sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

VIVEMOS UM DEJÀ VU?
Guilherme Carvalho*

É muito comum vivermos certas situações que parecem repetir algo que já havíamos experimentado. Essas ocorrências são denominadas dejà vu, um termo da língua francesa que significa já visto. Ocorre, porém, que essa sensação de já ter vivido um determinado evento parece não se restringir ao campo estritamente pessoal, mas se estende à nossa vida em sociedade. Daí alguns identificarem a história humana como um ciclo em seu movimento de auge e de queda, ou ainda como um círculo que nos faria prisioneiros de um eterno retorno. Consideramos ambas perspectivas limitadas para compreendermos a complexidade do real. Todavia, é forçoso reconhecer que alguns fatos persistem de tal maneira ao longo do tempo que parecem se constituir numa reprodução infinita do mesmo.
O assalto ao poder pelos militares brasileiros em 1964 foi justificado por eles como uma medida necessária para livrar o país da ameaça comunista. Para isso contou com a colaboração de grandes grupos públicos e privados de comunicação, de parcelas majoritárias do judiciário, do empresariado e do parlamento, de vários segmentos da sociedade civil nacional, bem como do apoio logístico e de informações dos Estados Unidos.
Presidentes militares
Além da ameaça comunista os militares buscaram incutir na população a ideia de que somente eles seriam capazes de garantir as condições necessárias para fazer o país progredir. O discurso do progresso foi, portanto, uma importante ferramenta ideológica para atrair o apoio da população às ações repressivas desencadeadas pelo bloco de poder que se apoderou do aparelho do Estado contra os opositores do regime, às restrições à liberdade e aos planos macroeconômicos.
Em nome desse suposto progresso a Amazônia foi definitivamente escancarada aos conglomerados econômicos nacional e internacional através da abertura de grandes rodovias como a Transamazônica, concessão de fartos subsídios para a instalação dos mesmos na região, criação de facilidades que garantiram o monopólio de vastas extensões do território amazônico aos setores que compunham o bloco de poder capitaneado pelos militares etc. O Estado brasileiro foi fundamental para o bom êxito dessa estratégia de ocupação e de controle territorial. Todavia, as consequências disso tudo não foram pequenas e repercutem ainda hoje:
Que lições podem ser extraídas da política regional de ocupação do território? O privilégio a ser atribuído aos grandes grupos e a violência da implantação acelerada da malha tecno-política, que tratou o espaço como isótropo e homogêneo, com profundo desrespeito pelas diferenças sociais e ecológicas, teve efeitos extremamente perversos nas áreas onde foi implantada, destruindo, inclusive, gêneros de vida e saberes locais historicamente construídos. Essas são lições a aprender como não planejar uma região. (BECKER, 2005, p. 26)
Eis que entramos no túnel do tempo e surgimos em pleno governo de Dilma Roussef. Dois meses antes da realização da Conferência Rio+20 a presidente da República reuniu-se com organizações da sociedade civil integrantes do Fórum do Clima, no Palácio do Planalto. Em resposta às críticas suscitadas pelo fórum em relação à política do governo federal de construir novas hidrelétricas na Amazônia, a presidente foi enfática: o governo não mudará sua estratégia de aumentar a oferta de energia utilizando o máximo possível o potencial dos rios amazônicos. A presidente foi além. Disse aos ambientalistas que “o mundo real não trata de tema ‘absurdamente etéreo ou fantasioso’”. Afirmou ainda que ninguém “numa conferência dessas também aceita, me desculpem, discutir a fantasia. Ela não tem espaço para a fantasia. Não estou falando da utopia, essa pode ter, estou falando de fantasia” (BNDES DÁ NOVO CRÉDITO..., 2012, não paginado). Para finalizar, assegurou que trabalharia pelo desenvolvimento sustentável, para tirar as pessoas da pobreza e tentar compatibilizar progresso e respeito ao meio ambiente.
Hidrelétricas na Amazônia
Também o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, recorre reiteradamente à defesa do progresso e do desenvolvimento da Amazônia para rebater as críticas de diferentes segmentos sociais do Brasil e do exterior preocupados com os impactos do erguimento de dezenas de barragens previstas para a região até 2050. A defesa do progresso, portanto, tem servido de anteparo a qualquer questionamento à intenção do Estado brasileiro e, evidentemente, de grandes conglomerados econômicos nacionais e internacionais de tornar a Amazônia a província energética brasileira, sem que se saiba ao certo as consequências dessa iniciativa não somente para a região, mas para o clima de todo o planeta.

Na coletânea de poemas intitulada Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, há uma linda referência sobre a liberdade, onde afirma ser esta um sonho humano que ninguém consegue explicar, mas que não há quem não entenda (MEIRELES, 2005). O que aconteceria se substituíssemos a palavra liberdade por progresso? Quem em sã consciência não almeja progredir? Quem não entende o que ela significa? Todavia, o que ela significa?
Progresso é uma daquelas palavras que se encontra estreitamente vinculada à “credibilidade ou ao poder de quem a pronuncia” (DUPAS, 2006, p. 17). Afinal de contas, quem determina o “rumo” do progresso? Dupas recorre à fala do “gnomo irascível Humpty Dumpty”, presente em Alice no país das maravilhas, escrita por Charles Lutwidge Dodgson e publicada em 1865, para refletir sobre essa questão:
Quando utilizo uma palavra, ela significa precisamente aquilo que eu quero que ela signifique. Nada mais, nada menos’. Alice contesta que ‘o problema está em saber se é possível fazer que uma palavra signifique montes de coisas diferentes’. Ao que Humpty Dumpty replica ativamente: ‘O problema está em saber quem é que manda. Ponto final’ (LALANDE apud DUPAS, 2006, p. 17, grifo do autor).
Parlamentares, mídia, pessoas comuns e mesmo o judiciário também utilizam o progresso como uma espécie de vacina que imuniza as hidrelétricas e qualquer outro grande empreendimento, publico ou privado, de contestações de todo tipo; na grande maioria das vezes independentemente da justeza e/ou embasamento dos questionamentos. Que o digam os pesquisadores que integraram o Painel Independente de Especialistas, cujas conclusões chocaram-se frontalmente com diversas afirmações do Estudo de Impacto Ambiental apresentado pelas empresas interessadas na construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu.
O fato é que o progresso se tornou parte constitutiva do discurso do poder. Assim foi durante a ditadura militar no Brasil, nos governos Juscelino Kubitschek, Eurico Gaspar Dutra e Getúlio Vargas; nos primórdios da República com o lema Ordem e Progresso incrustado na bandeira nacional e mesmo durante o Império. Da mesma forma, a palavra progresso foi utilizada pelas diferentes coalizões de poder que estiveram à frente do Estado brasileiro após a redemocratização do país para afirmarem-se diante da população e delas conquistar o reconhecimento e apoio.
É a partir da noção de progresso que a Amazônia tem sido refletida pelas coalizões de poder que estiveram à frente do Estado brasileiro até o presente momento, assim como fundamenta a implementação do atual modelo hegemônico de desenvolvimento, cuja característica é basear-se na exploração intensiva dos recursos naturais aqui existentes. O progresso, então, assume o papel de servir como um ponto de inflexão, de separação entre o antes e o depois, entre retrocesso e avanço, entre passado e futuro. Exemplo: a Amazônia é atrasada daí ser necessário levar o progresso a ela para que a mesma seja definitivamente integrada ao restante do território nacional, através do estímulo ao deslocamento de empreendedores para o seu território, assim como do capital necessário para desenvolvê-la. Tal visão pode ser encontrada como fundamento das políticas dos governos Vargas, Médici e, mesmo, de Dilma Roussef, entre outros.
Que progresso?
Fica evidente que progresso também guarda um sentido civilizatório. É como se o mesmo fosse um ato de redenção de povos primitivos, ou de sociedades atrasadas. Para que tal perspectiva se imponha é necessário que seja estabelecida alguma referência do que se considera “estágio avançado”. Por muito tempo essa referência foi a Europa, agora, a designação genérica são os países “desenvolvidos”. À Amazônia resta espelhar-se na dinâmica econômica do centro-sul do Brasil ou de outros países e tentar, quem sabe, rumar em direção a elas, tal como preconizado por Rostow (1978) e sua ideia do desenvolvimento em etapas. Apesar de ficar cada vez mais evidente que não há lugar para todos no banquete do progresso, como bem demonstrado por Chang (2004). O progresso é utilizado para justificar o discurso hegemônico da acumulação. Todavia, a promessa de um futuro próspero se vê permanentemente confrontada com a situação precária de parcelas significativas da população.
Vivemos um dejà vu? Hoje como ontem o Estado brasileiro se apresenta como o grande impulsionador da apropriação privada de grandes extensões do território amazônico e de seus recursos, em detrimento dos interesses e dos modos de vida de povos indígenas e populações tradicionais – ribeirinhos, extrativistas, agricultores familiares e outros. Também utiliza o forte aparato repressivo para coagir, impedir e criminalizar movimentos sociais e ONGs que se opõem a este modelo de desenvolvimento intensivo no uso da terra, água e outros componentes da natureza e, acima de tudo, disseminador de conflitos e gerador de crescentes desigualdades socioambientais. Como antes se tenta passar a ideia de que o mercado – suas instituições e suas regras – serão capazes de fazer com que a Amazônia se desenvolva, retirando milhões de amazônidas da pobreza. Cinquenta anos depois da instalação da mais brutal ditadura no Brasil a reprodução do mesmo parece não ter fim.

Bibliografia
BECKER, Bertha. Amazônia: nova geografia, nova política regional e nova escala de ação. In. Amazônia Sustentável: Desenvolvimento sustentável entre políticas públicas, estratégias inovadoras e experiências locais / Martin Coy e Gerd Kohlhepp (coord.). – Rio de Janeiro : Garamond ; Tübinger, Alemanha : Geographischen Instituts der Universität Tübingen, 2005. p. 23-44.
BNDES dá novo crédito de R$ 2,5 bi a Jirau. O Estado de São Paulo, 28 set. 2012. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,bndes-da--novo-credito-de-r-25-bi-a-jirau, 937061,0.htm>. Acesso em: 13 out. 2012.
CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada: a estratégia de desenvolvimento em perspectiva histórica. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: UNESP, 2004.
DUPAS, Gilberto. O mito do progresso, ou progresso como ideologia. São Paulo: UNESP, 2006.
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
ROSTOW, W. W. Etapas do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1978.




* Doutor em Ciência do Desenvolvimento Socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará – NAEA/UFPA e coordenador da ONG FASE Programa Amazônia.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O PT merece nossa solidariedade?

José Genoíno
O Genoíno merece. O PT, não! Grande parte da situação vivenciada atualmente pelo partido é culpa dele próprio. Ao longo desses 10 anos no comando do governo federal o partido não enfrentou problemas cruciais para a afirmação da democracia no Brasil. A reforma política, tão importante para estruturação da vida partidária no país, para combater o controle abusivo das grandes corporações econômicas sobre o processo eleitoral por conta do financiamento privado das campanhas através da formação de Caixa 2 não mereceu atenção devida. O debate somente ganhou impulso quando a agremiação se viu acuada pelas ondas de protestos de junho deste ano. Ao que parece, porém, o ânimo inicial está definhando.

A democratização dos meios de comunicação foi outra bandeira de luta histórica da esquerda brasileira que foi guardada num canto qualquer do guarda-roupa. Diferentemente da Argentina que enfrentou o principal grupo privado de comunicação do país, o Clarin, aprovando leis que regulamentam o setor a fim de evitar o monopólio da informação e a formação de cartéis, o Brasil optou pela "convivência pacífica" como se isso fosse possível. A direita nunca gostou, não gosta e nunca gostará do PT. Entretanto, o partido parece pensar o contrário. O atual ministro das Comunicações é simplesmente medíocre, parecendo mais interessado em consolidar uma forte base eleitoral para garantir voos mais altos para si e sua esposa. E antes que alguns militantes digam que não seria possível entrar em choque com as corporações midiáticas lembro que a Inglaterra acabou de aprovar regras mais duras contra os abusos dos meios de comunicação. A omissão do PT tem se revertido contra ele próprio. Sejamos francos: O grande partido de oposição no Brasil são as poucas famílias que controlam a informação no nosso país (Frias, Mesquita, Marinho, Barbalho, Calderaro, Sirotsky e outros). O que seria do PSDB ou do DEM sem elas? São elas que realizam verdadeira guerra de movimento (nem é guerra de posição) contra o governo Dilma e antes com o de Lula. São elas que criminalizam os movimentos sociais todos os dias, que pautam a agenda política do país, que chantageiam o Judiciário, que realizam intensa campanha contra o Legislativo, promovendo a despolitização ampla da sociedade brasileira.

O PT também vem abandonando ao longo dos anos outras bandeiras históricas da esquerda, como a reforma agrária. A política macroeconômica privilegia fundamentalmente o agronegócio e a exportação de commodities. Aqui no Pará, a expansão do monocultivo do dendê é exemplar: Petrobras, Vale e outras grandes empresas se assenhoram de grandes extensões de terras, inclusive de agricultores(as) familiares, têm facilidades para regularizar essas terras enquanto ribeirinhos, quilombolas e trabalhadores rurais enfrentam diversos obstáculos para fazer o mesmo. O INCRA é um órgão moribundo. Os Territórios da Cidadania, outra iniciativa interessantíssima, foram relegados ao segundo plano pela maioria dos ministérios, com a honrosa exceção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) que com dificuldades ainda tenta executar algumas ações. Outros programas como o de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) não conseguem ser acessados pela grande maioria dos(as) agricultores(as) familiares.

Monocultivo do dendê: alternativa para a agricultura familiar?
O modelo de desenvolvimento petista reforça o papel do Brasil enquanto exportador de commodities e favorece às grandes corporações o acesso, uso e controle sobre vastas extensões do território e dos recursos naturais neles contidos. Não é isso o que ocorre na Amazônia? É um modelo baseado na exploração intensiva desses recursos. Atentemos para o que nos diz Lúcio Flávio Pinto quanto à redução do tempo de exploração das minas de Carajás. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é o parâmetro que orienta a ação governamental, mesmo que a qualidade desse desenvolvimento seja questionável. Muitos intelectuais e lideranças de movimentos sociais dos demais países sul-americanos definem tal modelo de neoextrativista. O argumento para justificar o modelo neoextrativista soa como uma chantagem: Ou se explora os recursos ao limite para que o Estado possa executar políticas sociais, ou a maioria da população está condenada a viver na miséria. A questão fundamental é que a médio e longo prazos os problemas estruturais provocados por essa estratégia se voltará contra ela própria.

Os movimentos sociais que questionam o neoextrativismo petista vêm sendo sistematicamente criminalizados. Lideranças são presas e processadas, espionadas, reprimidas... A Força Nacional se transformou no braço armado do Estado brasileiro para garantir a qualquer custo a execução dos grandes projetos de infraestrutura na Amazônia. No caso de Belo Monte, o aparato repressivo se transformou numa espécie de segurança privada do consórcio que tenta construir a barragem. Quanto aos Munduruku, estes têm seus territórios invadidos, são impedidos de circular livremente e sofrem verdadeira perseguição - o prefeito de Jacareacanga, que é do PT, é um dos maiores inimigos dos indígenas que se levantam contra a iniciativa do governo federal de construir diversas barragens no rio Tapajós. Esses são alguns dos motivos pelos quais crescente número de movimentos sociais deixaram de fazer parte da base social petista.

Alguns podem contestar os argumentos acima citando os milhões de brasileiros que saíram da pobreza extrema nos últimos anos: A famosa cidadania pelo consumo. Mesmo ela tem bases frágeis, mas isso é assunto para outro texto.

Aos/Às que contestam esta reflexão que o façam sem o subterfúgio das agressões anônimas.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Cabral e Beltrame abriram as portas do inferno.

Em 1880, Auguste Rodin recebeu a encomenda
de uma porta, esta porta deveria extrair seus
temas da Divina Comédia de Dante Alighieri.
O governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral (PMDB) e o secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame abriram as portas do inferno, mas onde estão as chaves para fechá-las? Explico. Ao refutarem toda e qualquer crítica aos abusos cometidos pela polícia carioca, em particular pelo Batalhão de Operações Especiais (BOPE), eles dois acabaram dando carta branca os trogloditas da corporação para "arrepiar geral". Isto é, liberaram os policiais para infringirem as leis do país e do estado do RJ, atentar contra os direitos humanos e as liberdades democráticas. O que sempre foi usual nos morros e periferias agora se expandiu para áreas nobres da capital, bem como para diversos municípios do interior. No enfrentamento às manifestações a corporação utiliza armas letais, forja provas contra ativistas, censura, intimida, ameaça, reprime, empurra, chuta, grita, espanca, mata e algumas vítimas simplesmente "desaparecem". Enfim, "toca o terror". Ontem, bastou o papa Francisco e demais autoridades se retirarem do Palácio das Laranjeiras, sede do governo estadual, onde ocorreu a recepção oficial ao Sumo Pontífice, tudo voltou a ser igual ao que tem ocorrido nos últimos tempos: prisões arbitrárias, ativistas feridos a bala, provas forjadas, censura etc. 

A Polícia Militar é, sem dúvida alguma, uma instituição profundamente influenciada pelo ideário da ditadura que se instalou no país com o golpe de 1964. Ela é considerada uma força auxiliar e reserva do Exército brasileiro, daí não ser esdrúxulo o fato de os/as ativistas sociais/contestadores(as) serem encarados(as) como potenciais inimigos, e como tal combatidos(as). Não é isso o que está ocorrendo neste momento nas ruas do Rio de Janeiro ou antes em São Paulo e nos demais estados quando das mobilizações massivas de junho último? Todavia, tal vertente autoritária encontra-se no seu próprio cerne. É bom lembrarmos que a Polícia Militar do RJ teve como um de seus comandantes o próprio Duque de Caxias, em 1832, quando a instituição era denominada Corpo de Guardas Municipais Permanentes. Aliás, esse foi o primeiro comando militar de Caxias - cujo título se deveu ao enfrentamento aos revoltosos do Maranhão (Balaiada). Este se notabilizou por combater diversos movimentos insurgentes no país durante o império (Revolução Farroupilha, revoltas liberais em São Paulo e Minas Gerais) e teve papel destacado na Guerra do Paraguai, cujas estratégias de ação foram e ainda são muito questionadas pelos(as) paraguaios(as). Também liderou as forças brasileiras na Campanha Cisplatina.
"Dança Macabra" de Hans Holbein, 1491.

Pois bem, Cabral e Beltrame em sua sanha de controlar as mobilizações nas ruas ampliaram a insegurança e colocaram a nu a incapacidade dos dois de controlar seus subordinados. Abriram as portas do inferno e não têm como fechá-la, pois a PM mostrou mais uma vez sua condição de força de repressão, cujas regras internas nem sempre dialogam com os preceitos legais ou se preocupam com hierarquia. O fato é que os dois se encontram numa delicada encruzilhada. De um lado, recuar significará o reconhecimento público de sua incompetência no tratamento dos conflitos sociais. De outro, Sergio Cabral, com a preciosa ajuda da mídia corporativa, de grandes grupos empresariais e de integrantes do legislativo e judiciário, precisa tirar o foco da sociedade sobre as atividades, digamos, nada convencionais, praticadas por ele próprio e por outros integrantes de seu governo. Esse "malabarismo" parece ter atingido um limite, pois parece cada vez mais evidente que as manifestações não cessarão tão cedo por mais que Cabral e Beltrame mobilizem todas as forças do inferno liberadas por eles.




sábado, 22 de junho de 2013

Aos meus amigos conservadores...

As mobilizações que ocorrem no momento em todo o Brasil estão promovendo profundas reflexões de diferentes tipos por parte dos partidos e das elites políticas, por parte dos movimentos sociais, por parte dos governos e mesmo do judiciário, entre tantos outros. A incertezas quanto ao que acontecerá daqui por diante não é uma coisa ruim, como apregoam determinadas análises. Como diria Ilya Prigogine, o caos não é apenas desordem, mas é também construtor de novas ordens numa cadeia infinita. Estamos vivenciando uma bifurcação histórica? Ao menos para determinadas forças políticas essa parece ser uma dura realidade.

O que tem chamado a minha atenção nos últimos dias é o encarniçado ativismo político por parte de conhecidos meus pela internet. De um modo geral, compartilho com eles da esperança de que ocorram mudanças substanciais no país, que não se restringem tão somente a aspectos econômicos, pois, como diriam os Titãs, "a gente não quer só comida". Contudo, chama atenção o caráter conservador e às vezes despolitizados de muitas das críticas apresentadas. De um lado, o discurso contra a política, os partidos e os movimentos sociais - como se o povo brasileiro somente agora se mobilizasse - se tornou uma palavra de ordem que, ingenuamente, acreditam ser "a salvação do país". De outro, um misto de raiva e indignação são canalizadas tão somente em direção ao governo federal. E as grandes empresas e poderosas instituições financeiras (do Brasil e do exterior) que financiam quase a totalidade dos partidos políticos? Estas não têm qualquer parcela de culpa pelo que ocorre no Brasil? E a concentração da renda? Particularmente não vi um mísero cartaz propondo a taxação das grandes fortunas, por exemplo. Essa questão não foi incorporada pelo Arnaldo Jabor na pauta que ele apresentou aos manifestantes. Por que?

Governador Simão Jatene (PSDB)
Saí do PT e dele me tornei um dos seus críticos por conta da sua acomodação à ordem estabelecida. Todavia, não posso compactuar com as análises que depositam nele toda a culpa pelo estado a que chegou o nosso país. Aqui no meu estado, o Pará, o PSDB vai completar 16 anos de governo em 2014. Vários indicadores sociais do Pará encontram-se entre os piores do país, a educação está em frangalhos, os servidores públicos ganham mal; o governo estadual está mergulhado em falcatruas, corrupção, nepotismo. Aqui há um verdadeiro pacto pela impunidade envolvendo setores importantes do legislativo, do judiciário e da mídia. Somente em 2010, a Assembleia Legislativa do Estado gastou com combustível mais do que toda a frota de segurança pública. O judiciário não se move quando as ações envolvem gente graúda. É só ver a estapafúrdia e abjeta condenação do jornalista Lúcio Flávio Pinto que, ao defender o patrimônio público, foi perseguido implacavelmente. O PSDB e o "Democratas" elegeram o ex-prefeito Duciomar Costa (PTB) para a prefeitura de Belém. O mesmo que teve recentemente os seus direitos políticos cassados por malversação dos recursos públicos. Belém é a capital onde o sentimento de insegurança é avassalador. A rede de abastecimento de água em todo o Estado é uma vergonha, nem preciso falar algo sobre o saneamento básico, que em muitos lugares simplesmente não existe. Os tucanos e demos destruíram a capacidade de planejamento do Pará, gastam uma fortuna em propaganda que, coincidentemente, é gerida há anos pela empresa que faz a campanha eleitoral do PSDB e ninguém faz nada contra isso. Cerca de 30 bebês morreram nesses últimos dias na Santa Casa de Misericórdia. O Pará gera pouco empregos. Nossa economia está atrelada aos interesses das grandes mineradoras, do agronegócio e das madeireiras. Isto sem falar no Jader Barbalho e seu PMDB, cujo currículo é conhecido nacionalmente. Além do Jader, os dois outros senadores paraenses - Mario Couto e Flexa Ribeiro, ambos do PSDB - foram ou estão envolvidos em escândalos de desvio de dinheiro público. Poderia escrever páginas e mais paginas das mazelas que atingem a todos(as) nós paraenses. 
Senador Jader Barbalho (PMDB)

Apesar de tudo isso, meus amigos conservadores só falam na Dilma e no PT. Quanto ao descalabro que PMDB, PSDB, PTB e Demos promoveram nas contas públicas, nos milhões desviados, na destruição do serviço público, não falam nada, absolutamente nada. Não pedem o impeachment de Jatene, não falam da corrupção escancarada etc. É como se estes fossem vestais, verdadeiros patriotas e símbolo de bons governantes. Para os meus amigos conservadores tudo está uma maravilha no nosso estado.

Não, não posso concordar com isso. Se é pra cobrar, vamos cobrar de todo mundo. Vamos exigir nossos direitos diante de quem quer que seja. Ética pela metade não é ética. É hipocrisia e oportunismo.

* Recomendo aos meus amigos conservadores que visitem o Blog A Perereca da Vizinha. Leiam os artigos e vejam as provas cabais da corrupção desenfreada envolvendo a cúpula do governo estadual.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Globo: a notícia que vem do alto.

Absolutamente todos os jornalistas da Globo que falaram das manifestações que ocorrem neste momento em diversas capitais do país estavam posicionados em helicópteros, ou nos telhados de edifícios. O fato é que a Globo tem recebido sonoro repúdio dos que protestam. Sinais dos tempos...

Sobre "pacifistas" e "baderneiros": uma revolta da classe média?

As chaves de leitura para tentarmos compreender as mobilizações massivas no Brasil são muitas. Tantas são as possibilidades que abrem espaço para todo tipo de regozijo ou aversão: a) Há as perspectivas dos nostálgicos da ditadura militar que se sentem incomodados com a presença de milhares de pessoas saindo às ruas para protestar; b) Há os que acreditam na possibilidade de mudar as estruturas da sociedade sem partidos, sem sindicatos, sem políticos; c) Há os dirigentes incomodados pelo fato de não estarem no comando das massas e por elas serem criticados; d) Há os bandidos do dinheiro público furiosos porque suas falcatruas podem ganhar evidência; e) Há os estudiosos encafifados porque esses movimentos não se adequam às suas categorias de análise; f) Há os militantes históricos que vêem na alegria da juventude em marcha uma fagulha de esperança de que a democracia - não apenas a formal - seja efetivamente instaurada no país; g) Há os incrédulos que acreditam serem essas mobilizações apenas uma onda que logo retornará ao seu estado de calmaria; h) Há os que controlam fatias de poder do Estado que não sabem o que dizer e se sentem envergonhados de questionar os que lhes questionam; i) Há aqueles que vêem a possibilidade de auferir ganhos de modo rápido, mesmo que seja a base de roubo de bancas de revistas, farmácias ou supermercados; j) Há os que acreditam firmemente de que a sociedade progride tão somente pela construção de consensos, daí lhes causar incômodos os protestos; k) Há os que se desesperam por morar tão longe dos seus locais de trabalho e, por conta disso, mofam por horas a espera de ônibus, vans ou outro tipo de condução; l) Há os falsos ludistas que acreditam na ideia de que quebrar o patrimônio público é uma atitude antissistêmica; m) Há os esperançosos que torcem para que haja mudanças efetivas no país; n) Há os que acreditam que as manifestações são verdadeiramente indícios de que o Apocalipse chegou; o) Há os que nos lembram que nem a luta de classes e nem a lei da gravidade foram revogadas; p) Há os querem ver o circo pegar fogo; q) Há os que temem perder privilégios; r) Há os querem ter direito a ter direito; s) Há os que pensam apenas nas eleições do ano que vem; t) Há os que como o Pelé só falam besteiras (os idiotas de sempre); u) Há os que especulam com as finanças do país; v) Há os que aproveitam a oportunidade para aprovar leis absurdas como a da Cura Gay; w) Há os que não se cansam de repetir que o povo brasileiro já protestava há muito tempo, mas que a imprensa e uma parte dos que hoje estão nas ruas ignoravam; x) Há mães e pais preocupados com a militância dos filhos e o medo de que sofram algum tipo de violência; y) Há aqueles que se preocupam com a sujeira que precisam limpar no dia seguinte aos protestos; z) Há os que estão envolvidos com a produção de teses e dissertações e não têm tempo pra ver o que está acontecendo no país. Qual a porta de entrada para analisarmos as mobilizações dos últimos dias?

Um determinado jornal estrangeiro afirmou que um dos motivos desencadeadores dos protestos seria que a classe média brasileira cresceu e agora cobra o retorno dos altos impostos pagos. É isso mesmo? A classe média brasileira se tornou revolucionária? Outra linha de raciocínio que se tornou hegemônica na cobertura jornalística veiculada pelos conglomerados da comunicação e na elite política do Brasil procura estabelecer uma divisão clara entre os que eles identificam como pacifistas e baderneiros. Para eles os primeiros são os que defendem realmente os interesses coletivos, já os segundos são aproveitadores que merecem ser presos.

Vamos por parte. Em primeiro lugar parece não ser crível que as mobilizações que ocorrem no Brasil são realizadas por uma classe média expandida, enraivecida pela péssima qualidade dos serviços públicos. Estes serviços são precários? São. É o principal motivo das passeatas? É muito difícil fazer tal afirmação. Contudo, não podemos esquecer que no início dos protestos tanto os governos quanto a mídia corporativa tentaram passar a ideia de que tudo se resumia aos R$ 0,20 (vinte centavos) de aumento das passagens de ônibus (o discurso enlouquecido de Arnaldo Jabor na televisão foi antológico). A diferença agora é que os grandes grupos de comunicação abandonaram essa tese e partem para colocar o governo federal como a única mira dos protestos, mas os governos estaduais e prefeituras continuam a acreditar que a redução dos preços em alguns míseros centavos será suficiente para arrefecer os ânimos da galera. Será? Por outro lado, devemos ter em mente que a sanha privatista é o principal motor de muitas das críticas feitas contra os serviços públicos no nosso país por parte daquele que os vêem apenas como uma grande oportunidade de negócios. E essa perspectiva pouco tem a ver com as demandas da grande maioria da população que acessa postos de saúde, hospitais ou escolas públicas.

Em segundo lugar a rotulagem que distingue pacifistas e baderneiros merece ser analisada com cautela. Evidentemente não se pode concordar, em hipótese alguma, com atos de banditismo cometidos contra cidadãos comuns ou pequenos comerciantes que tiveram seus empreendimentos saqueados, e mesmo a depredação de prédios históricos. Nos parece que não há divergências substantivas quanto a isso. Porém - sim, há um porém -, as elites sempre trataram como baderneiros todos aqueles que tentam de algum modo subverter a ordem, mesmo que ela seja profundamente injusta. Aliás, certa vez nos disse Martin Luther King Jr. que "temos o dever moral de desobedecer a leis injustas". E há algo mais injusto do que a miséria, a fome ou a falta de moradia? O governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) não teve qualquer escrúpulos quando chamou de baderneiros os ocupantes de Pinheirinho, ou as pessoas que depredaram trens que atravessavam a periferia de São Paulo por conta das sucessivas quebras dos equipamentos e dos frequentes atrasos a que estavam submetidos por conta desse problema.

Permitam-me inserir uma passagem da análise feita por Slavoj Zizek sobre o medo instaurado (e trabalhado) na sociedade estadunidense após os atentados de 11 de Setembro, pois acredito que ela nos ajuda de certa forma a refletir sobre a questão acima:

(...) O estado em que vivemos hoje, de "guerra ao terror", é o estado da ameaça terrorista eternamente suspensa: a Catástrofe (o novo ataque terrorista) é considerada certa, mas ela é indefinidamente adiada - o que vier a acontecer, ainda que seja um ataque muito mais horrível do que o de 11 de Setembro, não será "aquele". E aqui é crucial que se entenda que a verdadeira catástrofe já é esta vida sob a sombra da ameaça permanente de uma catástrofe.
Recentemente, Terry Eagleton chamou atenção para os dois modos opostos de tragédia: o Evento grande, espetacular, catastrófico, a irrupção abrupta vinda de outro mundo, e a árida persistência de uma condição sem esperança, a frustrante existência que continua indefinidamente, a vida como uma longa emergência. Essa é a grande diferença entre as grandes catástrofes do Primeiro Mundo, como o 11 de Setembro, e a árida catástrofe permanente dos, por exemplo, palestinos da Margem Ocidental.  O primeiro tipo de tragédia, a figura contra o cenário "normal", é característico do Primeiro Mundo, ao passo que, em grande parte do Terceiro, catástrofe designa o próprio cenário sempre presente (ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do real: cinco ensaios sobre o 11 de Setembro e datas relacionadas. São Paulo : Boitempo Editorial, 2003, p. 12-13 - grifo nosso).
A catástrofe materializada no abuso policial, na dilapidação do patrimônio público para que seja repassado a grandes grupos privados - como ocorre com o crescente domínio de Eike Batista, particularmente no Rio de Janeiro -, no assassinato de jovens da periferia por grupos de extermínio, no ônibus lotado e caro de todos os dias, no assédio moral nos locais de trabalho, no machismo que leva ao assassinato e a outras formas de violência contra as mulheres, na corrupção governamental, na falta de transparência e de controle social - apesar de próximas não são a mesma coisa -, nos serviços públicos e privados de péssima qualidade (quem não tem queixa contra as empresas de telefonia e de planos de saúde que levante a mão), na existência de cidades excludentes para velhos e portadores de necessidades especiais, nas enchentes recorrentes das casas, no desmoronamento dos morros, nas secas e na indústria da seca, na falta de postos de saúde e de escolas, na ausência de perspectivas promissoras aos jovens, no uso de trabalho infantil, no terror promovido pelas miliciais, na falta de emprego e de moradia, para citar apenas alguns exemplos, são cenários sempre presentes entre pobres e desvalidos de todo tipo. Podemos considerá-los baderneiros? É a classe média ensandecida contra os impostos?



quarta-feira, 19 de junho de 2013

Um cruzado e um upper... O adversário está zonzo.

Os apreciadores do boxe vibram quando um lutador consegue aplicar um cruzado ou um upper com eficiência. O cruzado nada mais é do que um golpe contra a lateral da cabeça do adversário. Já o upper, ou gancho, é um golpe de baixo para cima que acerta em cheio o queixo do oponente. Qualquer um deles, quando bem executado, deixa o adversário invariavelmente grogue. Alguns conseguem se recompor e continuar na luta, podendo até mesmo virar o jogo. Outros se tornam presas fáceis e acabam sendo derrotados.

As manifestações que se espalham pelo país feito rastilho de pólvora estão distribuindo cruzados e uppers em distintas direções: O Estado repressivo, os partidos da situação, os partidos da oposição, a apropriação privada dos bens e recursos públicos, a forma tradicional de se fazer política, o monopólio da informação, os megaprojetos que destroem o ambiente e colocam em risco os modos de vida de populações como a dos indígenas, entre outros. Elas, as mobilizações massivas, conseguirão derrubar seus oponentes ou, ao contrário, apenas os deixarão grogues até que se recomponham e retomem a iniciativa da luta? Esse parece ser um dos maiores dilemas do momento.

O fato é que a mídia corporativa, o aparelho estatal, os partidos e o "mundo político" ainda não conseguem entender muito bem o que está ocorrendo no nosso país. Há, porém, sinalizações claras de que determinados segmentos conservadores da sociedade brasileira pretendem fazer com que suas pautas ganhem força. Hoje mesmo um determinado general da reserva conclamou os militares a se posicionarem firmemente contra o que ele denominou "desgoverno". De um lado, Arnaldo Jabor e os "falcões" dos conglomerados midiáticos; de outro, tucanos e demos mais alguns grupos empresariais insatisfeitos com a condução da política macroeconômica articulam-se para mexer determinadas peças do xadrez político, objetivando emplacar um xeque-mate contra o governo Dilma Roussef e o PT. Estes, por sua vez, cada vez mais desconectados dos movimentos sociais enfrentam dificuldades para reagir. Parecem grogues e não há garantias de que conseguirão reagir, mesmo que alguns de seus militantes bradem que não aceitarão golpes.

Todavia, os 1% que concentram a renda e seus representantes não têm qualquer garantia de que conseguirão capitalizar o "clamor das ruas". Um exemplo elucidativo: O principal noticiário da Globo, o Jornal Nacional, sequer pode transmitir suas matérias de dentro das passeatas, pois os/as participantes simplesmente expulsaram seus repórteres e cinegrafistas. Até mesmo o competente jornalista Caco Barcelos, considerado um inimigo por parte da linha dura da Polícia Militar de São Paulo, não conseguiu fazer seu trabalho. Tal fato forçou a apresentadora Patricia Poeta a ler uma espécie de editorial tentando "limpar a barra" da empresa.

Ou seja, tudo está em aberto. Tudo pode acontecer, até mesmo nada de substancial. Ainda mais se a política continuar sendo criminalizada, inclusive por parcela significativa dos manifestantes.