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sábado, 23 de abril de 2016

O PT e os erros não reconhecidos.

Primeiramente vamos limpar o meio de campo. Se você apóia o impeachment, mesmo sabendo que não foi configurado crime de responsabilidade contra a presidenta, sinto dizer-lhe: sim, você é golpista, por convicção ou por omissão. Há ainda a possibilidade de apoiar a destituição de Dilma Roussef por acreditar firmemente que determinado candidato ou candidata do seu agrado vai capitalizar o descontentamento da população e, quem sabe, se tornar o/a novo(a) mandatário(a) do país. Esta é, sem dúvida alguma, uma aposta perigosa, pois não há qualquer garantia de que a crise atual não resulte em um regime autoritário, não necessariamente uma ditadura militar. Aliás, de uns anos para cá temos vários exemplos de mobilizações sociais que não resultaram em regimes democráticos.

Em segundo lugar é preciso enfrentar alguns argumentos petistas. Grande parte da responsabilidade por tudo o que está acontecendo é sim do PT. Seu amoldamento às práticas patrimonialistas das elites políticas, suas alianças eleitorais - algumas espúrias - contribuiu para que hoje o Brasil tenha se tornado refém de uma quadrilha; além disso, não promoveu as reformas estruturais que o Brasil tanto necessita: não fez a reforma agrária, não democratizou os meios de comunicação e a propriedade, não taxou as grandes fortunas e não realizou a reforma política. Esta poderia ter evitado muitos dos transtornos porque passa nosso país.

Nesta semana vi pela internet uma foto dos anos 1980 em que estavam alguns dos fundadores do PT, entre eles o grande Manoel da Conceição, líder camponês do Maranhão. Quando lembro das alianças que o PT fez com a família Sarney, talvez a mais antiga casta de "coronéis" ainda atuantes no país e que controla boa parte do aparelho do Estado e das riquezas daquele estado, inimiga declarada dos(as) trabalhadores(as); e, ao mesmo tempo, das medidas que lançaram ao limbo partidário Manoel da Conceição e tantos(as) outros(as) petistas que se batiam contra a estratégia do partido para alçar o poder, fico com a sensação de que o PT realmente mereceu tudo o que está passando.

Defender o país do golpe em andamento não é defender o governo Dilma. Somente os/as petistas e alguns dos seus aliados relacionam uma coisa e outra. Uma parte considerável dos movimentos sociais e das pessoas que bradam contra o impeachment não pensa dessa forma. Para estes o PT deve sim explicações ao país. Contudo, chama atenção o discurso vago petista "sim, erramos, precisamos reconhecer", mas que nunca deixa explícito que erros estão sendo realmente reconhecidos. Não, não podemos aceitar tal postura. O por quê? Porque toda a esquerda está sendo alvo da extrema direita. Esta não quer somente tirar o PT do poder. Pensar dessa forma é deixar de fora o substancial: os apologistas da ditadura e seus aliados querem mesmo é destruir todas as forças de esquerda e progressistas deste país. É disso que se trata.

Os/As que contestam a estratégia petista adotada até aqui têm claro que não adianta o PT ficar no poder para aplicar uma agenda conservadora, da direita. Daí que em meio as mobilizações procura construir sua própria agenda política, econômica e social. Tal objetivo vai ser um dos nossos principais desafios.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Pingos nos "is".


  • A ordem democrática foi sim violada com a prisão arbitrária de Lula. Não há como negar a existência de um verdadeiro complô envolvendo setores do Congresso Nacional, do Judiciário e do Ministério Público; da mídia corporativa e de grandes grupos empresariais do Brasil e do exterior para retirar o Partido dos Trabalhadores (PT) do comando do executivo. Contudo, essa mesma ordem já vinha sendo violada pelo próprio governo através do uso da Força Nacional sobre os munduruku para garantir a realização de pesquisas para os Estudos de Impacto Ambiental (EIA), peça que se constituiu num mero rito formal para viabilizar grandes empreendimentos públicos e privados na Amazônia; da militarização das favelas cariocas e dos despejos forçados para a execução de obras de infraestrutura vinculadas às Olimpíadas; do uso da Polícia Federal para expulsar indígenas de suas terras no Mato Grosso e em outros pontos do país, como na Bahia; da aprovação da lei antiterrorismo que se tornou uma arma contra os movimentos sociais; do destroçamento da legislação ambiental para viabilizar os interesses do grande capital; do privilegiamento do agronegócio e da indústria extrativa em detrimento dos modos de vida de povos ancestrais, entre tantas outras situações de violação da ordem democrática.
  • Lutar contra o golpe capitaneado pela Globo não significa em hipótese alguma defender o governo petista. Isto para os que se colocam numa perspectiva socialista, de mudanças estruturais no Brasil. Defender a democracia e suas instituições é um compromisso de todos e todas realmente engajados(as) na construção de um país melhor. Além disso, é fundamental para garantir um campo adequado ao desenvolvimento das lutas sociais anti-hegemônicas, contra as desigualdades, por justiça socioambiental e pela paz. Portanto, para nós, o que está em jogo é muito mais do que a manutenção de um governo.
  • Se por um lado o discurso do ódio contra o PT e as forças progressistas e de esquerda tem resultado em ataques verbais e físicos por parte de grupos extremistas; por outro, respinga também nos partidos de oposição, principalmente o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que não tem conseguido capitalizar plenamente os descontentamentos – espontâneo e produzido – da população brasileira. Tal situação abre um flanco enorme para a aventura política e a busca por “salvadores da pátria”, como o próprio juiz Sergio Moro ou o deputado Jair Bolsonaro, este do Partido Social Cristão (PSC).
  • Infelizmente para a Amazônia a continuidade ou não do governo Dilma Roussef não altera substancialmente o papel da região no processo de acumulação ampliada do capital. O aprofundamento da conexão da Amazônia aos mercados internacionais, a instalação de complexos sistemas logísticos para dar vazão à exploração de seus recursos naturais, a violação continuada dos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, a alteração de marcos legais para viabilizar a exploração e expropriação de territórios, a criminalização de movimentos sociais e de suas lideranças, a inviabilização financeira das organizações que se opõem ao modelo de desenvolvimento hegemônico e o combate político-ideológico a elas com base nos discursos do progresso e da ordem social, permanecerão como elementos estruturantes da ação do Estado e das corporações econômicas nacionais e transnacionais nesta parte do território brasileiro. O PT não romperá com essa lógica.

domingo, 6 de dezembro de 2015

A luta é contra o golpe.

Não há meio termo. Não há muro. A tentativa de impeachment de Dilma Roussef é golpe. Não há outra definição para a estratégia que une as forças políticas mais conservadoras do país. Alguns, como FHC, já haviam jogado suas biografias no lixo. Na atualidade apenas atiram as últimas pás de terra sobre elas. É o golpe dos entreguistas, dos que se comprazem com uma nação subordinada aos interesses dos EUA, dos que não querem negros(as) nas universidades, dos que acreditam que lugar de pobre é quele onde os ricos não frequentam, dos oportunistas, dos fascistas, dos que odeiam o feminismo, dos que preferiam que os índios já tivessem desaparecido da face da terra, dos que querem voltar aos tempos da casa grande e da senzala, dos que só confiam no poder das armas (do militarismo), dos que detestam GLBTs, dos que se opõem aos direitos humanos.

Entretanto, é preciso dizer claramente que a forma como o PT vem exercendo o poder nos últimos anos, não somente através do executivo federal, colocou as lutas de resistência sob a perspectiva histórica da esquerda numa situação bastante delicada. A elite petista se tornou parte das elites dominantes do país. Sua estratégia de alianças acabou reforçando o modelo político vigente: corrupto, e plutocrata (onde o poder do dinheiro é que comanda o exercício do poder). O modelo de desenvolvimento adotado reforçou nossa dependência externa, posto que fundada na exploração e exportação intensiva de recursos naturais. Problemas estruturais não foram enfrentados pelos governos petistas: a concentração da terra, do exercício do poder político, dos meios de comunicação e da riqueza, As bases sob as quais a ditadura civil-militar se manteve no Brasil permanecem intactas 30 anos depois da "redemocratização" do país.

Apesar de tudo isso, apoiar mesmo que indiretamente a estratégia conservadora de impeachment é atentar contra a própria resistência popular que ora segue neste país, com percalços e algumas vitórias. Não tem jeito: é ir às ruas e barrar o golpe, pois é disso que se trata. Da nossa parte, não sairemos em defesa do governo, mas pela garantia de um "ambiente democrático" para continuarmos lutando. Isso é o que nos interessa. Contudo, não podemos perder a oportunidade para qualificarmos nossas plataformas e agendas de luta. Eis algo que precisamos dedicar especial atenção.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Fico pensando...

Defendo o ponto de vista de que uma das grandes diferenças históricas entre a estratégia petista para alçar essa parcela de poder que é o executivo federal e as anteriores realizadas por partidos ou forças políticas de esquerda é que na primeira, além de ter conseguido "chegar lá", reside o fato de que o PT, seus dirigentes e grupos que controlam efetivamente o partido, passaram a se constituir em parte das elites dominantes no país. Nas experiências anteriores da esquerda, imersas na ideia de apoio a uma burguesia nacional não-imperialista, de luta contra um modelo feudal ou na convicção de que o país deveria passar por um "choque" capitalista, as forças de esquerda sempre estiveram a reboque, caudatárias mesmo, de poderosos grupos políticos e econômicos do Brasil e do exterior.

Com o PT a situação é diferente. Recomendo o leitura do livro escrito pelo uruguaio Raul Zibeck, intitulado Brasil Potência. Nele está registrado de modo muito interessante como o PT se preparou para chegar ao poder. O papel dos fundos de pensão na modernização do capitalismo brasileiro e o controle sobre eles exercido pelo partido, as mudanças ocorridas no mundo sindical, particularmente daquele segmento próximo ao PT, o controle da máquina governamental e por aí vai. Paulatinamente, ao longo dos anos, a elite petista, não dá pra estender isso ao conjunto da militância, passou a se constituir em parte orgânica da elite dirigente do país, as "classes dominantes". Essa é a diferença com processos pretéritos. Daí o porquê hoje é muito difícil contar com o apoio do partido às lutas contra o modelo neoextrativista de desenvolvimento, ou à expansão desenfreada de grandes projetos de infraestrutura na Amazônia. Dai ser cada vez mais difícil afirmar que ainda estamos do mesmo lado.

Entretanto, por mais contraditório que possa parecer, não é possível afirmar também que PT e PSDB são a mesma coisa. Não são. Há diferenças substanciais que precisam ser reconhecidas sob o risco de ignorarmos a complexidade do real. Por exemplo: O que seria do governo Morales (Bolívia) durante a retomada do controle do setor petroleiro num governo Aécio Neves? Ou as relações do nosso país com a Venezuela? Ou ainda com os Estados Unidos no que diz respeito à "guerra contra o terrorismo"? Na dimensão interna, o que seria da política de cotas? Haveria política de cotas? Em princípio isso pode parecer apenas penduricalhos diante da aplicação da ortodoxia macroeconômica, mas são mesmo questões insignificantes?

Por outro lado, há também confusão no que diz respeito ao nosso posicionamento em relação às tentativas da oposição de provocar o impeachment de Dilma Roussef. A defesa da democracia e de suas instituições - incluídas as nossas instituições como sindicatos, associações, fóruns, ONGs etc. - não é a defesa do governo. Ao nos posicionarmos contra o golpe desencadeado por forças conservadoras xenófobas, racistas e fascistas não estamos nos posicionando a favor do PT e seu bloco de poder, pois o que está em jogo não é o mandato presidencial, mas, fundamentalmente, o "ambiente" sob o qual queremos desenvolver as nossas lutas de resistência. Particularmente estou anos-luz de distância da concepção de que as crises levam necessariamente a uma situação melhor, em que o "povo assume as rédeas de seu destino". Os processos ocorridos no Egito e em outros países que passaram por intensas mobilizações a partir de 2010 no mínimo levantam dúvidas sobre tal ponto de vista. Isto ocorre justamente porque a "história é um livro em aberto". Ou seja, nada está dado de antemão. Podemos tanto avançar para uma situação qualitativamente melhor, como podemos regredir a uma situação de barbárie.

Então, temos que abrir mão das mobilizações e das iniciativas de reconstruir um bloco de esquerda no Brasil? Não! O PT e alguns de seus aliados não se colocam mais na perspectiva de destruir o capitalismo. Nessa questão fundamental já não comungamos das mesmas perspectivas. Contudo, se for preciso ir às ruas para lutar contra o impeachment lá estarei porque, como disse, o que está em jogo é muito mais que um mandato.

Fico imaginando cá com os meus botões o que teria acontecido se os comunistas e os sociais-democratas tivessem se unido contra os nazistas a partir do final da década de 1920. Não tem relação direta com o que foi escrito acima. Só fico pensando... Será?


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A "ética" pela metade. Ou a "ética" utilitária.

Ao olhar a grande quantidade de mensagens que circula pela internet criticando duramente a corrupção em nosso país chama atenção a seletividade dos questionamentos. De um lado, setores conservadores que querem o rompimento da ordem legal, exigindo a volta dos militares ao poder em nome "da família e da democracia", que acusam o governo federal e seus aliados de estarem envolvidos nos "piores escândalos de corrupção da história brasileira", são os mesmos que em cartazes afirmam que sonegação não é crime. Ou seja, defendem o questionável ponto de vista de que sonegar entre R$ 300 e R$ 400 bilhões de reais por ano é uma atitude normal já que, segundo eles, o Estado brasileiro e "inchado" e políticas sociais como o Bolsa Família são apenas estratégias de dominação dos setores "comuno-petitas" para se manterem no poder. São os mesmos que fecham os olhos para as maracutaias de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, não batem panelas de seus apartamentos contra a corrupção do PSDB, do DEM, PPS e outros partidos que pregam o impeachment da presidenta Dilma Roussef, se opõem às cotas para estudantes negros(as), pregam diuturnamente que direitos humanos é só pra defender bandidos, que vivemos numa ditadura bolivariana e por aí vai. Jogam para debaixo do tapete o fato de que durante a ditadura civil-militar que dominou o país a partir do golpe de 1964 era simplesmente impossível realizar qualquer denúncia contra a corrupção dos poderosos de plantão. Certa vez o jornalista Lúcio Flávio Pinto publicou matéria em que citava uma afirmação de Delfim Neto, ex-todo poderoso da economia, de que somente na construção da hidrelétrica de Tucuruí foram desviados mais de R$ 1 bilhão de reais. Daí o ódio dos conservadores pela história, tentando a todo custo reinterpretá-la para atender aos seus interesses mesquinhos e autoritários. Ou alguém esqueceu da "ditabranda"? Esses setores amam a Operação Lava-Jato, mas odeiam a Zelotes, justamente a que coloca na mira da lei algumas das maiores fortunas do país por crime de sonegação.
De outro lado, porém, há segmentos sociais - entre eles os/as próprios(as) petistas - para quem o PT e seus aliados são meras vítimas da perseguição de poderosas elites golpistas que querem reconquistar a presidência da República. Para eles não houve corrupção na Petrobrás e em outras empresas estatais, o BNDES não foi utilizado como ferramenta para favorecer poderosos grupos empresariais brasileiros e transnacionais, conformando oligopólios em diferentes segmentos da economia; o partido não se beneficiou de esquemas de desvio de recursos públicos para garantir-se nas eleições e nem renegou bandeiras históricas de luta dos(as) trabalhadores(as) brasileiros(as). Afirmar o contrário é correr o risco de ser lançado à fogueira como um membro da direita.

Em ambos os casos a ética serve apenas como uma ferramenta da disputa político-ideológica, muitas vezes para justificar o injustificável. Nesse contexto a ética enquanto valor importante para a vida em sociedade definha a ponto de se tornar uma peça, cuja utilidade obedece ao cálculo político pragmático onde o conjunto perde em benefício de alguns "abençoados". Cunha não nos deixa mentir.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

VIVEMOS UM DEJÀ VU?
Guilherme Carvalho*

É muito comum vivermos certas situações que parecem repetir algo que já havíamos experimentado. Essas ocorrências são denominadas dejà vu, um termo da língua francesa que significa já visto. Ocorre, porém, que essa sensação de já ter vivido um determinado evento parece não se restringir ao campo estritamente pessoal, mas se estende à nossa vida em sociedade. Daí alguns identificarem a história humana como um ciclo em seu movimento de auge e de queda, ou ainda como um círculo que nos faria prisioneiros de um eterno retorno. Consideramos ambas perspectivas limitadas para compreendermos a complexidade do real. Todavia, é forçoso reconhecer que alguns fatos persistem de tal maneira ao longo do tempo que parecem se constituir numa reprodução infinita do mesmo.
O assalto ao poder pelos militares brasileiros em 1964 foi justificado por eles como uma medida necessária para livrar o país da ameaça comunista. Para isso contou com a colaboração de grandes grupos públicos e privados de comunicação, de parcelas majoritárias do judiciário, do empresariado e do parlamento, de vários segmentos da sociedade civil nacional, bem como do apoio logístico e de informações dos Estados Unidos.
Presidentes militares
Além da ameaça comunista os militares buscaram incutir na população a ideia de que somente eles seriam capazes de garantir as condições necessárias para fazer o país progredir. O discurso do progresso foi, portanto, uma importante ferramenta ideológica para atrair o apoio da população às ações repressivas desencadeadas pelo bloco de poder que se apoderou do aparelho do Estado contra os opositores do regime, às restrições à liberdade e aos planos macroeconômicos.
Em nome desse suposto progresso a Amazônia foi definitivamente escancarada aos conglomerados econômicos nacional e internacional através da abertura de grandes rodovias como a Transamazônica, concessão de fartos subsídios para a instalação dos mesmos na região, criação de facilidades que garantiram o monopólio de vastas extensões do território amazônico aos setores que compunham o bloco de poder capitaneado pelos militares etc. O Estado brasileiro foi fundamental para o bom êxito dessa estratégia de ocupação e de controle territorial. Todavia, as consequências disso tudo não foram pequenas e repercutem ainda hoje:
Que lições podem ser extraídas da política regional de ocupação do território? O privilégio a ser atribuído aos grandes grupos e a violência da implantação acelerada da malha tecno-política, que tratou o espaço como isótropo e homogêneo, com profundo desrespeito pelas diferenças sociais e ecológicas, teve efeitos extremamente perversos nas áreas onde foi implantada, destruindo, inclusive, gêneros de vida e saberes locais historicamente construídos. Essas são lições a aprender como não planejar uma região. (BECKER, 2005, p. 26)
Eis que entramos no túnel do tempo e surgimos em pleno governo de Dilma Roussef. Dois meses antes da realização da Conferência Rio+20 a presidente da República reuniu-se com organizações da sociedade civil integrantes do Fórum do Clima, no Palácio do Planalto. Em resposta às críticas suscitadas pelo fórum em relação à política do governo federal de construir novas hidrelétricas na Amazônia, a presidente foi enfática: o governo não mudará sua estratégia de aumentar a oferta de energia utilizando o máximo possível o potencial dos rios amazônicos. A presidente foi além. Disse aos ambientalistas que “o mundo real não trata de tema ‘absurdamente etéreo ou fantasioso’”. Afirmou ainda que ninguém “numa conferência dessas também aceita, me desculpem, discutir a fantasia. Ela não tem espaço para a fantasia. Não estou falando da utopia, essa pode ter, estou falando de fantasia” (BNDES DÁ NOVO CRÉDITO..., 2012, não paginado). Para finalizar, assegurou que trabalharia pelo desenvolvimento sustentável, para tirar as pessoas da pobreza e tentar compatibilizar progresso e respeito ao meio ambiente.
Hidrelétricas na Amazônia
Também o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, recorre reiteradamente à defesa do progresso e do desenvolvimento da Amazônia para rebater as críticas de diferentes segmentos sociais do Brasil e do exterior preocupados com os impactos do erguimento de dezenas de barragens previstas para a região até 2050. A defesa do progresso, portanto, tem servido de anteparo a qualquer questionamento à intenção do Estado brasileiro e, evidentemente, de grandes conglomerados econômicos nacionais e internacionais de tornar a Amazônia a província energética brasileira, sem que se saiba ao certo as consequências dessa iniciativa não somente para a região, mas para o clima de todo o planeta.

Na coletânea de poemas intitulada Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, há uma linda referência sobre a liberdade, onde afirma ser esta um sonho humano que ninguém consegue explicar, mas que não há quem não entenda (MEIRELES, 2005). O que aconteceria se substituíssemos a palavra liberdade por progresso? Quem em sã consciência não almeja progredir? Quem não entende o que ela significa? Todavia, o que ela significa?
Progresso é uma daquelas palavras que se encontra estreitamente vinculada à “credibilidade ou ao poder de quem a pronuncia” (DUPAS, 2006, p. 17). Afinal de contas, quem determina o “rumo” do progresso? Dupas recorre à fala do “gnomo irascível Humpty Dumpty”, presente em Alice no país das maravilhas, escrita por Charles Lutwidge Dodgson e publicada em 1865, para refletir sobre essa questão:
Quando utilizo uma palavra, ela significa precisamente aquilo que eu quero que ela signifique. Nada mais, nada menos’. Alice contesta que ‘o problema está em saber se é possível fazer que uma palavra signifique montes de coisas diferentes’. Ao que Humpty Dumpty replica ativamente: ‘O problema está em saber quem é que manda. Ponto final’ (LALANDE apud DUPAS, 2006, p. 17, grifo do autor).
Parlamentares, mídia, pessoas comuns e mesmo o judiciário também utilizam o progresso como uma espécie de vacina que imuniza as hidrelétricas e qualquer outro grande empreendimento, publico ou privado, de contestações de todo tipo; na grande maioria das vezes independentemente da justeza e/ou embasamento dos questionamentos. Que o digam os pesquisadores que integraram o Painel Independente de Especialistas, cujas conclusões chocaram-se frontalmente com diversas afirmações do Estudo de Impacto Ambiental apresentado pelas empresas interessadas na construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu.
O fato é que o progresso se tornou parte constitutiva do discurso do poder. Assim foi durante a ditadura militar no Brasil, nos governos Juscelino Kubitschek, Eurico Gaspar Dutra e Getúlio Vargas; nos primórdios da República com o lema Ordem e Progresso incrustado na bandeira nacional e mesmo durante o Império. Da mesma forma, a palavra progresso foi utilizada pelas diferentes coalizões de poder que estiveram à frente do Estado brasileiro após a redemocratização do país para afirmarem-se diante da população e delas conquistar o reconhecimento e apoio.
É a partir da noção de progresso que a Amazônia tem sido refletida pelas coalizões de poder que estiveram à frente do Estado brasileiro até o presente momento, assim como fundamenta a implementação do atual modelo hegemônico de desenvolvimento, cuja característica é basear-se na exploração intensiva dos recursos naturais aqui existentes. O progresso, então, assume o papel de servir como um ponto de inflexão, de separação entre o antes e o depois, entre retrocesso e avanço, entre passado e futuro. Exemplo: a Amazônia é atrasada daí ser necessário levar o progresso a ela para que a mesma seja definitivamente integrada ao restante do território nacional, através do estímulo ao deslocamento de empreendedores para o seu território, assim como do capital necessário para desenvolvê-la. Tal visão pode ser encontrada como fundamento das políticas dos governos Vargas, Médici e, mesmo, de Dilma Roussef, entre outros.
Que progresso?
Fica evidente que progresso também guarda um sentido civilizatório. É como se o mesmo fosse um ato de redenção de povos primitivos, ou de sociedades atrasadas. Para que tal perspectiva se imponha é necessário que seja estabelecida alguma referência do que se considera “estágio avançado”. Por muito tempo essa referência foi a Europa, agora, a designação genérica são os países “desenvolvidos”. À Amazônia resta espelhar-se na dinâmica econômica do centro-sul do Brasil ou de outros países e tentar, quem sabe, rumar em direção a elas, tal como preconizado por Rostow (1978) e sua ideia do desenvolvimento em etapas. Apesar de ficar cada vez mais evidente que não há lugar para todos no banquete do progresso, como bem demonstrado por Chang (2004). O progresso é utilizado para justificar o discurso hegemônico da acumulação. Todavia, a promessa de um futuro próspero se vê permanentemente confrontada com a situação precária de parcelas significativas da população.
Vivemos um dejà vu? Hoje como ontem o Estado brasileiro se apresenta como o grande impulsionador da apropriação privada de grandes extensões do território amazônico e de seus recursos, em detrimento dos interesses e dos modos de vida de povos indígenas e populações tradicionais – ribeirinhos, extrativistas, agricultores familiares e outros. Também utiliza o forte aparato repressivo para coagir, impedir e criminalizar movimentos sociais e ONGs que se opõem a este modelo de desenvolvimento intensivo no uso da terra, água e outros componentes da natureza e, acima de tudo, disseminador de conflitos e gerador de crescentes desigualdades socioambientais. Como antes se tenta passar a ideia de que o mercado – suas instituições e suas regras – serão capazes de fazer com que a Amazônia se desenvolva, retirando milhões de amazônidas da pobreza. Cinquenta anos depois da instalação da mais brutal ditadura no Brasil a reprodução do mesmo parece não ter fim.

Bibliografia
BECKER, Bertha. Amazônia: nova geografia, nova política regional e nova escala de ação. In. Amazônia Sustentável: Desenvolvimento sustentável entre políticas públicas, estratégias inovadoras e experiências locais / Martin Coy e Gerd Kohlhepp (coord.). – Rio de Janeiro : Garamond ; Tübinger, Alemanha : Geographischen Instituts der Universität Tübingen, 2005. p. 23-44.
BNDES dá novo crédito de R$ 2,5 bi a Jirau. O Estado de São Paulo, 28 set. 2012. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,bndes-da--novo-credito-de-r-25-bi-a-jirau, 937061,0.htm>. Acesso em: 13 out. 2012.
CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada: a estratégia de desenvolvimento em perspectiva histórica. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: UNESP, 2004.
DUPAS, Gilberto. O mito do progresso, ou progresso como ideologia. São Paulo: UNESP, 2006.
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
ROSTOW, W. W. Etapas do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1978.




* Doutor em Ciência do Desenvolvimento Socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará – NAEA/UFPA e coordenador da ONG FASE Programa Amazônia.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Um cruzado e um upper... O adversário está zonzo.

Os apreciadores do boxe vibram quando um lutador consegue aplicar um cruzado ou um upper com eficiência. O cruzado nada mais é do que um golpe contra a lateral da cabeça do adversário. Já o upper, ou gancho, é um golpe de baixo para cima que acerta em cheio o queixo do oponente. Qualquer um deles, quando bem executado, deixa o adversário invariavelmente grogue. Alguns conseguem se recompor e continuar na luta, podendo até mesmo virar o jogo. Outros se tornam presas fáceis e acabam sendo derrotados.

As manifestações que se espalham pelo país feito rastilho de pólvora estão distribuindo cruzados e uppers em distintas direções: O Estado repressivo, os partidos da situação, os partidos da oposição, a apropriação privada dos bens e recursos públicos, a forma tradicional de se fazer política, o monopólio da informação, os megaprojetos que destroem o ambiente e colocam em risco os modos de vida de populações como a dos indígenas, entre outros. Elas, as mobilizações massivas, conseguirão derrubar seus oponentes ou, ao contrário, apenas os deixarão grogues até que se recomponham e retomem a iniciativa da luta? Esse parece ser um dos maiores dilemas do momento.

O fato é que a mídia corporativa, o aparelho estatal, os partidos e o "mundo político" ainda não conseguem entender muito bem o que está ocorrendo no nosso país. Há, porém, sinalizações claras de que determinados segmentos conservadores da sociedade brasileira pretendem fazer com que suas pautas ganhem força. Hoje mesmo um determinado general da reserva conclamou os militares a se posicionarem firmemente contra o que ele denominou "desgoverno". De um lado, Arnaldo Jabor e os "falcões" dos conglomerados midiáticos; de outro, tucanos e demos mais alguns grupos empresariais insatisfeitos com a condução da política macroeconômica articulam-se para mexer determinadas peças do xadrez político, objetivando emplacar um xeque-mate contra o governo Dilma Roussef e o PT. Estes, por sua vez, cada vez mais desconectados dos movimentos sociais enfrentam dificuldades para reagir. Parecem grogues e não há garantias de que conseguirão reagir, mesmo que alguns de seus militantes bradem que não aceitarão golpes.

Todavia, os 1% que concentram a renda e seus representantes não têm qualquer garantia de que conseguirão capitalizar o "clamor das ruas". Um exemplo elucidativo: O principal noticiário da Globo, o Jornal Nacional, sequer pode transmitir suas matérias de dentro das passeatas, pois os/as participantes simplesmente expulsaram seus repórteres e cinegrafistas. Até mesmo o competente jornalista Caco Barcelos, considerado um inimigo por parte da linha dura da Polícia Militar de São Paulo, não conseguiu fazer seu trabalho. Tal fato forçou a apresentadora Patricia Poeta a ler uma espécie de editorial tentando "limpar a barra" da empresa.

Ou seja, tudo está em aberto. Tudo pode acontecer, até mesmo nada de substancial. Ainda mais se a política continuar sendo criminalizada, inclusive por parcela significativa dos manifestantes.