Pororoca, macaréu ou mupororoca é a forma como são denominados os macaréus que ocorrem na Amazônia. Trata-se de um fenômeno natural produzido pelo encontro das correntes fluviais com as águas oceânicas. O macaréu é o choque das águas de um rio caudaloso com as ondas durante o início da enchente da maré.
segunda-feira, 14 de julho de 2025
A hora é agora!
segunda-feira, 28 de abril de 2025
Os computadores quânticos irão nos salvar?
Na reportagem exibida no último domingo (dia 27/04) durante o Fantástico, programa da Rede Globo, o repórter mostrou-se fascinado pela capacidade dos computadores quânticos de darem respostas em poucos minutos a questões que poderiam levar alguns sestilhões de anos pelo sistema convencional em vigor. Realmente não há como ficar indiferente a essa tecnologia que, entre outras conquistas, pode contribuir a tratamentos que levem à cura de várias doenças ainda existentes. O problema é que a crença cega na tecnologia pode resultar em ilusões e a novas formas autoritárias de controle social, bem como a relações ainda mais desiguais de poder. Marx já alertava em pleno século XIX sobre a possibilidade de a tecnologia ser empregada para aumentar o poder, a riqueza e a exploração dos(as) trabalhadores(as) por parte da burguesia, justamente por ela não ser "neutra" e integrar uma sociedade dividida em classes, cujos interesses são antagônicos.
Em determinado ponto da reportagem foi afirmado que os computadores quânticos podem, inclusive, nos ajudar a salvar o planeta. Aqui reside dois problemas fundamentais. O primeiro é que a Terra não precisa de nós para continuar existindo. Se alguém precisa ser "salvo" somos justamente nós, que podemos desaparecer enquanto espécie graças ao processo destrutivo em larga escala oriundo da expansão desenfreada do grande capital - particularmente o financeiro. O segundo é que reforça a perspectiva ideológica de que a solução para as crises climática/ambiental se dará inevitavelmente pela tecnologia e não pela política, tão a gosto de certo ambientalismo de mercado. Contudo, quem de fato controla as "novas tecnologias"? Quem tem o poder real de definir prioridades?
Esse fetichismo tecnológico tem grande capacidade de sedução, enormemente ampliado pelas mensagens emanadas através mídia corporativa e das redes ideológicas utilizadas pela burguesia para fazer com que seus valores de classe sejam compreendidos como valores universais da sociedade. As sereias* da mitologia grega também tinham grande poder de sedução, mas os navios afundados e os marinheiros que se lançavam ao mar diretamente aos "braços da morte" nos ensinam sobre os perigos de certos "encantamentos".
* As sereias (Séphora) eram criaturas híbridas, com corpo de ave e cabeça de mulher, que atraíam os marinheiros com seus cantos sedutores, levando-os à morte.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2025
A democracia virou um problema. Que tal destruí-la?
A racionalidade neoliberal é esse modo de ver e atuar no mundo que faz com que tudo e todos sejam tratados como objetos negociáveis. Essa racionalidade colonizou o Estado, as instituições, as pessoas e inclusive o Direito, fazendo, por exemplo, com que as garantias fundamentais passassem a ser percebidas como obstáculos à eficiência do Estado ou do mercado. Em linhas gerais, pode-se dizer que a racionalidade neoliberal se caracteriza tanto por transformar o mercado em modelo de todos os relacionamentos como por seguir a lógica da concorrência e o ideal de ilimitação, instaurando-se uma espécie de "vale tudo" por dinheiro e sucesso.
É uma consequência necessária daquilo que vários teóricos chamam de racionalidade neoliberal. Isso se dá em todo o mundo. Por evidente, em países lançados em uma tradição autoritária, em democracias de baixa intensidade, a pós-democracia se instala de maneira quase imperceptível. Um país como o Brasil, no qual parcela considerável da população prefere apostar no uso da força em detrimento do conhecimento, marcado tanto pela naturalização da desigualdade e da hierarquização entre as pessoas quanto pelo medo da liberdade, a pós-democracia se instalou sem enfrentar resistência.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2025
Interessa fazer alianças?
A dinâmica das lutas sociais mudou completamente com a expansão da globalização capitalista neoliberal. Os obstáculos levantados por esse processo dificultam a resolução de problemas no âmbito exclusivamente locais. Mesmo questões básicas às áreas urbanas e rurais como a coleta e tratamento do lixo, por exemplo, não encontram soluções apenas nos estritos limites municipais. Ainda mais se tratando da Amazônia onde a maioria absoluta das municipalidades são completamente dependentes dos repasses de recursos estaduais e federais. Esse quadro fica ainda mais complicado no que diz respeito ao domínio de vastas extensões territoriais amazônicas pelo narcotráfico. Isto não significa de modo algum que as lutas locais perderam significado. É nos territórios que a vida encontra significados (no plural) e é a partir deles que a engrenagem das mudanças se movimenta. Todavia, boa parte das soluções somente serão alcançadas com a articulação em rede dessas mobilizações territoriais com as demais escalas - do local ao internacional.
Nossa realidade não pode ser pensada como um bolo que é feito de diversas camadas, uma sobre a outra. Não! O internacional está no local, o local no nacional, o nacional no regional e assim por diante. Se um dia já nos foi dito que a luta da classe trabalhadora é internacional, hoje, os atores sociais contestadores do sistema são múltiplos e precisam atuar nessas diferentes escalas, ao mesmo tempo. O fato é que qualquer organização que não esteja preparada para essa nova situação tende a sucumbir. Esta dinâmica serve para as lutas por saúde, educação, regularização fundiária, coleta e tratamento de esgoto, defesa da democracia, enfrentamento às crises climática e ambiental e outras mais.
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| A vida passa por aqui. |
A realização da COP-30 na Amazônia contribuiu de certa forma com processos já em andamento de construção de convergências entre organizações das sociedades civis do Brasil e de outros países que almejam estabelecer objetivos e programas comuns de ação, compartilhamento de expertises e recursos. É o caso, por exemplo, de iniciativas como a Cúpula dos Povos, o Movimento pela Terra e Pelo Clima, a COP das Baixadas, a COP do Povo, o Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA) e a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM).
São muitas as iniciativas agregando a diversidade de atores sociais da região e de fora dela em torno de redes (multi)temáticas: agroecologia, ambientalismo, reforma urbana, luta contra o patriarcado, defesa dos direitos socioterritoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais, monitoramento do setor financeiro e de grupos empresariais, fortalecimento da democracia e de suas instituições, entre outros. Todavia, profundas divergências vieram à tona tendo como centralidade o debate acerca das alternativas às crises climática e ambiental e ao modelo hegemônico de desenvolvimento. A relação da exploração do petróleo com a transição energética é um exemplo de problemática que muitas vezes coloca em posições opostas integrantes do campo progressista/contrahegemônico.
Por outro lado, os blocos hegemônicos de poder interessados em fazer expandir o controle do grande capital sobre os territórios e seus recursos têm colocado em prática uma das máximas da estratégia de poder/militar: dividir para governar. Nesse sentido, estabelecem parcerias com organizações da sociedade civil e desembolsam vultosos recursos às mesmas, realizam pressões de todo tipo, ameaçam, destroem políticas públicas inclusivas, cooptam organizações de base e suas lideranças e contam, inclusive, com a efetiva participação de parcelas dos movimentos sociais e de ONGs, além de integrantes de instituições de ensino e pesquisa. O “marketing verde” na mídia corporativa é outra dessas ações, utilizando fartamente a imagem de figuras públicas que contam com a simpatia de população. Isso tudo tem contribuído ao recrudescimento de divisões no interior do campo progressista.
O momento atual apresenta condições adequadas para o estabelecimento de fortes e duradouras alianças em defesa da Amazônia e da vida no planeta. Mais do que nunca a constituição de uma Aliança dos Povos da Floresta é necessária. Chico Mendes continua vivo, atual. Uma poderosa rede desse tipo teria condições de atuar nas diferentes escalas, promover massivas mobilizações sociais e efetivamente atravancar o projeto destruidor capitalista neoliberal na perspectiva de outros modelos alternativos. Então, por que as grandes organizações da Amazônia brasileira não avançam nesse sentido? Quais obstáculos impedem o estabelecimento de alianças estratégicas? As possíveis divergências existentes impedem o alcance desse objetivo? É possível a mediação desse processo? Alguém se disporia a dar o primeiro passo?
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| Chico Mendes: mais atual do que nunca. |
Em tese, ganhos de curto e médio prazos obtidos a partir de pressões, negociações e parcerias com o governo federal e/ou outras instituições não impedem a busca por alianças estratégicas em torno de um projeto contrahegemônico, de longo prazo. A questão é complexa e ao mesmo tempo simples: o capitalismo nos levará à morte, porque a morte é a mola que alavanca o sistema. A morte em vida, inclusive, de pessoas e/ou organizações.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2025
Aquaman 2 e o engodo sobre as crises climática e ambiental.
Engodo pode ser compreendido como um "artifício com que se tenta atrair, aliciar ou induzir alguém; ardil, manobra, tapeação". Ou seja, engodo tem o mesmo significado de cilada. Mas o que isso tem a ver com o filme Aquaman 2: O Reino Perdido, lançado em 2023? Vamos começar com um resumo do filme. Aquaman vive tranquilo cuidando do seu filho e, ao mesmo, tempo, governa o reino de Atlântida. Tarefa, aliás, que ele acha enfadonha, um saco. Lá pelas tantas Arraia Negra, um de seus inimigos e interpretado por um ator negro, põe em prática um plano para libertar uma força maligna presa há séculos por conta de um feitiço. Essa força do mal está congelada. Qual então é o plano do Arraia Negra? Acelerar o aquecimento global que já vinha acontecendo, utilizando um tipo de combustível altamente poluente escondido no fundo do oceano. O derretimento das calotas polares era necessário para se chegar ao vilão aprisionado e libertá-lo.
É preciso dizer que a tal força maligna orienta Arraia Negra para que se aproprie de armamentos e veículos criados a partir de tecnologias antigas, assim como de um tridente que lhe dá grande poder. Por conta disso, Aquaman tem que superar suas divergências com o irmão e fazer com este uma aliança que garanta a sobrevivência de Atlântida e do próprio planeta, além de impedir o retorno do coisa ruim.
Todas e todos sabemos do poder das mensagens subliminares presentes nas produções cinematográficas de Hollywood. Nelas, os Estados Unidos sempre aparecem como povo e governos amantes da liberdade, os que defendem o mundo das denominadas por eles como forças do mal e/ou totalitárias; os que são comprometidos com a vida, a democracia e suas instituições. Não à toa a bandeira estadunidense aparece ao final de muitos filmes, como os do Homem-Aranha ou Super-Homem.
No filme do Aquaman o capitalismo não existe. Não é a força destruidora deste que está levando o planeta cada vez mais perto do precipício. Não é a sanha deste por lucro que está promovendo a destruição de ecossistemas e colocando em risco grandes parcelas da população mundial. Por outro lado, de acordo com o filme, a saída ao caos que nos encontramos está na tecnologia e não na política. Mas quem controla essas tecnologias oferecidas como "alternativas"? Quem controla os capitais que as cria, patenteia e vende?
O filme Aquaman 2: O Reino Perdido é um verdadeiro canto da sereia, uma exaltação à despolitização do debate sobre as crises climática e ambiental. Suas mensagens subliminares promovem a acomodação e a crença de que os que detêm a tecnologia "irão nos salvar". Estamos diante de um discurso e um conjunto de práticas que somente interessa aos mercadores do clima, às corporações transnacionais que pretendem ganhar mais dinheiro às custas da destruição da Terra, a poderosos Estados nacionais, às empresas de consultoria e consultores(as), às ONGs-empresas, à mídia corporativa, às religiões-empresas etc... Enquanto isso, o capitalismo é o verdadeiro "Reino Perdido" que precisa ser encoberto para que seus crimes permaneçam impunes. Um espelho da COP-30?
quarta-feira, 13 de novembro de 2024
Não estamos preparadas(os).
No último dia 05 deste mês as Polícias Militar e Civil do Pará apreenderam um carregamento de armas pesadas no município de Abaetetuba, este localizado na mesorregião Nordeste Paraense, a cerca de 123 km da capital, vindas provavelmente do Suriname para abastecer grupos criminosos que atuam no estado. Foi a maior apreensão de fuzis realizadas em solo paraense: 16 fuzis, sendo 13 calibre 556 e 3 calibre 762. Em agosto, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu 75 kg de cocaína que seguiam rumo a São Luís, no Maranhão. Em outubro foram 50 kg de cocaína apreendidas em Abaetetuba. Por sua vez, em abril deste ano a Polícia Federal realizou ações em sete estados brasileiros contra grupos criminosos especializados no envio de cocaína para a África e Europa, utilizando-se de barcos pesqueiros para tal empreitada. No Pará, a ação desenrolou-se em seis municípios: Vigia, Curuçá, Abaetetuba, Ananindeua, Belém e Altamira. Com exceção da capital, os demais são pequenos e médios municípios.
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| Apreensão de armamentos em Abaetetuba (PA) |
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| Amazônia: grande rota do tráfico internacional de drogas. |
segunda-feira, 11 de novembro de 2024
A COP-30 subiu no telhado?
A vitória de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos complexificou ainda mais as negociações em torno do combate às mudanças climáticas. Os discursos de Trump demonstram que o caminho a ser seguido por seu governo será de confronto com pesquisadoras(es) e instituições, cujos estudos científicos comprovam a ocorrência e o agravamento do aquecimento global, com organizações da sociedade civil que se mobilizam nos quatro cantos do planeta exigindo mudanças significativas nas formas como produzimos, consumimos e geramos lixo; com os movimentos sociais anticapitalistas, com povos ancestrais e suas lideranças e com a nossa mídia alternativa. Se antes já havia demonstrações de que os críticos das negociações multilaterais voltadas ao atendimento dos interesses das grandes corporações são os verdadeiros inimigos, tal dúvida não existirá mais com Trump e seus aliados. Elon Musk, Bolsonaro e Milei, entre eles.
O problema é que sem os Estados Unidos qualquer negociação em torno do combate às mudanças climáticas estará fadada irremediavelmente ao fracasso, já que aquele país é o maior consumidor de petróleo do planeta, por exemplo. Para piorar o cenário, Trump pretende avançar a exploração de petróleo no Alasca, ampliar o emprego da técnica de fracking* para a extração de petróleo e gás de xisto e retirar os EUA de acordos internacionais, entre outras iniciativas. Some-se a isto, a disseminação/reafirmação do discursos negacionista, a desestruturação das políticas ambientais e dos órgãos de gestão, bem como o recrudescimento das pressões para que o país se apodere de recursos estratégicos ao redor do planeta (petróleo da Venezuela e o lítio da Bolívia, para citar apenas esses dois casos). O que significará a possibilidade de novas intervenções militares, apoio a golpes de Estado e envio de tropas se considerar necessário. O mundo imaginado por Trump é fundado no poder das armas, das revoluções coloridas, do preconceito, do patriarcado, do conservadorismo religioso, da defesa radical dos interesses dos mais ricos, da xenofobia e do racismo. Portanto, um mundo mais instável, autoritário, desigual e violento.
O que será da COP-30 em Belém do Pará sem os Estados Unidos nas mesas de negociações, ou sem comprometer-se realmente com os acordos a serem estabelecidos? Aliás, mesmo sem assumir compromissos significativos com o combate às mudanças climáticas, os Estados Unidos deverão empenhar-se para o aprofundamento das "alternativas de mercado", que é um dos itens que verdadeiramente lhes interessa: mercado de carbono, "soluções" a partir da geoengenharia, financeirização e outras. Por conseguinte, parece um tremendo equívoco apostar a maior parte das fichas nas negociações no interior da COP oficial, tal como defendido e/ou estimulado por determinados segmentos sociais, como as ONGs-empresas.
Soluções duradouras e estruturantes não sairão das COPs. Mesmo assim são arenas políticas que não podemos simplesmente desprezar. Contudo, sem a pressão das sociedades nacionais e suas redes de lutas internacionais, sem que estas sejam capazes de mobilizarem-se e realmente impor derrotas aos poderosos conglomerados econômicos e aos blocos de poder dos quais eles fazem parte, nosso futuro comum se torna mais e mais incerto. Por isso, esse processo deve contribuir para constituirmos nosso campo contrahegemônico, cuja utopia deve estruturar-se na construção de novas relações sociais e econômicas, das nossas sociedades com a natureza e mesmo com o sagrado, pois o capitalismo é morte. Simples assim. Nesse sentido, a Cúpula dos Povos pode de fato reunir em torno de si muitos dos segmentos comprometidos com mudanças estruturais na sociedade. E há também espaço para a formação de outras articulações do mesmo tipo.
A COP-30 em Belém pode tornar-se um marco histórico da intervenção das nossas sociedades e organizações nesse processo. Mobilizar, ocupar, resistir, pressionar, propor, cobrar, encurralar, constranger e denunciar deveriam ser alguns dos verbos a orientar o conjunto das nossas iniciativas. O problema é que há quem prefira restringir tudo ao verbo negociar, se possível, em salas climatizadas.
* A técnica é criticada por ambientalistas, que veem diferentes problemas no processo: contaminação do lençol freático por substâncias químicas, uso intensivo de água, degradação do meio ambiente e riscos para a saúde.
segunda-feira, 4 de novembro de 2024
Primeiro Round: eles estão vencendo.
Para que governos, corporações econômico-financeiras nacionais e transnacionais, mídia corporativa, empresas de consultoria e de certificação, ONGs-empresas e outros segmentos sociais comprometidos com as alternativas de mercado às mudanças climáticas avancem substancialmente com suas agendas nas negociações multilaterais é necessário alcançar primeiramente um objetivo básico: dividir os movimentos indígenas e de comunidades tradicionais - particularmente o quilombola - de cima abaixo, buscando cooptar suas lideranças, desagregando suas organizações a partir dos territórios e inviabilizando qualquer tentativa de estabelecimento de alianças estratégicas entre eles; tornando-os dependentes ou reforçando diferentes modalidades de dependência. Some-se a isto, a constituição de "parcerias" entre organizações da sociedade civil e de setores da academia com poderosos grupos empresariais, bem como a imposição de condicionantes para o acesso a recursos internos e externos para o desenvolvimento de projetos comunitários/sociais. Ou seja, um conjunto de ações coordenadas que pretendem restringir a capacidade de resistência de quem se coloca contrário(a) ao "ambientalismo neoliberal" e aos interesses dos blocos hegemônicos de poder capitalista.
O outro lado da moeda da desestruturação da capacidade de mobilização e de resistência dos movimentos indígenas e de comunidades tradicionais - e de outras organizações da sociedade civil - é a despolitização do debate sobre as mudanças climáticas. O objetivo é enclausurar tal debate a questões técnicas e às "alternativas" baseadas em novas tecnologias. Tecnologias estas sob o controle dos blocos hegemônicos de poder capitalista, reforçando assim novas formas de dependência dos países do Sul Global aos do Norte Global. Sem falar que as estratégias de "esverdeamento" dos países do Norte Global passa necessariamente pela intensificação da dependência dos países, da exploração dos recursos e dos povos do Sul.
O problema é que em meio a esse cenário não conseguimos ver iniciativas que caminhem no sentido do estabelecimento do que um dia foi definido por Chico Mendes como Aliança dos Povos da Floresta. Dificuldades organizativas e financeiras, os ataques diuturnamente sofridos por povos indígenas e comunidades tradicionais contra seus membros e territórios, leituras divergentes sobre a natureza e projeto político do governo Lula e da quadra histórica que vivenciamos, além certa falta de vontade política por parte de determinados segmentos, mesclam-se e acabam contribuindo de alguma forma para engaiolar todo o potencial que dispomos de fazer avançar alternativas verdadeiramente estruturantes para resolver o problema das mudanças climáticas.
A foto de Helder Barbalho, governador do Pará, com sua comitiva em Nova Iorque quando do anúncio do acordo com megacorporações capitalistas para a venda de crédito de carbono é representativa da perda que vimos sofrendo nesse round. Vamos continuar perdendo por pontos ou o nocaute se aproxima? Ou vamos nos levantar, nos recompormos e tal como afirmou o grande boxeador Muhammad Ali diremos a nós mesmas(os) que o "impossível não é um fato, impossível é uma opinião".
segunda-feira, 22 de julho de 2024
As nuances entre capitalistas liberais e capitalistas de extrema-direita.
As eleições nos Estados Unidos ganham novos contornos após a desistência de Joe Biden de concorrer às eleições deste ano. Analistas afirmam que a derrota de Donald Trump é fundamental para a manutenção da democracia e de suas instituições não somente naquele país. Há evidentemente diferenças nada desprezíveis entre os dois; diferenças que talvez se acentuem caso Kamala Harris seja a candidata do Partido Democrata: um feroz anti-imigrante contra uma descendente de indianos, um que recebe o vibrante apoio de membros da Ku Klux Klan e outros segmentos de extrema-direita e uma afrodescendente que conta com a simpatia de liberais e de organizações progressistas. Enfim, há realmente muitas diferenças a lhes distinguir. Contudo, nas questões centrais que dizem respeito à manutenção do poder hegemônico dos EUA essas diferenças se diluem substancialmente. As guerras continuarão a ser travadas, estimuladas, monitoradas e controladas como sempre foram; os segmentos considerados inimigos serão perseguidos, combatidos, mantidos à distância ou eliminados; os "amigos" continuarão a ser vigiados pelas agências de informações; a poderosa propaganda do "nós contra eles" permanecerá ativa; os recursos naturais do planeta serão buscados a qualquer custo, financiada sua exploração e haverá pressão para que as empresas estadunidenses adquiram o controle dos mesmos; novas "lava-jatos" serão instauradas; as "guerras híbridas" que consistem, entre outras estratégias, em desestabilizar regimes/governos considerados inimigos ou pouco parceiros continuarão a ser apoiadas mundo afora (dinheiro, pessoal e guerra de propaganda), tais como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua em nosso país durante o governo Dilma Roussef ou setores neonazistas na Ucrânia; o apoio ao genocídio israelense contra palestinos(as) manter-se-á firme. Essas agendas unem os Partidos Democrata e Republicano. A história estadunidense comprova essa convergência de interesses estratégicos.
No Brasil, diversos capitalistas liberais não tiveram qualquer pudor em apoiar capitalistas de extrema-direita como Jair Bolsonaro nas eleições de 2018; entre eles banqueiros, donos de emissoras de televisão e de rádio e até mesmo um certo e "meigo" apresentador de televisão hoje empenhado em alçar Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo, o "Bolsonaro paulista", à condição de candidato à Presidência da República. Para isso será necessário envidar esforços a fim de "humanizar a extrema-direita" junto a opinião pública.
Segundo o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, sociedades de diferentes épocas sempre produziram seus "estranhos" seja por motivos cognitivos, morais ou estéticos. Os estranhos são aquelas pessoas que de alguma forma não se encaixam no padrão dominante. São os/as que tentam ultrapassar as fronteiras e os limites estabelecidos e que por conta disso causam mal-estar aos/às que impõem a ordem a ser seguida. Olho para o Brasil e minha percepção é que os/as estranhos(as) de Bauman referem-se aos pretos e às pretas que teimam em entrar na universidade, aos povos indígenas e comunidades tradicionais que teimam em manter seus modos de vida e territórios sob controle coletivo, os/as moradores(as) das favelas que não aguentam mais a violência do Estado ou que resolveram "ocupar" as praias dos bacanas, os/as artistas das periferias que passam a frequentar os ambientes dos grã-finos. Mas também pode ser o Vinicius Junior que resolveu peitar os racistas espanhóis.
Jamais esqueçamos isso: há limites, fronteiras que não podem ser ultrapassados. Por conseguinte, o/a capitalista liberal sempre apoiará as lutas feministas ou contra o racismo desde que não coloquem em xeque a ordem estabelecida. Isto é, desde que essas lutas mantenham-se desconectadas de seu caráter de classe. O/A capitalista de extrema-direita, nem isso. O/A capitalista liberal sempre apoiará a realização de eleições regulares, o revezamento no exercício do governo e a liberdade de expressão desde que a esquerda ou os segmentos progressistas não se atrevam a mexer no que lhes é mais sagrado: a propriedade privada. O/A capitalista de extrema-direita quer simplesmente eliminar quem lhes faz oposição. O/A capitalista liberal apoiará as lutas pela conservação das florestas e pelo direito de povos indígenas e comunidades tradicionais aos seus territórios desde que estes não imponham restrições a entrada de novas terras ao mercado, que não impeçam a alocação de projetos de infraestrutura logística que conectem as áreas ricas em recursos naturais ao comércio globalizado, que aceitem ter seus conhecimentos ancestrais apropriados por poderosos conglomerados econômicos nacionais e transnacionais na produção de cosméticos, remédios e outros produtos sem que lhes sejam reconhecidos seus direitos de patente; ou que aceitem participar das alternativas de mercado às mudanças climáticas, por exemplo. O capitalista de extrema-direita quer mais é que as políticas e órgãos ambientais "explodam".
As nuances existem. Todavia, os limites impostos por ambos capitalistas jamais nos farão superar as mazelas criadas e sustentadas pelo sistema, pois o contrário significaria a destruição do mesmo. As agudas contradições que se aprofundam no decorrer do tempo tendem a tornar a violência, em suas diferentes modalidades, o recurso a ser empregado com vigor e sem qualquer hesitação. Apoiar as alternativas autoritárias, por exemplo, nunca deixou de estar no cardápio dos/das liberais. A história do fascismo italiano ou da ditadura civil-militar no Brasil são modelares. E assim continuará por longo período. O problema é que muitos setores do nosso campo acreditam piamente que poderão alcançar mudanças duradouras flertando com o programa dos capitalistas liberais, ou buscando incorporar segmentos extremistas à base de apoio de seus governos sem construir efetivamente um contrapoder, uma contrahegemonia. Muito estranho...
segunda-feira, 10 de junho de 2024
Os/As extremistas estão chegando. Estão chegando os/as extremistas.
E eis que a extrema-direita saiu fortalecida na eleição ocorrida neste último final de semana ao parlamento europeu, particularmente em países como Alemanha, França e Itália. Os discursos de ódio, antimigração e contra as instituições democráticas ganharão mais espaço ainda nas agendas político-ideológicas. Evidentemente, tais resultados tendem a repercutir para além das fronteiras europeias. Caso Trump não seja impedido legalmente de concorrer às eleições estadunidenses e as vença, o quadro favorável ao extremismo se acentua ainda mais. Uma das questões que se coloca no momento é: esses resultados eleitorais são somente uma "nova" onda conservadora, ou na realidade se trata de uma tendência em escala global?
No Brasil, creio eu, não compreendemos nos devidos termos todo o significado do que foi o governo Jair Bolsonaro. Com este, os grupos sociais extremistas ganharam voz e visibilidade. O que temos hoje são movimentos sociais com grande capacidade de mobilização, capazes de interferir e pautar a agenda política nacional e que vêm crescendo em todos os cantos do país, mesmo que não uniformemente. Um projeto que articula poderes econômico e político (controle de territórios e dos recursos neles disponíveis, destruição de garantias constitucionais, fragilização das legislações socioambientais, expansão do agronegócio, padronização socioprodutiva e das paisagens etc.), fé e religião (defesa da submissão a autoridade dos/das pastores(as) e projeto de poder fundado na teologia do domínio), comunicação de massa, contínuo avanço sobre o aparelho de Estado (representação parlamentar e controle sobre órgãos de segurança pública, por exemplo), a relativização da verdade (a verdade virou mera opinião distribuída fartamente pelas redes sociais confrontando, inclusive, aquelas demonstradas cientificamente, vide o caso dos segmentos antivacina, e onde a mentira é tão somente a ponta do iceberg desse processo mais profundo); adoção de medidas para avançar o controle dos homens sobre o corpo, a mente e o trabalho da mulher, tornando-as políticas governamentais; racismo, xenofobia e homofobia.
Chega a ser risível as análises de que não podemos contribuir para o acirramento das disputas político-ideológicas no país. A extrema-direita e seus aliados fazem isto diuturnamente, pois tomaram para si a iniciativa de enfrentar e derrotar a esquerda e os setores progressistas do país. Num cenário como esse há quem pense no nosso campo que o zero a zero é um ótimo resultado. Afinal, de acordo com esse "ponto de vista", o gol é um mero detalhe.
quinta-feira, 6 de junho de 2024
Um Barbalho, dois Barbalhos, três Barbalhos...
Circula pelos meios políticos a informação de que Helder Barbalho (PMDB) possui 82% de aprovação somente na capital paraense. Mesmo que o índice não chegue a tanto é notório a ampla base de apoio político e popular alcançado por ele não somente aqui, mas em todo o estado. Tal situação é fruto de um conjunto de fatores, tais como execução de diversas e vistosas obras públicas, eficiente e profissional estratégia de marketing/propaganda, a incorporação à estrutura de governo de caciques das mesorregiões Oeste e Sul/Sudeste do Pará na tentativa de controlar os descontentamentos das elites locais e com isso arrefecer o ímpeto separatista das mesmas, além da construção de amplo leque de alianças políticas que agregam desde segmentos neopentecostais bolsonaristas até parcela de setores progressistas, como o Partido dos Trabalhadores (PT). É também digno de nota o choque de imagem que Helder promoveu ao longo dos últimos anos, desde que foi prefeito do município de Ananindeua, integrante da Região Metropolitana de Belém, revertendo em grande medida a antipatia e ojeriza que parte significativa da população paraense nutria contra as famílias Barbalho e Zaluth, esta última a vertente da mãe do governador.
Enquanto
isso, os crimes socioambientais continuam a solta no estado. É o que ocorre no
município de Barcarena, cujo Distrito industrial até hoje não possui sequer
licença ambiental. Também podemos incluir as ações das mineradoras Hidro e
Imerys em territórios quilombolas (no município de Moju, por exemplo) e do povo
Tembé (Tomé-Açu); o apoio irrestrito à construção da Ferrogrão - que
promoverá destruição em larga escala nos territórios do povo Munduruku (Oeste
do Pará), a instalação de portos que atingirão diversas comunidades ribeirinhas - Maicá, em Santarém, e no Baixo Tocantins.
Outro passo
importante na recauchutagem da imagem familiar foi o estabelecimento do
"acordo de paz" com os Maiorana, representantes locais das
organizações Globo. Evidentemente, tal acordo passou pela retomada da
veiculação de propaganda oficial nos veículos de comunicação de propriedade
daquela família, entre outras medidas. O fato é que os "radicais" da
família perderam poder interno e Helder passou a contar com a
"simpatia" do grupo empresarial.
A tendência predominante é que Helder Barbalho eleja a maior parte
dos(as) prefeitos(as) e dos(as) vereadores(as) paraenses em outubro próximo,
com a direita/extrema-direita dentro e fora desse arco de alianças conquistando
fatia importante dos governos locais. Já os setores progressistas e de esquerda
devem manter-se como coadjuvantes nesse processo. Nada indica o contrário até
este momento.
A perda das eleições em Belém por parte da esquerda é uma
possibilidade real. Eder Mauro, o pré-candidato de extrema-direita, tem chances
de obter uma votação relevante. Contudo, quando Helder colocar as máquinas
governamental e partidária para funcionar as chances do delegado miliciano
devem reduzir-se consideravelmente. Talvez, para Eder Mauro, as próximas
eleições sejam apenas um teste em vista do seu objetivo principal: eleger-se
senador em 2026.
Uma das formas de enfrentar esse processo avassalador passaria pelo estabelecimento de alianças estratégicas dos movimentos sociais em torno de candidaturas de esquerda nos diferentes municípios. Creio ser um erro deixar tarefa tão importante nas mãos exclusivas das direções partidárias e às suas lógicas internas de disputas, porque precisamos de pessoas comprometidas com as lutas populares e suas pautas. Para nós, pouco adianta que sejam eleitas figuras que, mesmo sendo de partidos de esquerda ou do campo progressista, estejam mais próximas de uma agenda liberal - a consolidação do mercado de carbono, por exemplo. É importante que as eleições sejam mais um passo na construção de um campo contrahegemônico. É disso que precisamos.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2023
É logo ali.
Estamos vivenciando um momento bastante delicado. Isto porque ele se materializa enquanto um ponto de bifurcação histórico, daqueles em que as incertezas dominam o cenário. Há tantas possibilidades em aberto que fica difícil apreender adequadamente as consequências das decisões que estão sendo tomadas agora. Há aqui uma primeira questão a ser abordada: a política vem sendo diuturnamente atacada de diferentes formas justamente quando ela é mais necessária diante dos enormes desafios que se apresentam. A política aqui entendida como uma das ações humanas da mais alta relevância.
A despolitização da política levada a cabo diuturnamente ao redor do planeta agrega, por motivos diversos, (i) a extrema direita e sua tentativa de impor regimes autoritários fundados no medo, na violência, no ódio, no individualismo exacerbado acoplado à destruição da perspectiva da universalização de direitos, bem como no completo repúdio à democracia e suas instituições, turbinadas pelo manuseio dos algoritmos e da inteligência artificial para atingir tal finalidade; (ii) os conglomerados midiáticos e segmentos encastelados nos aparelhos de Estado no uso do lawfare[1], da mentira e da manipulação como estratégia de destruição de adversários; (iii) setores religiosos conservadores que em nome de um suposto deus justificam a guerra, o armamentismo, os ataques a grupos minoritários, a violência contra mulheres, negros(as) e integrantes de distintas periferias (sejam moradoras de bairros populares, população de rua e/ou de países e regiões marginais do capitalismo), bem como demonizam as esquerdas e seus programas partidários; (iv) atores sociais diversos, inclusive do "nosso campo", comprometidos com a implementação de soluções de mercado às múltiplas crises porque passam nossas sociedades, que abrange desde a ideologia do empreendedorismo em substituição paulatina à noção de cidadania até às "alternativas" para as crises climática/ambiental, como o mercado de carbono. Em variados momentos do debate sobre as mudanças climáticas, por exemplo, a crença de que a tecnologia - eficiente e neutra - evitará o pior se apresenta concorrendo com as soluções pela política.
[1] Lawfare é uma palavra-valise introduzida nos anos 1970 e que originalmente se refere a uma forma de guerra na qual o direito é usado como arma. Basicamente, seria o emprego de manobras jurídico-legais como substituto de força armada, visando alcançar determinados objetivos políticos. Vide o caso da Lava-Jato no Brasil ou das ações judiciais que poderosos grupos empresariais empregam para criminalizar movimentos sociais e/ou suas lideranças.
terça-feira, 4 de outubro de 2022
Sobre cristãos que não acreditam em Deus.
Em primeiro lugar, há aqueles/aquelas que colocam o demônio tão poderoso quanto Deus. Diariamente invocam o demônio nos cultos e às vezes falam mais o nome dele do que o do próprio Deus nas suas pregações. Destinam ao Belzebu enormes poderes a fim de incutir o medo e o terror nas mentes de seus seguidores. A vida passa a ser orientada não pela confiança no Deus Onipotente, mas no medo de cair nas garras poderosas do diabo. Dessa forma, é Satanás que prevalece como referência cotidiana e não um Deus Todo Poderoso que nos livra de todo mal.
Em segundo lugar, tais cristãos/cristãs não acreditam realmente no julgamento divino. Daí darem a si próprios(as) o poder de julgar e decidir quem vai ou não ao "paraíso". Tomam o lugar de Deus. Lançam maldições aos/às que consideram pecadores(as), se regozijam por já estarem entre os/as eleitos(as), assumem o papel de juízes/juízas e determinam o destino de cada um(a). É mais um recurso dos/das cristãos/cristãs que não acreditam em Deus para exercer poder de influência sobre determinado rebanho.
Em terceiro, ignoram completamente os mandamentos divinos. No Brasil percebemos nos últimos anos que muitos(as) cristãos/cristãs demonstram mais amor aos fuzis, às metralhadoras e às pistolas do que à Deus sobre todas as coisas. Usam a mentira como arma política e como base de suas pregações, reproduzindo-as em larga escala por whatsapp e outros meios. Em vez de A verdade vos libertará, proclamada por Jesus, o lema desses(as) cristãos/cristãs é A mentira nos beneficiará. Cultuam a morte, defendem a pena de morte e afirmam que Jesus andaria armado com uma pistola em seu tempo se pudesse. Ou ainda que gays devem morrer. Os mandamentos Amar ao próximo como a si mesmo e Não matarás se tornam então apenas letras mortas. Deus que é todo amor é visto por esses/essas cristãos/cristãs como Deus guerreiro, vingativo, com todas as imperfeições humanas. Um Deus que na realidade não é Deus. Dai não verem qualquer problema em usar o seu Santo Nome para enriquecer, barganhar cargos, obter concessões para rádios e TVs; exigir os votos dos seus rebanhos para si, parentes ou aliados. Os cultos parecem mais comícios eleitorais do que atos de fé. Também estimulam e celebram as perseguições a outras religiões, grupos sociais e pessoas. É o ódio que prevalece e Deus é utilizado para referendá-lo.
Em quarto lugar, para tais cristãos/cristãs Deus não é Onipresente, mas somente pode ser encontrado nos prédios das igrejas. A ideia de que Deus existe dentro de cada um(a) de nós é deixada de lado. O divino presente em cada pessoa é retirado, restando somente o corpo.
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
Sobre o nosso olhar
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| Cultura da morte |
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| Luz que cega |
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| A luz mesmo quando não vista |
A terceira questão é mesmo que não seja possível enxergar a luz, você sabe que ela está lá. O universo - ou os multiversos - está se expandindo de tal forma que as distâncias entre as "bordas" e o interior serão tão grandes que chegará um momento que nem a luz emitida por uma grande estrela será percebida. Apesar disso, ela existirá. mesmo que você não enxergue. Talvez isso seja a própria Utopia. Hoje, com Trumps, Bolsonaros, guerras híbridas, golpes e violências institucionalizadas, às vezes fica difícil imaginar que é possível algo diferente. Que haja luz em vez desse mundo cada vez mais cinzento. Mas a Utopia é esse rasgo de luz atravessando o universo. A sociedade é capitalista. Com todas as suas mazelas, destruição, mortes e desigualdades. Contudo, é também esperança, resistências cotidianas, conquistas - às vezes microscópicas -, afetos e compromissos. Não vivemos numa sociedade igualitária e estamos muito longe dela, tal qual a luz emanada das partes mais longínquas do universo. Mas sabemos que ela está lá. Na luta política são nossas vontades, compromissos e projetos políticos os únicos caminhos para enxergá-la.
terça-feira, 13 de outubro de 2020
Bonner, viva até os 100 anos. Ou mais...
Circula pelas redes sociais a informação de que William Bonner, o editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional, o principal noticiário televisivo da Rede Globo, quer abandonar as funções porque não aguenta mais tanta pressão. Sente-se cansado depois de tantos anos à frente do telejornal.
Com a crise provocada pela expansão do COVID-19 no nosso país o Jornal Nacional recuperou boa parte da audiência perdida nos últimos anos. Não há como negar a importância do telejornal na produção de matérias de qualidade sobre os riscos da pandemia. Ainda mais num contexto em que negacionistas, terraplanistas, religiosos ultraconsercadores, oportunistas e outros desqualificados estarem à frente da coalizão que momentaneamente conduz o Estado brasileiro. Isto sem falar na desconfiança de que haja até mesmo pessoas vinculadas ao crime organizado, como retratam diversas reportagens no Brasil e no exterior.
Em toda essa trajetória o papel desempenhado por William Bonner no comando do Jornal Nacional não foi pequeno ou inexpressivo. Ele foi uma peça importantíssima nesse processo de completo desmantelamento da democracia e dos direitos sociais no Brasil. E a história lhe cobrará muito caro por isso.
Não há segredos que durem pra sempre. E a cada dia somos brindados com mais revelações sobre os bastidores do golpe. As máscaras caem uma a uma. E em pouco tempo não restará um lugar sequer para os falsos profetas, bandidos, os "senhores da justiça" ou oportunistas se esconderem. Vide Joaquim Barbosa, completamente relegado ao limbo. Sergio Moro é outro cuja imagem se esfarela rapidamente. Um castelo de areia sob o rigor dos ventos da história e dos fatos.
Bocas se abrirão. Memórias serão escritas. Documentários serão produzidos. Segredos sucumbirão. No Brasil isto tem acontecido frequentemente nos últimos anos. Desde Collor de Mello pra cá os exemplos são muitos. Menos por espírito público e mais por vingança e o desejo de acertar contas. Como na máfia ou em qualquer grupo criminoso.
William Bonner não estará impune a isto. As entranhas da Globo e do golpe serão revolvidas. O odor fétido dos cadáveres insepultos contaminarão os ambientes. Daí o motivo da torcida para que William Bonner viva 100 anos ou mais. Eu nem preciso estar aqui para ver com os meus próprios olhos, mas imagino o quanto será prazeroso vê-lo confrontado aos fatos que levaram ao definhamento da nossa fragil democracia e o papel desempenhado por ele na bancada do Jornal Nacional. Boa noite, Bonner.
segunda-feira, 8 de julho de 2019
A doença nossa de cada dia.
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| O desmonte do indivíduo. |
Vivemos numa sociedade doente que custa a reconhecer-se dessa maneira. A algum tempo atrás li sobre uma pesquisa realizada em Paris na qual os/as cientistas recolheram amostras das águas dos esgotos da capital francesa para analisá-las. Os resultados divulgados evidenciaram que os parisienses estavam consumindo quantidade expressiva de medicamentos antidepressivos, antibióticos e outros cuja venda é controlada. Certamente um sinal de alerta importante não somente para quem vive naquela cidade. Todavia, numa sociedade capitalista (re)alimentada pela busca incessante do lucro, as doenças não se configuram num problema ou risco ao sistema posto que lhes são funcionais:
A sociedade disciplinar é uma sociedade da negatividade. É determinada pela negatividade da proibição. O verbo modal negativo que a domina é o não-ter-o-direito. Também ao dever inere uma negatividade, a negatividade da coerção. A sociedade de desempenho vai se desvinculando cada vez mais da negatividade. Justamente a desregulamentação crescente vai abolindo-a. O poder ilimitado é o verbo modal positivo da sociedade de desempenho. O plural coletivo da afirmação Yes, we can expressa precisamente o caráter da positividade da sociedade de desempenho. No lugar de proibição, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados.¹
























