregulamentado. Nesta, a pulsão da morte é a diretriz que comanda as ações dos "donos do poder", dos blocos hegemônicos, pois nela já não há sentido para a existência de grande parte da humanidade, de modos de vida diferenciados, de diversidade de gênero, das variadas formas de professar a fé; vertente onde o racismo, o patriarcado, a xenofobia e a homofobia são negados. Alias, tal negação alcança a própria história e a ciência.

A volta do que nunca foi.

Neste cenário, mesmo governos cuja "utopia" seja a conciliação entre capital e trabalho, uma espécie de "capitalismo democrático", não servem. Contra eles também se estabelecem estratégias para constrangê-los, adequá-los, enfraquecê-los ou derrubá-los. As hordas alimentadas cotidianamente pelo ódio são o braço armado das novas bestas do Apocalipse. Elon Musk e Mark Zuckerberg estão aí para provar como funciona. Tudo em perfeita sintonia com os "falcões de Washington".

Certa vez o pensador Immanuel Wallerstein afirmou que a pior coisa para o próprio capitalismo é o mercado desregulamentado, pois o princípio de "todos contra todos" sem qualquer regramento tenderia a levar o sistema ao colapso. Sem o Estado, portanto, como o instrumento a garantir a defesa do sistema dele mesmo, não haveria futuro ao capitalismo. O Estado está fraco? A questão é: para quem? Se o Estado de nada valesse por qual motivo Musk assumiu funções precisas dentro do governo Trump? Ele não está lá somente por status. Da mesma forma que Milei (Argentina) também não está ou que Bolsonaro não esteve. Há um projeto político-ideológico articulado internacionalmente de aniquilamento de direitos, da apropriação em larga escala de recursos públicos pelo rentismo, de execução de uma economia de destruição onde a reprodução do modelo está fundado na violência e na destruição da natureza.

Fico aqui pensando cá com os meus botões: o que estarão pensando os mercadores do clima sobre tudo isso? Fico só pensando...

https://www.conjur.com.br/2019-jun-02/entrevista-rubens-casara-juiz-criminal-rio-professor/

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Interessa fazer alianças?

A dinâmica das lutas sociais mudou completamente com a expansão da globalização capitalista neoliberal. Os obstáculos levantados por esse processo dificultam a resolução de problemas no âmbito exclusivamente locais. Mesmo questões básicas às áreas urbanas e rurais como a coleta e tratamento do lixo, por exemplo, não encontram soluções apenas nos estritos limites municipais. Ainda mais se tratando da Amazônia onde a maioria absoluta das municipalidades são completamente dependentes dos repasses de recursos estaduais e federais. Esse quadro fica ainda mais complicado no que diz respeito ao domínio de vastas extensões territoriais amazônicas pelo narcotráfico. Isto não significa de modo algum que as lutas locais perderam significado. É nos territórios que a vida encontra significados (no plural) e é a partir deles que a engrenagem das mudanças se movimenta. Todavia, boa parte das soluções somente serão alcançadas com a articulação em rede dessas mobilizações territoriais com as demais escalas - do local ao internacional.

Nossa realidade não pode ser pensada como um bolo que é feito de diversas camadas, uma sobre a outra. Não! O internacional está no local,  o local no nacional, o nacional no regional e assim por diante. Se um dia já nos foi dito que a luta da classe trabalhadora é internacional, hoje, os atores sociais contestadores do sistema são múltiplos e precisam atuar nessas diferentes escalas, ao mesmo tempo. O fato é que qualquer organização que não esteja preparada para essa nova situação tende a sucumbir. Esta dinâmica serve para as lutas por saúde, educação, regularização fundiária, coleta e tratamento de esgoto, defesa da democracia, enfrentamento às crises climática e ambiental e outras mais.

A vida passa por aqui.


A realização da COP-30 na Amazônia contribuiu de certa forma com processos já em andamento de construção de convergências entre organizações das sociedades civis do Brasil e de outros países que almejam estabelecer objetivos e programas comuns de ação, compartilhamento de expertises e recursos. É o caso, por exemplo, de iniciativas como a Cúpula dos Povos, o Movimento pela Terra e Pelo Clima, a COP das Baixadas, a COP do Povo, o Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA) e a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM).

São muitas as iniciativas agregando a diversidade de atores sociais da região e de fora dela em torno de redes (multi)temáticas: agroecologia, ambientalismo, reforma urbana, luta contra o patriarcado, defesa dos direitos socioterritoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais, monitoramento do setor financeiro e de grupos empresariais, fortalecimento da democracia e de suas instituições, entre outros. Todavia, profundas divergências vieram à tona tendo como centralidade o debate acerca das alternativas às crises climática e ambiental e ao modelo hegemônico de desenvolvimento. A relação da exploração do petróleo com a transição energética é um exemplo de problemática que muitas vezes coloca em posições opostas integrantes do campo progressista/contrahegemônico.

Por outro lado, os blocos hegemônicos de poder interessados em fazer expandir o controle do grande capital sobre os territórios e seus recursos têm colocado em prática uma das máximas da estratégia de poder/militar: dividir para governar. Nesse sentido, estabelecem parcerias com organizações da sociedade civil e desembolsam vultosos recursos às mesmas, realizam pressões de todo tipo, ameaçam, destroem políticas públicas inclusivas, cooptam organizações de base e suas lideranças e contam, inclusive, com a efetiva participação de parcelas dos movimentos sociais e de ONGs, além de integrantes de instituições de ensino e pesquisa. O “marketing verde” na mídia corporativa é outra dessas ações, utilizando fartamente a imagem de figuras públicas que contam com a simpatia de população. Isso tudo tem contribuído ao recrudescimento de divisões no interior do campo progressista.

O momento atual apresenta condições adequadas para o estabelecimento de fortes e duradouras alianças em defesa da Amazônia e da vida no planeta. Mais do que nunca a constituição de uma Aliança dos Povos da Floresta é necessária. Chico Mendes continua vivo, atual. Uma poderosa rede desse tipo teria condições de atuar nas diferentes escalas, promover massivas mobilizações sociais e efetivamente atravancar o projeto destruidor capitalista neoliberal na perspectiva de outros modelos alternativos. Então, por que as grandes organizações da Amazônia brasileira não avançam nesse sentido? Quais obstáculos impedem o estabelecimento de alianças estratégicas? As possíveis divergências existentes impedem o alcance desse objetivo? É possível a mediação desse processo? Alguém se disporia a dar o primeiro passo?

Chico Mendes: mais atual do que nunca.

Em tese, ganhos de curto e médio prazos obtidos a partir de pressões, negociações e parcerias com o governo federal e/ou outras instituições não impedem a busca por alianças estratégicas em torno de um projeto contrahegemônico, de longo prazo. A questão é complexa e ao mesmo tempo simples: o capitalismo nos levará à morte, porque a morte é a mola que alavanca o sistema. A morte em vida, inclusive, de pessoas e/ou organizações.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Aquaman 2 e o engodo sobre as crises climática e ambiental.

Engodo pode ser compreendido como um "artifício com que se tenta atrair, aliciar ou induzir alguém; ardil, manobra, tapeação". Ou seja, engodo tem o mesmo significado de cilada. Mas o que isso tem a ver com o filme Aquaman 2: O Reino Perdido, lançado em 2023? Vamos começar com um resumo do filme. Aquaman vive tranquilo cuidando do seu filho e, ao mesmo, tempo, governa o reino de Atlântida. Tarefa, aliás, que ele acha enfadonha, um saco. Lá pelas tantas Arraia Negra, um de seus inimigos e interpretado por um ator negro, põe em prática um plano para libertar uma força maligna presa há séculos por conta de um feitiço. Essa força do mal está congelada. Qual então é o plano do Arraia Negra? Acelerar o aquecimento global que já vinha acontecendo, utilizando um tipo de combustível altamente poluente escondido no fundo do oceano. O derretimento das calotas polares era necessário para se chegar ao vilão aprisionado e libertá-lo.

É preciso dizer que a tal força maligna orienta Arraia Negra para que se aproprie de armamentos e veículos criados a partir de tecnologias antigas, assim como de um tridente que lhe dá grande poder. Por conta disso, Aquaman tem que superar suas divergências com o irmão e fazer com este uma aliança que garanta a sobrevivência de Atlântida e do próprio planeta, além de impedir o retorno do coisa ruim.


O filme desenrola-se com muita luta, uso de armas e de animais marinhos nos conflitos. Um típico filme de ação. Porém, o detalhe mais importante está no final. Depois de derrotar o Arraia negra, que prefere morrer do que entregar-se, Aquaman convence os povos dos oceanos - sim, são vários povos - a iniciar contato com o povo da superfície para estabelecer alianças em nome da vida e da preservação do planeta. Por conta disso, Aquaman assume o posto de embaixador de tais povos junto a uma espécie de ONU. No discurso em que se apresenta, Aquaman fala da importância da cooperação mútua, particularmente na área tecnológica, para salvar as diferentes espécies. E aqui está o ponto central do que queremos abordar.

Todas e todos sabemos do poder das mensagens subliminares presentes nas produções cinematográficas de Hollywood. Nelas, os Estados Unidos sempre aparecem como povo e governos amantes da liberdade, os que defendem o mundo das denominadas por eles como forças do mal e/ou totalitárias; os que são comprometidos com a vida, a democracia e suas instituições. Não à toa a bandeira estadunidense aparece ao final de muitos filmes, como os do Homem-Aranha ou Super-Homem.

No filme do Aquaman o capitalismo não existe. Não é a força destruidora deste que está levando o planeta cada vez mais perto do precipício. Não é a sanha deste por lucro que está promovendo a destruição de ecossistemas e colocando em risco grandes parcelas da população mundial. Por outro lado, de acordo com o filme, a saída ao caos que nos encontramos está na tecnologia e não na política. Mas quem controla essas tecnologias oferecidas como "alternativas"? Quem controla os capitais que as cria, patenteia e vende?

O filme Aquaman 2: O Reino Perdido é um verdadeiro canto da sereia, uma exaltação à despolitização do debate sobre as crises climática e ambiental. Suas mensagens subliminares promovem a acomodação e a crença de que os que detêm a tecnologia "irão nos salvar". Estamos diante de um discurso e um conjunto de práticas que somente interessa aos mercadores do clima, às corporações transnacionais que pretendem ganhar mais dinheiro às custas da destruição da Terra, a poderosos Estados nacionais, às empresas de consultoria e consultores(as), às ONGs-empresas, à mídia corporativa, às religiões-empresas etc... Enquanto isso, o capitalismo é o verdadeiro "Reino Perdido" que precisa ser encoberto para que seus crimes permaneçam impunes. Um espelho da COP-30?

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Não estamos preparadas(os).

No último dia 05 deste mês as Polícias Militar e Civil do Pará apreenderam um carregamento de armas pesadas no município de Abaetetuba, este localizado na mesorregião Nordeste Paraense, a cerca de 123 km da capital, vindas provavelmente do Suriname para abastecer grupos criminosos que atuam no estado. Foi a maior apreensão de fuzis realizadas em solo paraense: 16 fuzis, sendo 13 calibre 556 e 3 calibre 762. Em agosto, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu 75 kg de cocaína que seguiam rumo a São Luís, no Maranhão. Em outubro foram 50 kg de cocaína apreendidas em Abaetetuba. Por sua vez, em abril deste ano a Polícia Federal realizou ações em sete estados brasileiros contra grupos criminosos especializados no envio de cocaína para a África e Europa, utilizando-se de barcos pesqueiros para tal empreitada. No Pará, a ação desenrolou-se em seis municípios: Vigia, Curuçá, Abaetetuba, Ananindeua, Belém e Altamira. Com exceção da capital, os demais são pequenos e médios municípios.

Apreensão de armamentos em Abaetetuba (PA)

O fato é que os grupos criminosos com fortes vinculações internacionais estão não somente disputando os grandes centros urbanos amazônicos, como Belém e Manaus, mas também pequenos e médios municípios estrategicamente localizados ao longo do rio Amazonas e seus afluentes. O Pará e o Amapá são importantes nessa disputa entre os cartéis por suas proximidades com o Oceano Atlântico. Pequenos municípios até então pacatos agora são atravessados por conflitos entre gangues. Eles controlam vicinais e ramais, a circulação de pessoas e carros nas comunidades e entre as comunidades, impõem toque de recolher e a lei do silêncio, interferem nas eleições. Além disso, ameaçam lideranças comunitárias e suas organizações.
Amazônia: grande rota do tráfico
internacional de drogas.
Povos indígenas e comunidades tradicionais enfrentam as pressões de narcotraficantes de uma forma nunca antes vista. Isto porque tais grupos apresentam-se cada vez mais organizados e articulados, desde os territórios até o plano internacional. Hoje, há muitos casos de jovens indígenas, quilombolas e outros envolvidos(as) com o crime organizado e mesmo sendo assassinados(as) por conta de dívidas com o tráfico. Quando tais grupos instalam-se numa comunidade e/ou território os modos de vida alteram-se radicalmente. O medo se impõe. Até mesmo as lutas de resistência em defesa dos territórios coletivos/comunitários sofrem baixa significativa. A divisão nas bases é estimulada e acentuada.
Um dos grande legados do governo Bolsonaro foi ter contribuído para alçar o crime organizado existente na região a um outro patamar. Agora, presenciamos verdadeiros consórcios do crime juntando narcotraficantes, contrabandistas, milicianos, grileiros, garimpeiros ilegais, desmatadores e outros. Financiamentos cruzados fortalecem as redes criminosas, implementam/utilizam logísticas e rotas comuns, constituem redes de proteção com diferentes segmentos do aparato estatal.
Ou seja, a defesa dos direitos socioterritoriais de povos indígenas e de comunidades tradicionais tornou-se ainda mais complexa e estes segmentos encontram dificuldades para defenderem-se adequadamente do crime organizado. Aliado a isso, os Clubes de Tiro espalhados pela região podem estar servindo de base para o treinamento de criminosos.
Se já não bastasse a ação dos mercadores do clima e suas propostas de bioeconomia, mercado de carbono e outras mercantilizadoras da vida, as/os guardiãs(ões) das florestas, das águas, enfim, dos bens comuns, ainda têm que lidar com esse novo e tenebroso cenário, mas pouco ou nada se vê sobre tal questão nos debates sobre a COP-30, por exemplo.
A defesa da (Pan)Amazônia, de seus povos e dos modos de vida ancestrais aqui presentes também passa pelo resoluto enfrentamento dos consórcios do crime. Até mesmo porque tais consórcios são funcionais à livre ação destruidora do grande capital, dos conglomerados econômico-financeiros nacionais e transnacionais. Afinal de contas, a história do capitalismo é ela própria a história contínua do cometimento de crimes.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

A COP-30 subiu no telhado?

A vitória de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos complexificou ainda mais as negociações em torno do combate às mudanças climáticas. Os discursos de Trump demonstram que o caminho a ser seguido por seu governo será de confronto com pesquisadoras(es) e instituições, cujos estudos científicos comprovam a ocorrência e o agravamento do aquecimento global, com organizações da sociedade civil que se mobilizam nos quatro cantos do planeta exigindo mudanças significativas nas formas como produzimos, consumimos e geramos lixo; com os movimentos sociais anticapitalistas, com povos ancestrais e suas lideranças e com a nossa mídia alternativa. Se antes já havia demonstrações de que os críticos das negociações multilaterais voltadas ao atendimento dos interesses das grandes corporações são os verdadeiros inimigos, tal dúvida não existirá mais com Trump e seus aliados. Elon Musk, Bolsonaro e Milei, entre eles.

O problema é que sem os Estados Unidos qualquer negociação em torno do combate às mudanças climáticas estará fadada irremediavelmente ao fracasso, já que aquele país é o maior consumidor de petróleo do planeta, por exemplo. Para piorar o cenário, Trump pretende avançar a exploração de petróleo no Alasca, ampliar o emprego da técnica de fracking* para a extração de petróleo e gás de xisto e retirar os EUA de acordos internacionais, entre outras iniciativas. Some-se a isto, a disseminação/reafirmação do discursos negacionista, a desestruturação das políticas ambientais e dos órgãos de gestão, bem como o recrudescimento das pressões para que o país se apodere de recursos estratégicos ao redor do planeta (petróleo da Venezuela e o lítio da Bolívia, para citar apenas esses dois casos). O que significará a possibilidade de novas intervenções militares, apoio a golpes de Estado e envio de tropas se considerar necessário. O mundo imaginado por Trump é fundado no poder das armas, das revoluções coloridas, do preconceito, do patriarcado, do conservadorismo religioso, da defesa radical dos interesses dos mais ricos, da xenofobia e do racismo. Portanto, um mundo mais instável, autoritário, desigual e violento.

O que será da COP-30 em Belém do Pará sem os Estados Unidos nas mesas de negociações, ou sem comprometer-se realmente com os acordos a serem estabelecidos? Aliás, mesmo sem assumir compromissos significativos com o combate às mudanças climáticas, os Estados Unidos deverão empenhar-se para o aprofundamento das "alternativas de mercado", que é um dos itens que verdadeiramente lhes interessa: mercado de carbono, "soluções" a partir da geoengenharia, financeirização e outras. Por conseguinte, parece um tremendo equívoco apostar a maior parte das fichas nas negociações no interior da COP oficial, tal como defendido e/ou estimulado por determinados segmentos sociais, como as ONGs-empresas.

Soluções duradouras e estruturantes não sairão das COPs. Mesmo assim são arenas políticas que não  podemos simplesmente desprezar. Contudo, sem a pressão das sociedades nacionais e suas redes de lutas internacionais, sem que estas sejam capazes de mobilizarem-se e realmente impor derrotas aos poderosos conglomerados econômicos e aos blocos de poder dos quais eles fazem parte, nosso futuro comum se torna mais e mais incerto. Por isso, esse processo deve contribuir para constituirmos nosso campo contrahegemônico, cuja utopia deve estruturar-se na construção de novas relações sociais e econômicas, das nossas sociedades com a natureza e mesmo com o sagrado, pois o capitalismo é morte. Simples assim. Nesse sentido, a Cúpula dos Povos pode de fato reunir em torno de si muitos dos segmentos comprometidos com mudanças estruturais na sociedade. E há também espaço para a formação de outras articulações do mesmo tipo.

A COP-30 em Belém pode tornar-se um marco histórico da intervenção das nossas sociedades e organizações nesse processo. Mobilizar, ocupar, resistir, pressionar, propor, cobrar, encurralar, constranger e denunciar deveriam ser alguns dos verbos a orientar o conjunto das nossas iniciativas. O problema é que há quem prefira restringir tudo ao verbo negociar, se possível, em salas climatizadas.

A técnica é criticada por ambientalistas, que veem diferentes problemas no processo: contaminação do lençol freático por substâncias químicas, uso intensivo de água, degradação do meio ambiente e riscos para a saúde.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Primeiro Round: eles estão vencendo.

Para que governos, corporações econômico-financeiras nacionais e transnacionais, mídia corporativa, empresas de consultoria e de certificação, ONGs-empresas e outros segmentos sociais comprometidos com as alternativas de mercado às mudanças climáticas avancem substancialmente com suas agendas nas negociações multilaterais é necessário alcançar primeiramente um objetivo básico: dividir os movimentos indígenas e de comunidades tradicionais - particularmente o quilombola - de cima abaixo, buscando cooptar suas lideranças, desagregando suas organizações a partir dos territórios e inviabilizando qualquer tentativa de estabelecimento de alianças estratégicas entre eles; tornando-os dependentes ou reforçando diferentes modalidades de dependência. Some-se a isto, a constituição de "parcerias" entre organizações da sociedade civil e de setores da academia com poderosos grupos empresariais, bem como a imposição de condicionantes para o acesso a recursos internos e externos para o desenvolvimento de projetos comunitários/sociais. Ou seja, um conjunto de ações coordenadas que pretendem restringir a capacidade de resistência de quem se coloca contrário(a) ao "ambientalismo neoliberal" e aos interesses dos blocos hegemônicos de poder capitalista.

O outro lado da moeda da desestruturação da capacidade de mobilização e de resistência dos movimentos indígenas e de comunidades tradicionais - e de outras organizações da sociedade civil -  é a despolitização do debate sobre as mudanças climáticas. O objetivo é enclausurar tal debate a questões técnicas e às "alternativas" baseadas em novas tecnologias. Tecnologias estas sob o controle dos blocos hegemônicos de poder capitalista, reforçando assim novas formas de dependência dos países do Sul Global aos do Norte Global. Sem falar que as estratégias de "esverdeamento" dos países do Norte Global passa necessariamente pela intensificação da dependência dos países, da exploração dos recursos e dos povos do Sul.

O problema é que em meio a esse cenário não conseguimos ver iniciativas que caminhem no sentido do estabelecimento do que um dia foi definido por Chico Mendes como Aliança dos Povos da Floresta. Dificuldades organizativas e financeiras, os ataques diuturnamente sofridos por povos indígenas e comunidades tradicionais contra seus membros e territórios, leituras divergentes sobre a natureza e projeto político do governo Lula e da quadra histórica que vivenciamos, além certa falta de vontade política por parte de determinados segmentos, mesclam-se e acabam contribuindo de alguma forma para engaiolar todo o potencial que dispomos de fazer avançar alternativas verdadeiramente estruturantes para resolver o problema das mudanças climáticas.

A foto de Helder Barbalho, governador do Pará, com sua comitiva em Nova Iorque quando do anúncio do acordo com megacorporações capitalistas para a venda de crédito de carbono é representativa da perda que vimos sofrendo nesse round. Vamos continuar perdendo por pontos ou o nocaute se aproxima? Ou vamos nos levantar, nos recompormos e tal como afirmou o grande boxeador Muhammad Ali diremos a nós mesmas(os) que o "impossível não é um fato, impossível é uma opinião".


segunda-feira, 22 de julho de 2024

As nuances entre capitalistas liberais e capitalistas de extrema-direita.

 As eleições nos Estados Unidos ganham novos contornos após a desistência de Joe Biden de concorrer às eleições deste ano. Analistas afirmam que a derrota de Donald Trump é fundamental para a manutenção da democracia e de suas instituições não somente naquele país. Há evidentemente diferenças nada desprezíveis entre os dois; diferenças que talvez se acentuem caso Kamala Harris seja a candidata do Partido Democrata: um feroz anti-imigrante contra uma descendente de indianos, um que recebe o vibrante apoio de membros da Ku Klux Klan e outros segmentos de extrema-direita e uma afrodescendente que conta com a simpatia de liberais e de organizações progressistas. Enfim, há realmente muitas diferenças a lhes distinguir. Contudo, nas questões centrais que dizem respeito à manutenção do poder hegemônico dos EUA essas diferenças se diluem substancialmente. As guerras continuarão a ser travadas, estimuladas, monitoradas e controladas como sempre foram; os segmentos considerados inimigos serão perseguidos, combatidos, mantidos à distância ou eliminados;  os "amigos" continuarão a ser vigiados pelas agências de informações; a poderosa propaganda do "nós contra eles" permanecerá ativa; os recursos naturais do planeta serão buscados a qualquer custo, financiada sua exploração e haverá pressão para que as empresas estadunidenses adquiram o controle dos mesmos; novas "lava-jatos" serão instauradas; as "guerras híbridas" que consistem, entre outras estratégias, em desestabilizar regimes/governos considerados inimigos ou pouco parceiros continuarão a ser apoiadas mundo afora (dinheiro, pessoal e guerra de propaganda), tais como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua em nosso país durante o governo Dilma Roussef ou setores neonazistas na Ucrânia; o apoio ao genocídio israelense contra palestinos(as) manter-se-á firme. Essas agendas unem os Partidos Democrata e Republicano. A história estadunidense comprova essa convergência de interesses estratégicos.

No Brasil, diversos capitalistas liberais não tiveram qualquer pudor em apoiar capitalistas de extrema-direita como Jair Bolsonaro nas eleições de 2018; entre eles banqueiros, donos de emissoras de televisão e de rádio e até mesmo um certo e "meigo" apresentador de televisão hoje empenhado em alçar Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo, o "Bolsonaro paulista", à condição de candidato à Presidência da República. Para isso será necessário envidar esforços a fim de "humanizar a extrema-direita" junto a opinião pública.

Segundo o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, sociedades de diferentes épocas sempre produziram seus "estranhos" seja por motivos cognitivos, morais ou estéticos. Os estranhos são aquelas pessoas que de alguma forma não se encaixam no padrão dominante. São os/as que tentam ultrapassar as fronteiras e os limites estabelecidos e que por conta disso causam mal-estar aos/às que impõem a ordem a ser seguida. Olho para o Brasil e minha percepção é que os/as estranhos(as) de Bauman referem-se aos pretos e às pretas que teimam em entrar na universidade, aos povos indígenas e comunidades tradicionais que teimam em manter seus modos de vida e territórios sob controle coletivo, os/as moradores(as) das favelas que não aguentam mais a violência do Estado ou que resolveram "ocupar" as praias dos bacanas, os/as artistas das periferias que passam a frequentar os ambientes dos grã-finos. Mas também pode ser o Vinicius Junior que resolveu peitar os racistas espanhóis.

Jamais esqueçamos isso: há limites, fronteiras que não podem ser ultrapassados. Por conseguinte, o/a capitalista liberal sempre apoiará as lutas feministas ou contra o racismo desde que não coloquem em xeque a ordem estabelecida. Isto é, desde que essas lutas mantenham-se desconectadas de seu caráter de classe. O/A capitalista de extrema-direita, nem isso. O/A capitalista liberal sempre apoiará a realização de eleições regulares, o revezamento no exercício do governo e a liberdade de expressão desde que a esquerda ou os segmentos progressistas não se atrevam a mexer no que lhes é mais sagrado: a propriedade privada. O/A capitalista de extrema-direita quer simplesmente eliminar quem lhes faz oposição. O/A capitalista liberal apoiará as lutas pela conservação das florestas e pelo direito de povos indígenas e comunidades tradicionais aos seus territórios desde que estes não imponham restrições a entrada de novas terras ao mercado, que não impeçam a alocação de projetos de infraestrutura logística que conectem as áreas ricas em recursos naturais ao comércio globalizado, que aceitem ter seus conhecimentos ancestrais apropriados por poderosos conglomerados econômicos nacionais e transnacionais na produção de cosméticos, remédios e outros produtos sem que lhes sejam reconhecidos seus direitos de patente; ou que aceitem participar das alternativas de mercado às mudanças climáticas, por exemplo. O capitalista de extrema-direita quer mais é que as políticas e órgãos ambientais "explodam".

As nuances existem. Todavia, os limites impostos por ambos capitalistas jamais nos farão superar as mazelas criadas e sustentadas pelo sistema, pois o contrário significaria a destruição do mesmo. As agudas contradições que se aprofundam no decorrer do tempo tendem a tornar a violência, em suas diferentes modalidades, o recurso a ser empregado com vigor e sem qualquer hesitação. Apoiar as alternativas autoritárias, por exemplo, nunca deixou de estar no cardápio dos/das liberais. A história do fascismo italiano ou da ditadura civil-militar no Brasil são modelares. E assim continuará por longo período. O problema é que muitos setores do nosso campo acreditam piamente que poderão alcançar mudanças duradouras flertando com o programa dos capitalistas liberais, ou buscando incorporar segmentos extremistas à base de apoio de seus governos sem construir efetivamente um contrapoder, uma contrahegemonia. Muito estranho...

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Os/As extremistas estão chegando. Estão chegando os/as extremistas.

 E eis que a extrema-direita saiu fortalecida na eleição ocorrida neste último final de semana ao parlamento europeu, particularmente em países como Alemanha, França e Itália. Os discursos de ódio, antimigração e contra as instituições democráticas ganharão mais espaço ainda nas agendas político-ideológicas. Evidentemente, tais resultados tendem a repercutir para além das fronteiras europeias. Caso Trump não seja impedido legalmente de concorrer às eleições estadunidenses e as vença, o quadro favorável ao extremismo se acentua ainda mais. Uma das questões que se coloca no momento é: esses resultados eleitorais são somente uma "nova" onda conservadora, ou na realidade se trata de uma tendência em escala global?

No Brasil, creio eu, não compreendemos nos devidos termos todo o significado do que foi o governo Jair Bolsonaro. Com este, os grupos sociais extremistas ganharam voz e visibilidade. O que temos hoje são movimentos sociais com grande capacidade de mobilização, capazes de interferir e pautar a agenda política nacional e que vêm crescendo em todos os cantos do país, mesmo que não uniformemente. Um projeto que articula poderes econômico e político (controle de territórios e dos recursos neles disponíveis, destruição de garantias constitucionais, fragilização das legislações socioambientais, expansão do agronegócio, padronização socioprodutiva e das paisagens etc.), fé e religião (defesa da submissão a autoridade dos/das pastores(as) e projeto de poder fundado na teologia do domínio), comunicação de massa, contínuo avanço sobre o aparelho de Estado (representação parlamentar e controle sobre órgãos de segurança pública, por exemplo), a relativização da verdade (a verdade virou mera opinião distribuída fartamente pelas redes sociais confrontando, inclusive, aquelas demonstradas cientificamente, vide o caso dos segmentos antivacina, e onde a mentira é tão somente a ponta do iceberg desse processo mais profundo); adoção de medidas para avançar o controle dos homens sobre o corpo, a mente e o trabalho da mulher, tornando-as políticas governamentais; racismo, xenofobia e homofobia.

Chega a ser risível as análises de que não podemos contribuir para o acirramento das disputas político-ideológicas no país. A extrema-direita e seus aliados fazem isto diuturnamente, pois tomaram para si a iniciativa de enfrentar e derrotar a esquerda e os setores progressistas do país. Num cenário como esse há quem pense no nosso campo que o zero a zero é um ótimo resultado. Afinal, de acordo com esse "ponto de vista", o gol é um mero detalhe.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Um Barbalho, dois Barbalhos, três Barbalhos...

Circula pelos meios políticos a informação de que Helder Barbalho (PMDB) possui 82% de aprovação somente na capital paraense. Mesmo que o índice não chegue a tanto é notório a ampla base de apoio político e popular alcançado por ele não somente aqui, mas em todo o estado. Tal situação é fruto de um conjunto de fatores, tais como execução de diversas e vistosas obras públicas, eficiente e profissional estratégia de marketing/propaganda, a incorporação à estrutura de governo de caciques das mesorregiões Oeste e Sul/Sudeste do Pará na tentativa de controlar os descontentamentos das elites locais e com isso arrefecer o ímpeto separatista das mesmas, além da construção de amplo leque de alianças políticas que agregam desde segmentos neopentecostais bolsonaristas até parcela de setores progressistas, como o Partido dos Trabalhadores (PT). É também digno de nota o choque de imagem que Helder promoveu ao longo dos últimos anos, desde que foi prefeito do município de Ananindeua, integrante da Região Metropolitana de Belém, revertendo em grande medida a antipatia e ojeriza que parte significativa da população paraense nutria contra as famílias Barbalho e Zaluth, esta última a vertente da mãe do governador.


A habilidade demonstrada para articular apoios partidários, bem como parcerias com organizações da sociedade civil não encontra paralelo em outros governos. Ao menos desde a retomada das eleições para governador em 1982. Talvez a referência mais próxima seja justamente com o primeiro governo do pai dele e atual senador, Jader Barbalho. O clamor popular pelo fim da ditadura e a possibilidade concreta de infligir derrota eleitoral contra os militares e sua base civil/empresarial fez com que diversos setores da esquerda à época se somassem à campanha e depois ao governo de Jader. Foram os casos, por exemplo, de parcela do então Partido Revolucionário Comunista (PRC) - parte abrigada no MDB e outra no PT -, MR-8, PCB e PC do B. De lá para cá nenhum outro mandatário havia conseguido tal feito. Helder, sim. Seu governo é uma colcha de retalhos de siglas partidárias. O que lhe garante céu de brigadeiro não somente no parlamento. O Tribunal de Contas do Estado (TCE) que o diga.

O "novo" modelito barbalhiano inclui também a recauchutagem no discurso político-ideológico. Profundamente comprometido com as alternativas de mercado às crises climática e ambiental, Helder abraçou a economia verde como elemento estruturante da sua estratégia, inclusive para alçar voos mais longos. Com isso, cacifou-se diante de diferentes setores da comunidade internacional - ONGs, governos e grupos empresariais -, trouxe para sua base segmentos dos movimentos sociais e tornou-se o principal interlocutor do governo Lula na Amazônia. Com Helder Barbalho a bioeconomia passou a ser um mantra, que a tudo justifica e promove.


Entretanto, o lado B helderiano comporta sólidos compromissos com o agronegócio (soja e dendê, em especial), mineração, madeireiros, empresas dos setores logístico e de cosméticos e, como não podia deixar de ser, com consultores, certificadores e investidores do mercado financeiro vinculados à economia verde. Por trás disso tudo, a implementação de diferentes iniciativas para garantir acesso aos territórios de povos indígenas e de comunidades tradicionais, além de áreas de conservação ambiental, à exploração empresarial nacional e transnacional. O mercado de carbono, com estímulo à assinatura de contratos de crédito de carbono por parte das comunidades, e a Lei de Terras, esta aprovada pela Assembleia Legislativa do Pará, servem de exemplo.

Enquanto isso, os crimes socioambientais continuam a solta no estado. É o que ocorre no município de Barcarena, cujo Distrito industrial até hoje não possui sequer licença ambiental. Também podemos incluir as ações das mineradoras Hidro e Imerys em territórios quilombolas (no município de Moju, por exemplo) e do povo Tembé (Tomé-Açu); o apoio irrestrito à construção da Ferrogrão - que promoverá destruição em larga escala nos territórios do povo Munduruku (Oeste do Pará), a instalação de portos que atingirão diversas comunidades ribeirinhas - Maicá, em Santarém, e no Baixo Tocantins.


Outro passo importante na recauchutagem da imagem familiar foi o estabelecimento do "acordo de paz" com os Maiorana, representantes locais das organizações Globo. Evidentemente, tal acordo passou pela retomada da veiculação de propaganda oficial nos veículos de comunicação de propriedade daquela família, entre outras medidas. O fato é que os "radicais" da família perderam poder interno e Helder passou a contar com a "simpatia" do grupo empresarial.


A tendência predominante é que Helder Barbalho eleja a maior parte dos(as) prefeitos(as) e dos(as) vereadores(as) paraenses em outubro próximo, com a direita/extrema-direita dentro e fora desse arco de alianças conquistando fatia importante dos governos locais. Já os setores progressistas e de esquerda devem manter-se como coadjuvantes nesse processo. Nada indica o contrário até este momento.


A perda das eleições em Belém por parte da esquerda é uma possibilidade real. Eder Mauro, o pré-candidato de extrema-direita, tem chances de obter uma votação relevante. Contudo, quando Helder colocar as máquinas governamental e partidária para funcionar as chances do delegado miliciano devem reduzir-se consideravelmente. Talvez, para Eder Mauro, as próximas eleições sejam apenas um teste em vista do seu objetivo principal: eleger-se senador em 2026.

Uma das formas de enfrentar esse processo avassalador passaria pelo estabelecimento de alianças estratégicas dos movimentos sociais em torno de candidaturas de esquerda nos diferentes municípios. Creio ser um  erro deixar tarefa tão importante nas mãos exclusivas das direções partidárias e às suas lógicas internas de disputas, porque precisamos de pessoas comprometidas com as lutas populares e suas pautas. Para nós, pouco adianta que sejam eleitas figuras que, mesmo sendo de partidos de esquerda ou do campo progressista, estejam mais próximas de uma agenda liberal - a consolidação do mercado de carbono, por exemplo. É importante que as eleições sejam mais um passo na construção de um campo contrahegemônico. É disso que precisamos.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

É logo ali.

Estamos vivenciando um momento bastante delicado. Isto porque ele se materializa enquanto um ponto de bifurcação histórico, daqueles em que as incertezas dominam o cenário. Há tantas possibilidades em aberto que fica difícil apreender adequadamente as consequências das decisões que estão sendo tomadas agora. Há aqui uma primeira questão a ser abordada: a política vem sendo diuturnamente atacada de diferentes formas justamente quando ela é mais necessária diante dos enormes desafios que se apresentam. A política aqui entendida como uma das ações humanas da mais alta relevância.

despolitização da política levada a cabo diuturnamente ao redor do planeta agrega, por motivos diversos, (i) a extrema direita e sua tentativa de impor regimes autoritários fundados no medo, na violência, no ódio, no individualismo exacerbado acoplado à destruição da perspectiva da universalização de direitos, bem como no completo repúdio à democracia e suas instituições, turbinadas pelo manuseio dos algoritmos e da inteligência artificial para atingir tal finalidade; (ii) os conglomerados midiáticos e segmentos encastelados nos aparelhos de Estado no uso do lawfare[1], da mentira e da manipulação como estratégia de destruição de adversários; (iii) setores religiosos conservadores que em nome de um suposto deus justificam a guerra, o armamentismo, os ataques a grupos minoritários, a violência contra mulheres, negros(as) e integrantes de distintas periferias (sejam moradoras de bairros populares, população de rua e/ou de países e regiões marginais do capitalismo), bem como demonizam as esquerdas e seus programas partidários; (iv) atores sociais diversos, inclusive do "nosso campo", comprometidos com a implementação de soluções de mercado às múltiplas crises porque passam nossas sociedades, que abrange desde a ideologia do empreendedorismo em substituição paulatina à noção de cidadania até às "alternativas" para as crises climática/ambiental, como o mercado de carbono. Em variados momentos do debate sobre as mudanças climáticas, por exemplo, a crença de que a tecnologia - eficiente e neutra - evitará o pior se apresenta concorrendo com as soluções pela política.

As bifurcações que se apresentam são fundamentalmente de três ordens. A primeira diz respeito justamente às crises climática e ambiental. As mudanças no clima demonstram de maneira muitas vezes trágicas que o capitalismo, este um dos resultados históricos das ações/decisões humanas, nos colocou diante da possibilidade concreta de desaparecermos enquanto espécie da face da Terra. Nossa desgraça está no fato de que o sistema capitalista não demonstra qualquer capacidade de efetivar mudanças estruturais que revertam tal situação. Pelo contrário, o que "os donos do mundo" buscam a todo custo é encontrar formas de lucrar com essas crises. Os acordos que estão sendo costurados seguem de alguma forma por esse caminho. Nossa perspectiva conflita com tal trilha e nos leva a parodiar uma frase que ficou famosa e dizermos que o problema não é a molécula de carbono e sim o sistema, idiota! Não consigo ver saídas duradouras nos marcos do sistema. A segunda, é a possibilidade de uma hecatombe (massacre de um grande número de pessoas, mortandade, carnificina) nuclear. Nunca é demais lembrar que a guerra sempre foi usual para a recomposição/redefinição dos instrumentos e das formas de exercício de poder. Mais uma vez nossa espécie estaria em risco de desaparecimento, assim como ocorreu com outras espécies ao longo da história do nosso planeta. A terceira está relacionada ao rearranjo geopolítico mundial. Guerras na Ucrânia e na Palestina, disputa feroz por recursos energéticos, BRICS, aliança estratégica entre China e Rússia, desdolarização das economias, Rota da Seda, crise da OTAN, ascensão da extrema direita, crise da democracia liberal e de suas instituições e outros eventos provocam abalos nas estruturas que antes se mostravam sólidas. Essa miscelânea de processos imbricados uns nos outros também tem potencial para provocar conflitos de grande magnitude.
A tendência que se apresenta com forte possibilidade é o da generalização das crises e de confrontos em larga escala. Porém, tendência significa a disposição por um determinado caminho. Não é algo taxativo. Aí é que entra a política. As decisões que tomarmos agora é que vão confirmar ou não essa tendência. Se depender dos "senhores da guerra" é a trilha predominante. A questão é: nós os/as anticapitalistas, antipatriarcais e antirracistas acumularemos força suficiente para impormos alterações de rotas que efetivem outras tendências?


[1] Lawfare é uma palavra-valise introduzida nos anos 1970 e que originalmente se refere a uma forma de guerra na qual o direito é usado como arma. Basicamente, seria o emprego de manobras jurídico-legais como substituto de força armada, visando alcançar determinados objetivos políticos. Vide o caso da Lava-Jato no Brasil ou das ações judiciais que poderosos grupos empresariais empregam para criminalizar movimentos sociais e/ou suas lideranças.


terça-feira, 4 de outubro de 2022

Sobre cristãos que não acreditam em Deus.

Nós cristãos e cristãs aprendemos desde cedo que Deus é Onipotente, Onisciente e Onipresente. Isto é, não há nada ou ninguém mais poderoso que Deus (Onipotente). Ele tem conhecimento infinito sobre todas as coisas (Onisciente). E que Deus se encontra em todos os lugares: na natureza, no universo e dentro de cada um e cada uma de nós (Onipresente). Além disso, acreditamos que em algum momento seremos julgados pelas nossas ações e omissões, pelo bem e pelos males que fazemos em relação a nós mesmos, às demais pessoas e a tudo à nossa volta. Entretanto, não é isso que uma parcela significativa de cristãos e cristãs parece acreditar.

Em primeiro lugar, há aqueles/aquelas que colocam o demônio tão poderoso quanto Deus. Diariamente invocam o demônio nos cultos e às vezes falam mais o nome dele do que o do próprio Deus nas suas pregações. Destinam ao Belzebu enormes poderes a fim de incutir o medo e o terror nas mentes de seus seguidores. A vida passa a ser orientada não pela confiança no Deus Onipotente, mas no medo de cair nas garras poderosas do diabo. Dessa forma, é Satanás que prevalece como referência cotidiana e não um Deus Todo Poderoso que nos livra de todo mal.

Em segundo lugar, tais cristãos/cristãs não acreditam realmente no julgamento divino. Daí darem a si próprios(as) o poder de julgar e decidir quem vai ou não ao "paraíso". Tomam o lugar de Deus. Lançam maldições aos/às que consideram pecadores(as), se regozijam por já estarem entre os/as eleitos(as), assumem o papel de juízes/juízas e determinam o destino de cada um(a). É mais um recurso dos/das cristãos/cristãs que não acreditam em Deus para exercer poder de influência sobre determinado rebanho.

Em terceiro, ignoram completamente os mandamentos divinos. No Brasil percebemos nos últimos anos que muitos(as) cristãos/cristãs demonstram mais amor aos fuzis, às metralhadoras e às pistolas do que à Deus sobre todas as coisas. Usam a mentira como arma política e como base de suas pregações, reproduzindo-as em larga escala por whatsapp e outros meios. Em vez de A verdade vos libertará, proclamada por Jesus, o lema desses(as) cristãos/cristãs é A mentira nos beneficiará. Cultuam a morte, defendem a pena de morte e afirmam que Jesus andaria armado com uma pistola em seu tempo se pudesse. Ou ainda que gays devem morrer. Os mandamentos Amar ao próximo como a si mesmo e Não matarás se tornam então apenas letras mortas. Deus que é todo amor é visto por esses/essas cristãos/cristãs como Deus guerreiro, vingativo, com todas as imperfeições humanas. Um Deus que na realidade não é Deus. Dai não verem qualquer problema em usar o seu Santo Nome para enriquecer, barganhar cargos, obter concessões para rádios e TVs; exigir os votos dos seus rebanhos para si, parentes ou aliados. Os cultos parecem mais comícios eleitorais do que atos de fé. Também estimulam e celebram as perseguições a outras religiões, grupos sociais e pessoas. É o ódio que prevalece e Deus é utilizado para referendá-lo.

Em quarto lugar, para tais cristãos/cristãs Deus não é Onipresente, mas somente pode ser encontrado nos prédios das igrejas. A ideia de que Deus existe dentro de cada um(a) de nós é deixada de lado. O divino presente em cada pessoa é retirado, restando somente o corpo.


Por fim, esses/essas cristãos/cristãs clamam em som alto que Jesus está retornando. A verdade é que Jesus vem todos os dias na forma de pessoas necessitadas, que passam fome, que têm sede de justiça, que são marginalizadas, que sofrem preconceito, que fazem caridade, que lutam por um mundo justo e solidário, que defendem a natureza, que não aceitam as desigualdades sociais, que andam no meio das que são levadas à condição de párias da sociedade, mas que são perseguidas e assassinadas cotidianamente por ações e omissões. Todavia, os/as cristãos/cristãs que não acreditam em Deus acham tudo isso apenas mi-mi-mi.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Sobre o nosso olhar

Certo vez li um comentário que dizia mais ou menos o seguinte: É duro acordar todo dia e ter que escolher uma entre as muitas notícias ruins de toda manhã. De fato, a situação é difícil. A capacidade dos poderes hegemônicos é espantosa. Vivemos atualmente sob o "império da cultura da morte". A morte e o sofrimento como política de Estado e das forças destruidoras do capital. Nela os indesejáveis precisam desaparecer. No Brasil, materializada pelo bloco de poder capitaneado por Bolsonaro.
Cultura da morte
O filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu um livro que eu gosto bastante intitulado O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Um dos artigos reproduz parte do título do livro: O que é contemporâneo? Um texto maravilhoso. As questões nele abordadas ofereceram a mim algum alento nesses tempos sombrios. Todavia, um alento compromissado, se podemos dizer desta forma, pois, ao contrário do que possa parecer num primeiro momento, não há passividade na medida em que nos conclama a entender o mundo. Uma atitude pró-ativa, engajada. E isto nunca foi tarefa das mais fáceis. Agamben apresenta chaves de leitura importantíssimas para a compreensão do que está ocorrendo à nossa volta.

A primeira questão é que não nos fixemos somente na luz. Olhar fixamente pra luz cega ou turva a visão de quem o faz. Olhe para o interior de uma fogueira de São João que você vai perceber isso facilmente. Ou seja, você terá grande dificuldade de entender o que se passa no mundo hoje se se dedicar somente ao que é facilmente visto, o que está à luz, na superfície ou na moda. Daí a importância de termos uma visão crítica sobre a mídia corporativa - desde as emissoras tradicionais de rádio, TV e jornais impressos até o Google, Facebook e outras gigantes do mundo virtual -, pois ela orienta o nosso olhar, incutindo em nós definições sobre o que é ou não importante, o que é ou não falso e verdadeiro. Precisamos educar nosso olhar para tentar enxergar aquilo que não é facilmente visto, ou que não está completamente exposto. Mirar o subterrâneo para tentar identificar as mudanças tectônicas, lentas, que não são lidas pelo olhar de quem só se fixa nas manchetes ou na "orelha" dos livros. Afirmar que Bolsonaro é autoritário ou fascista não é tão difícil. Gritar que a Lava-Jato foi uma das bases para a sustentação de um golpe de Estado que se efetivou também não é tão complicado. Difícil é explicar as entranhas da nossa sociedade que oportunizaram a Bolsonaro e seus acólitos chegarem ao comando do Estado brasileiro. Essa busca, porém, de romper com um tipo de conhecimento fundado no que reluz comporta uma armadilha que é o de cairmos no subjetivismo reacionário, que leva algumas pessoas a defenderem que a terra é plana, negar a ciência e a verdade científica, fazer campanha contra a vacinação em massa, afirmar que cada um tem a sua própria verdade ou ainda que Bolsonaro é um enviado de Deus. Vade retro!
Luz que cega


A segunda questão é que às vezes o distanciamento é a melhor maneira para enxergarmos adequadamente o que está acontecendo, compreendermos de forma aprofundada um processo ou um fato. Nem sempre quem está no centro da briga tem a melhor visão sobre o que realmente está ocorrendo. Manter um certo distanciamento ao mesmo tempo em que se é ator social não é tão simples. Uma questão que pesquisadores e pesquisadoras se colocam a todo momento. Não obstante, olhar com uma certa distância a fim de observar de maneira mais ampla possível exige também que tenhamos a capacidade de parar e observar. E no chamado mundo moderno ou pós-moderno, como afirmam alguns(mas), isto é cada vez mais difícil. Lembro quando usava a internet discada e esperava minutos e mais minutos para baixar um arquivo. E tudo bem. Hoje, se uma propaganda de dez segundos interfere eu fico estressado, acho uma eternidade. Por outro lado, quando sou o passageiro de um taxi e ando pelas mesmas ruas que trafego cotidianamente no banco do motorista me surpreendo com coisas e cenários que jamais tinha notado. Da mesma forma, quando tenho a oportunidade de caminhar pelo centro histórico de Belém num final de semana ou feriado percebo os desenhos dos ladrilhos das antigas construções, lembro das batalhas que ocorreram naquelas travessas do centro da cidade durante a Revolução Cabana - década de 1830 -, bem como recordo meu tempo de criança quando ia com a minha mãe fazer compras no Ver-o-Peso ou no centro comercial. Nada disso me vem à cabeça quando estou embebido da velocidade cotidiana. Parar, contemplar, pensar, formular e tirar conclusões na maioria das vezes são incompatíveis com a pressa. O distanciamento ajuda.
A luz mesmo quando não vista

A terceira questão é mesmo que não seja possível enxergar a luz, você sabe que ela está lá
. O universo - ou os multiversos - está se expandindo de tal forma que as distâncias entre as "bordas" e o interior serão tão grandes que chegará um momento que nem a luz emitida por uma grande estrela será percebida. Apesar disso, ela existirá. mesmo que você não enxergue. Talvez isso seja a própria Utopia. Hoje, com Trumps, Bolsonaros, guerras híbridas, golpes e violências institucionalizadas, às vezes fica difícil imaginar que é possível algo diferente. Que haja luz em vez desse mundo cada vez mais cinzento. Mas a Utopia é esse rasgo de luz atravessando o universo. A sociedade é capitalista. Com todas as suas mazelas, destruição, mortes e desigualdades. Contudo, é também esperança, resistências cotidianas, conquistas - às vezes microscópicas -, afetos e compromissos. Não vivemos numa sociedade igualitária e estamos muito longe dela, tal qual a luz emanada das partes mais longínquas do universo. Mas sabemos que ela está lá. Na luta política são nossas vontades, compromissos e projetos políticos os únicos caminhos para enxergá-la.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Bonner, viva até os 100 anos. Ou mais...

Circula pelas redes sociais a informação de que William Bonner, o editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional, o principal noticiário televisivo da Rede Globo, quer abandonar as funções porque não aguenta mais tanta pressão. Sente-se cansado depois de tantos anos à frente do telejornal.

Com a crise provocada pela expansão do COVID-19 no nosso país o Jornal Nacional recuperou boa parte da audiência perdida nos últimos anos. Não há como negar a importância do telejornal na produção de matérias de qualidade sobre os riscos da pandemia. Ainda mais num contexto em que negacionistas, terraplanistas, religiosos ultraconsercadores, oportunistas e outros desqualificados estarem à frente da coalizão que momentaneamente conduz o Estado brasileiro. Isto sem falar na desconfiança de que haja até mesmo pessoas vinculadas ao crime organizado, como retratam diversas reportagens no Brasil e no exterior.

Entretanto, não podemos esquecer jamais o papel crucial desempenhado pela Globo no golpe de Estado que destituiu a presidenta Dilma Roussef. As tantas horas dedicadas exaustivamente a criminalizar o PT e a política em geral, o seu apoio estratégico aos grupos de direita e extrema-direita que estiveram à frente das mobilizações pelo impeachment da presidenta, o papel jogado pela empresa para mobilizar diariamente a população contra o governo e os movimentos sociais do campo democrático e popular, seu apoio incondicional às ilegalidades e atrocidades jurídicas cometidas por Sérgio Moro e os golden boys da Lava-Jato, devidamente demonstrado pelo Intercept através da Vaza-Jato. Enfim, a Globo, como naquela história em que o escorpião atravessa o rio no casco de uma tartaruga, mas que no meio da viagem pica esta última por ser "de sua natureza", nunca perdeu sua natureza autoritária e golpista. Contudo, não há como esperarmos por mais 50 anos para ouvirmos seus pedidos de desculpas.

Em toda essa trajetória o papel desempenhado por William Bonner no comando do Jornal Nacional não foi pequeno ou inexpressivo. Ele foi uma peça importantíssima nesse processo de completo desmantelamento da democracia e dos direitos sociais no Brasil. E a história lhe cobrará muito caro por isso.

Não há segredos que durem pra sempre. E a cada dia somos brindados com mais revelações sobre os bastidores do golpe. As máscaras caem uma a uma. E em pouco tempo não restará um lugar sequer para os falsos profetas, bandidos, os "senhores da justiça" ou oportunistas se esconderem. Vide Joaquim Barbosa, completamente relegado ao limbo. Sergio Moro é outro cuja imagem se esfarela rapidamente. Um castelo de areia sob o rigor dos ventos da história e dos fatos.

Bocas se abrirão. Memórias serão escritas. Documentários serão produzidos. Segredos sucumbirão. No Brasil isto tem acontecido frequentemente nos últimos anos. Desde Collor de Mello pra cá os exemplos são muitos. Menos por espírito público e mais por vingança e o desejo de acertar contas. Como na máfia ou em qualquer grupo criminoso.

William Bonner não estará impune a isto. As entranhas da Globo e do golpe serão revolvidas. O odor fétido dos cadáveres insepultos contaminarão os ambientes. Daí o motivo da torcida para que William Bonner viva 100 anos ou mais. Eu nem preciso estar aqui para ver com os meus próprios olhos, mas imagino o quanto será prazeroso vê-lo confrontado aos fatos que levaram ao definhamento da nossa fragil democracia e o papel desempenhado por ele na bancada do Jornal Nacional. Boa noite, Bonner.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

A doença nossa de cada dia.

O desmonte do indivíduo.
Durante a semana que passou recebi por whatsapp uma charge em que o médico perguntava ao paciente onde doía. Este, por sua vez, respondia: "a realidade". De fato, a realidade tem se mostrado muito dura, particularmente às pessoas que definem o capitalismo como um sistema incapaz de resolver os principais males que afligem a humanidade. Para estas a destruição das políticas sociais inclusivas, o desmantelamento do Estado nacional, o recrudescimento das desigualdades, os ataques aos direitos humanos, a desconstrução da democracia e o avanço destruidor sobre o meio ambiente doem de maneira profunda.
Vivemos numa sociedade doente que custa a reconhecer-se dessa maneira. A algum tempo atrás li sobre uma pesquisa realizada em Paris na qual os/as cientistas recolheram amostras das águas dos esgotos da capital francesa para analisá-las. Os resultados divulgados evidenciaram que os parisienses estavam consumindo quantidade expressiva de medicamentos antidepressivos, antibióticos e outros cuja venda é controlada. Certamente um  sinal de alerta importante não somente para quem vive naquela cidade. Todavia, numa sociedade capitalista (re)alimentada pela busca incessante do lucro, as doenças não se configuram num problema ou risco ao sistema posto que lhes são funcionais:
A sociedade disciplinar é uma sociedade da negatividade. É determinada pela negatividade da proibição. O verbo modal negativo que a domina é o não-ter-o-direito. Também ao dever inere uma negatividade, a negatividade da coerção. A sociedade de desempenho vai se desvinculando cada vez mais da negatividade. Justamente a desregulamentação crescente vai abolindo-a. O poder ilimitado é o verbo modal positivo da sociedade de desempenho. O plural coletivo da afirmação Yes, we can expressa precisamente o caráter da positividade da sociedade de desempenho. No lugar de proibição, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados.¹
Na sociedade do desempenho você "tem que matar um leão a cada dia". Lutar incansavelmente para ser o/a melhor em qualquer circunstância. Não ser passado para trás. Enfim, ser competitivo. Vencer! A propaganda é uma arma poderosa dessa "motivação" mercadológica. Estude. Trabalhe. Se empenhe. Aí vem o discurso da meritocracia para dar o verniz, dourar a pílula, numa situação que é em si mesma insustentável posto que fundada em relações completamente desiguais. Mas aí os cérebros em massa "reeducados" para a competição têm dificuldades para romper com os grilhões das "motivações" da sociedade do desempenho.
O neoliberalismo é um fracasso econômico, mas poderoso dos pontos de vista político e ideológico. A sociedade como empresa moldada pela perspectiva neoliberal é o "corpo", cujo "espírito" é constituído pelos pressupostos da sociedade do desempenho. Nesta, a solidariedade foi expurgada. Em seu lugar tão somente a redenção pela esmola, pelo paternalismo e pela demagogia. Eis algumas das raízes do bolsonarismo.

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1. HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2a edição ampliada - Petrópolis, RJ : Vozes, 2017, p. 24-25.