sexta-feira, 16 de maio de 2014

Ambiente envenenado.

Parece evidente que a oposição política de viés conservador no Brasil sobrevive graças, fundamentalmente, ao intenso trabalho da mídia corporativa. Esta sim demonstra ser o principal partido arregimentador das forças retrógradas que combatem sistematicamente tanto o Partido dos Trabalhadores à frente do governo federal quanto as organizações de vertente anticapitalistas. É bem verdade que o PT colhe o que plantou. Aliás, o que deixou de plantar posto que renunciou completamente à luta pela democratização dos meios de comunicação durante os mandatos de Lula e Dilma Roussef. Somente agora, por conta dos virulentos ataques contra a re-candidatura da atual mandatária, é que se ouve expoentes do partido balbuciarem algumas palavras nesse sentido.

O veneno está disseminado na sociedade brasileira. Jornalistas defendem publicamente a execução de linchamentos; o "medo do comunismo" voltou a ser utilizado como arma de combate contra quem ouse defender algo que mesmo de longe fira os interesses das grandes corporações midiáticas e de grupos empresariais brasileiros ou transnacionais - o macarthismo não morreu! -; as forças de repressão do Estado são utilizadas para reprimir qualquer ato de transgressão da ordem, mesmo quando realizadas pacificamente; movimentos sociais e suas lideranças são criminalizados; os conflitos sociais são judicializados pelos grupos conservadores porque sabem que controlam essa arena; direitos conquistados pela sociedade com muita luta e esforço sucumbem diante da lógica do mercado; a mercantilização da vida avança a passos largos, restringindo, inclusive, a própria ideia de cidadania que passa a ter o consumo como o seu equivalente; noções como desenvolvimento e progresso servem de sustentação para toda sorte de abusos contra povos indígenas e comunidades tradicionais, bem como servem de base político-ideológica para justificar a destruição da natureza; o fanatismo religioso ganha cada vez mais espaço no legislativo e seus adeptos realizam perseguição implacável contra os direitos das mulheres, homossexuais e os afro-religiosos, entre outros. Há quem defenda abertamente o retorno da ditadura. A sociedade deve aceitar a justificativa de que isto se trata do exercício da liberdade de expressão? Tal como os alimentos que consumimos, o ambiente social brasileiro segue perigosamente envenenado.
O medo é uma arma à disposição de grupos de diferentes
matizes políticos e ideológicos
Entretanto, o veneno também é expelido por aqueles que fazem a defesa do bloco de poder e do projeto político que comanda o Estado brasileiro na atualidade. No Brasil, fazer oposição a esse bloco de poder a partir de uma plataforma anticapitalista significa sofrer toda sorte de "constrangimentos": enfrentar processos ou ser alvo de calúnias e/ou difamação - vide o caso das integrantes de movimentos de mulheres que lutam contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará. Para quem afirma que o que digo é um exagero lembro ainda os casos das duas lideranças indígenas recentemente presas pela Polícia Federal. Uma delas, inclusive, foi impedida de assistir a canonização do padre Anchieta, em Roma. A  outra foi acusada por fazendeiros da Bahia de incitar "ações criminosas" contra a sagrada propriedade privada e foi devidamente "enquadrada".

O combate promovido pelos defensores do projeto capitaneado pelo PT é generalista ao ponto de enquadrar toda a oposição num único bloco: os "coxinhas". Essa generalização, evidentemente, pasteuriza os conteúdos da crítica, transformando-os em algo insípido e incolor. Nesse sentido, atinge plenamente seu objetivo político: igualar a todos como retrógrados. Dessa forma, contribuem para o envenenamento do ambiente social brasileiro, pois não se abrem ao debate verdadeiramente necessário sobre para onde queremos ir e por qual caminho.

sábado, 10 de maio de 2014

Quem nos protegerá dos nossos protetores?

A frase acima aparece na fala de uma personagem do livro de Dan Brown intitulado Fortaleza Digital. Um pouco antes de morrer tal personagem lança esse petardo contra o seu algoz.Tudo porquê este justifica seus atos criminosos afirmando que os mesmos foram executados para proteger o povo. A lembrança me veio à mente ao ler diversas matérias publicadas pela mídia corporativa do nosso país sobre o processo eleitoral deste ano, bem como sobre a situação dos presos do denominado "mensalão". Qual o motivo dessa lembrança?

As famílias que controlam os principais grupos de comunicação do Brasil vêm sistematicamente atuando à margem da lei para fazer valer os seus próprios interesses e de poderosos grupos empresariais do Brasil e do exterior que querem levar o PSDB e seus aliados novamente ao comando do governo federal, particularmente o setor financeiro. Os sistemáticos ataques a fim de não permitir que José Dirceu cumpra o regime semi-aberto é um desses atos criminosos. Câmeras escondidas, pressões sobre o Supremo Tribunal Federal, que candidamente se submete, notícias falsas, perseguições, acusações infundadas, denúncias sem qualquer prova - lembram da suposta escuta telefônica no gabinete do ministro Gilmar Mendes que, aliás, nunca foi encontrado -, sonegação do direito de resposta etc., ocorrem todos os dias em todos os (tele)jornais, revistas, sites e outros meios.

Essa imprensa se coloca como a porta-voz de uma nunca bem definida "opinião pública". Dessa forma, se apresenta como a mais fiel defensora das liberdades democráticas e do Estado de Direito, mesmo violentando-os cotidianamente. Essa mesma imprensa que censura os segmentos sociais  que se colocam contra o capitalismo e suas mazelas, que chantageia para auferir vantagens econômicas, que promove violenta perseguição contra lideranças populares e suas organizações, criminalizando-as, ela mesmo se auto-proclama porta-voz da "opinião pública" e defensora da sociedade. Qualquer semelhança com os discursos proferidos durante a ditadura militar não é mera coincidência. Diante disso, a pergunta se impõe: Quem nos protegerá desses nossos protetores?

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

VIVEMOS UM DEJÀ VU?
Guilherme Carvalho*

É muito comum vivermos certas situações que parecem repetir algo que já havíamos experimentado. Essas ocorrências são denominadas dejà vu, um termo da língua francesa que significa já visto. Ocorre, porém, que essa sensação de já ter vivido um determinado evento parece não se restringir ao campo estritamente pessoal, mas se estende à nossa vida em sociedade. Daí alguns identificarem a história humana como um ciclo em seu movimento de auge e de queda, ou ainda como um círculo que nos faria prisioneiros de um eterno retorno. Consideramos ambas perspectivas limitadas para compreendermos a complexidade do real. Todavia, é forçoso reconhecer que alguns fatos persistem de tal maneira ao longo do tempo que parecem se constituir numa reprodução infinita do mesmo.
O assalto ao poder pelos militares brasileiros em 1964 foi justificado por eles como uma medida necessária para livrar o país da ameaça comunista. Para isso contou com a colaboração de grandes grupos públicos e privados de comunicação, de parcelas majoritárias do judiciário, do empresariado e do parlamento, de vários segmentos da sociedade civil nacional, bem como do apoio logístico e de informações dos Estados Unidos.
Presidentes militares
Além da ameaça comunista os militares buscaram incutir na população a ideia de que somente eles seriam capazes de garantir as condições necessárias para fazer o país progredir. O discurso do progresso foi, portanto, uma importante ferramenta ideológica para atrair o apoio da população às ações repressivas desencadeadas pelo bloco de poder que se apoderou do aparelho do Estado contra os opositores do regime, às restrições à liberdade e aos planos macroeconômicos.
Em nome desse suposto progresso a Amazônia foi definitivamente escancarada aos conglomerados econômicos nacional e internacional através da abertura de grandes rodovias como a Transamazônica, concessão de fartos subsídios para a instalação dos mesmos na região, criação de facilidades que garantiram o monopólio de vastas extensões do território amazônico aos setores que compunham o bloco de poder capitaneado pelos militares etc. O Estado brasileiro foi fundamental para o bom êxito dessa estratégia de ocupação e de controle territorial. Todavia, as consequências disso tudo não foram pequenas e repercutem ainda hoje:
Que lições podem ser extraídas da política regional de ocupação do território? O privilégio a ser atribuído aos grandes grupos e a violência da implantação acelerada da malha tecno-política, que tratou o espaço como isótropo e homogêneo, com profundo desrespeito pelas diferenças sociais e ecológicas, teve efeitos extremamente perversos nas áreas onde foi implantada, destruindo, inclusive, gêneros de vida e saberes locais historicamente construídos. Essas são lições a aprender como não planejar uma região. (BECKER, 2005, p. 26)
Eis que entramos no túnel do tempo e surgimos em pleno governo de Dilma Roussef. Dois meses antes da realização da Conferência Rio+20 a presidente da República reuniu-se com organizações da sociedade civil integrantes do Fórum do Clima, no Palácio do Planalto. Em resposta às críticas suscitadas pelo fórum em relação à política do governo federal de construir novas hidrelétricas na Amazônia, a presidente foi enfática: o governo não mudará sua estratégia de aumentar a oferta de energia utilizando o máximo possível o potencial dos rios amazônicos. A presidente foi além. Disse aos ambientalistas que “o mundo real não trata de tema ‘absurdamente etéreo ou fantasioso’”. Afirmou ainda que ninguém “numa conferência dessas também aceita, me desculpem, discutir a fantasia. Ela não tem espaço para a fantasia. Não estou falando da utopia, essa pode ter, estou falando de fantasia” (BNDES DÁ NOVO CRÉDITO..., 2012, não paginado). Para finalizar, assegurou que trabalharia pelo desenvolvimento sustentável, para tirar as pessoas da pobreza e tentar compatibilizar progresso e respeito ao meio ambiente.
Hidrelétricas na Amazônia
Também o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, recorre reiteradamente à defesa do progresso e do desenvolvimento da Amazônia para rebater as críticas de diferentes segmentos sociais do Brasil e do exterior preocupados com os impactos do erguimento de dezenas de barragens previstas para a região até 2050. A defesa do progresso, portanto, tem servido de anteparo a qualquer questionamento à intenção do Estado brasileiro e, evidentemente, de grandes conglomerados econômicos nacionais e internacionais de tornar a Amazônia a província energética brasileira, sem que se saiba ao certo as consequências dessa iniciativa não somente para a região, mas para o clima de todo o planeta.

Na coletânea de poemas intitulada Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, há uma linda referência sobre a liberdade, onde afirma ser esta um sonho humano que ninguém consegue explicar, mas que não há quem não entenda (MEIRELES, 2005). O que aconteceria se substituíssemos a palavra liberdade por progresso? Quem em sã consciência não almeja progredir? Quem não entende o que ela significa? Todavia, o que ela significa?
Progresso é uma daquelas palavras que se encontra estreitamente vinculada à “credibilidade ou ao poder de quem a pronuncia” (DUPAS, 2006, p. 17). Afinal de contas, quem determina o “rumo” do progresso? Dupas recorre à fala do “gnomo irascível Humpty Dumpty”, presente em Alice no país das maravilhas, escrita por Charles Lutwidge Dodgson e publicada em 1865, para refletir sobre essa questão:
Quando utilizo uma palavra, ela significa precisamente aquilo que eu quero que ela signifique. Nada mais, nada menos’. Alice contesta que ‘o problema está em saber se é possível fazer que uma palavra signifique montes de coisas diferentes’. Ao que Humpty Dumpty replica ativamente: ‘O problema está em saber quem é que manda. Ponto final’ (LALANDE apud DUPAS, 2006, p. 17, grifo do autor).
Parlamentares, mídia, pessoas comuns e mesmo o judiciário também utilizam o progresso como uma espécie de vacina que imuniza as hidrelétricas e qualquer outro grande empreendimento, publico ou privado, de contestações de todo tipo; na grande maioria das vezes independentemente da justeza e/ou embasamento dos questionamentos. Que o digam os pesquisadores que integraram o Painel Independente de Especialistas, cujas conclusões chocaram-se frontalmente com diversas afirmações do Estudo de Impacto Ambiental apresentado pelas empresas interessadas na construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu.
O fato é que o progresso se tornou parte constitutiva do discurso do poder. Assim foi durante a ditadura militar no Brasil, nos governos Juscelino Kubitschek, Eurico Gaspar Dutra e Getúlio Vargas; nos primórdios da República com o lema Ordem e Progresso incrustado na bandeira nacional e mesmo durante o Império. Da mesma forma, a palavra progresso foi utilizada pelas diferentes coalizões de poder que estiveram à frente do Estado brasileiro após a redemocratização do país para afirmarem-se diante da população e delas conquistar o reconhecimento e apoio.
É a partir da noção de progresso que a Amazônia tem sido refletida pelas coalizões de poder que estiveram à frente do Estado brasileiro até o presente momento, assim como fundamenta a implementação do atual modelo hegemônico de desenvolvimento, cuja característica é basear-se na exploração intensiva dos recursos naturais aqui existentes. O progresso, então, assume o papel de servir como um ponto de inflexão, de separação entre o antes e o depois, entre retrocesso e avanço, entre passado e futuro. Exemplo: a Amazônia é atrasada daí ser necessário levar o progresso a ela para que a mesma seja definitivamente integrada ao restante do território nacional, através do estímulo ao deslocamento de empreendedores para o seu território, assim como do capital necessário para desenvolvê-la. Tal visão pode ser encontrada como fundamento das políticas dos governos Vargas, Médici e, mesmo, de Dilma Roussef, entre outros.
Que progresso?
Fica evidente que progresso também guarda um sentido civilizatório. É como se o mesmo fosse um ato de redenção de povos primitivos, ou de sociedades atrasadas. Para que tal perspectiva se imponha é necessário que seja estabelecida alguma referência do que se considera “estágio avançado”. Por muito tempo essa referência foi a Europa, agora, a designação genérica são os países “desenvolvidos”. À Amazônia resta espelhar-se na dinâmica econômica do centro-sul do Brasil ou de outros países e tentar, quem sabe, rumar em direção a elas, tal como preconizado por Rostow (1978) e sua ideia do desenvolvimento em etapas. Apesar de ficar cada vez mais evidente que não há lugar para todos no banquete do progresso, como bem demonstrado por Chang (2004). O progresso é utilizado para justificar o discurso hegemônico da acumulação. Todavia, a promessa de um futuro próspero se vê permanentemente confrontada com a situação precária de parcelas significativas da população.
Vivemos um dejà vu? Hoje como ontem o Estado brasileiro se apresenta como o grande impulsionador da apropriação privada de grandes extensões do território amazônico e de seus recursos, em detrimento dos interesses e dos modos de vida de povos indígenas e populações tradicionais – ribeirinhos, extrativistas, agricultores familiares e outros. Também utiliza o forte aparato repressivo para coagir, impedir e criminalizar movimentos sociais e ONGs que se opõem a este modelo de desenvolvimento intensivo no uso da terra, água e outros componentes da natureza e, acima de tudo, disseminador de conflitos e gerador de crescentes desigualdades socioambientais. Como antes se tenta passar a ideia de que o mercado – suas instituições e suas regras – serão capazes de fazer com que a Amazônia se desenvolva, retirando milhões de amazônidas da pobreza. Cinquenta anos depois da instalação da mais brutal ditadura no Brasil a reprodução do mesmo parece não ter fim.

Bibliografia
BECKER, Bertha. Amazônia: nova geografia, nova política regional e nova escala de ação. In. Amazônia Sustentável: Desenvolvimento sustentável entre políticas públicas, estratégias inovadoras e experiências locais / Martin Coy e Gerd Kohlhepp (coord.). – Rio de Janeiro : Garamond ; Tübinger, Alemanha : Geographischen Instituts der Universität Tübingen, 2005. p. 23-44.
BNDES dá novo crédito de R$ 2,5 bi a Jirau. O Estado de São Paulo, 28 set. 2012. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,bndes-da--novo-credito-de-r-25-bi-a-jirau, 937061,0.htm>. Acesso em: 13 out. 2012.
CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada: a estratégia de desenvolvimento em perspectiva histórica. Tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo. São Paulo: UNESP, 2004.
DUPAS, Gilberto. O mito do progresso, ou progresso como ideologia. São Paulo: UNESP, 2006.
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
ROSTOW, W. W. Etapas do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1978.




* Doutor em Ciência do Desenvolvimento Socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará – NAEA/UFPA e coordenador da ONG FASE Programa Amazônia.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O PT merece nossa solidariedade?

José Genoíno
O Genoíno merece. O PT, não! Grande parte da situação vivenciada atualmente pelo partido é culpa dele próprio. Ao longo desses 10 anos no comando do governo federal o partido não enfrentou problemas cruciais para a afirmação da democracia no Brasil. A reforma política, tão importante para estruturação da vida partidária no país, para combater o controle abusivo das grandes corporações econômicas sobre o processo eleitoral por conta do financiamento privado das campanhas através da formação de Caixa 2 não mereceu atenção devida. O debate somente ganhou impulso quando a agremiação se viu acuada pelas ondas de protestos de junho deste ano. Ao que parece, porém, o ânimo inicial está definhando.

A democratização dos meios de comunicação foi outra bandeira de luta histórica da esquerda brasileira que foi guardada num canto qualquer do guarda-roupa. Diferentemente da Argentina que enfrentou o principal grupo privado de comunicação do país, o Clarin, aprovando leis que regulamentam o setor a fim de evitar o monopólio da informação e a formação de cartéis, o Brasil optou pela "convivência pacífica" como se isso fosse possível. A direita nunca gostou, não gosta e nunca gostará do PT. Entretanto, o partido parece pensar o contrário. O atual ministro das Comunicações é simplesmente medíocre, parecendo mais interessado em consolidar uma forte base eleitoral para garantir voos mais altos para si e sua esposa. E antes que alguns militantes digam que não seria possível entrar em choque com as corporações midiáticas lembro que a Inglaterra acabou de aprovar regras mais duras contra os abusos dos meios de comunicação. A omissão do PT tem se revertido contra ele próprio. Sejamos francos: O grande partido de oposição no Brasil são as poucas famílias que controlam a informação no nosso país (Frias, Mesquita, Marinho, Barbalho, Calderaro, Sirotsky e outros). O que seria do PSDB ou do DEM sem elas? São elas que realizam verdadeira guerra de movimento (nem é guerra de posição) contra o governo Dilma e antes com o de Lula. São elas que criminalizam os movimentos sociais todos os dias, que pautam a agenda política do país, que chantageiam o Judiciário, que realizam intensa campanha contra o Legislativo, promovendo a despolitização ampla da sociedade brasileira.

O PT também vem abandonando ao longo dos anos outras bandeiras históricas da esquerda, como a reforma agrária. A política macroeconômica privilegia fundamentalmente o agronegócio e a exportação de commodities. Aqui no Pará, a expansão do monocultivo do dendê é exemplar: Petrobras, Vale e outras grandes empresas se assenhoram de grandes extensões de terras, inclusive de agricultores(as) familiares, têm facilidades para regularizar essas terras enquanto ribeirinhos, quilombolas e trabalhadores rurais enfrentam diversos obstáculos para fazer o mesmo. O INCRA é um órgão moribundo. Os Territórios da Cidadania, outra iniciativa interessantíssima, foram relegados ao segundo plano pela maioria dos ministérios, com a honrosa exceção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) que com dificuldades ainda tenta executar algumas ações. Outros programas como o de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) não conseguem ser acessados pela grande maioria dos(as) agricultores(as) familiares.

Monocultivo do dendê: alternativa para a agricultura familiar?
O modelo de desenvolvimento petista reforça o papel do Brasil enquanto exportador de commodities e favorece às grandes corporações o acesso, uso e controle sobre vastas extensões do território e dos recursos naturais neles contidos. Não é isso o que ocorre na Amazônia? É um modelo baseado na exploração intensiva desses recursos. Atentemos para o que nos diz Lúcio Flávio Pinto quanto à redução do tempo de exploração das minas de Carajás. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é o parâmetro que orienta a ação governamental, mesmo que a qualidade desse desenvolvimento seja questionável. Muitos intelectuais e lideranças de movimentos sociais dos demais países sul-americanos definem tal modelo de neoextrativista. O argumento para justificar o modelo neoextrativista soa como uma chantagem: Ou se explora os recursos ao limite para que o Estado possa executar políticas sociais, ou a maioria da população está condenada a viver na miséria. A questão fundamental é que a médio e longo prazos os problemas estruturais provocados por essa estratégia se voltará contra ela própria.

Os movimentos sociais que questionam o neoextrativismo petista vêm sendo sistematicamente criminalizados. Lideranças são presas e processadas, espionadas, reprimidas... A Força Nacional se transformou no braço armado do Estado brasileiro para garantir a qualquer custo a execução dos grandes projetos de infraestrutura na Amazônia. No caso de Belo Monte, o aparato repressivo se transformou numa espécie de segurança privada do consórcio que tenta construir a barragem. Quanto aos Munduruku, estes têm seus territórios invadidos, são impedidos de circular livremente e sofrem verdadeira perseguição - o prefeito de Jacareacanga, que é do PT, é um dos maiores inimigos dos indígenas que se levantam contra a iniciativa do governo federal de construir diversas barragens no rio Tapajós. Esses são alguns dos motivos pelos quais crescente número de movimentos sociais deixaram de fazer parte da base social petista.

Alguns podem contestar os argumentos acima citando os milhões de brasileiros que saíram da pobreza extrema nos últimos anos: A famosa cidadania pelo consumo. Mesmo ela tem bases frágeis, mas isso é assunto para outro texto.

Aos/Às que contestam esta reflexão que o façam sem o subterfúgio das agressões anônimas.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Cabral e Beltrame abriram as portas do inferno.

Em 1880, Auguste Rodin recebeu a encomenda
de uma porta, esta porta deveria extrair seus
temas da Divina Comédia de Dante Alighieri.
O governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral (PMDB) e o secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame abriram as portas do inferno, mas onde estão as chaves para fechá-las? Explico. Ao refutarem toda e qualquer crítica aos abusos cometidos pela polícia carioca, em particular pelo Batalhão de Operações Especiais (BOPE), eles dois acabaram dando carta branca os trogloditas da corporação para "arrepiar geral". Isto é, liberaram os policiais para infringirem as leis do país e do estado do RJ, atentar contra os direitos humanos e as liberdades democráticas. O que sempre foi usual nos morros e periferias agora se expandiu para áreas nobres da capital, bem como para diversos municípios do interior. No enfrentamento às manifestações a corporação utiliza armas letais, forja provas contra ativistas, censura, intimida, ameaça, reprime, empurra, chuta, grita, espanca, mata e algumas vítimas simplesmente "desaparecem". Enfim, "toca o terror". Ontem, bastou o papa Francisco e demais autoridades se retirarem do Palácio das Laranjeiras, sede do governo estadual, onde ocorreu a recepção oficial ao Sumo Pontífice, tudo voltou a ser igual ao que tem ocorrido nos últimos tempos: prisões arbitrárias, ativistas feridos a bala, provas forjadas, censura etc. 

A Polícia Militar é, sem dúvida alguma, uma instituição profundamente influenciada pelo ideário da ditadura que se instalou no país com o golpe de 1964. Ela é considerada uma força auxiliar e reserva do Exército brasileiro, daí não ser esdrúxulo o fato de os/as ativistas sociais/contestadores(as) serem encarados(as) como potenciais inimigos, e como tal combatidos(as). Não é isso o que está ocorrendo neste momento nas ruas do Rio de Janeiro ou antes em São Paulo e nos demais estados quando das mobilizações massivas de junho último? Todavia, tal vertente autoritária encontra-se no seu próprio cerne. É bom lembrarmos que a Polícia Militar do RJ teve como um de seus comandantes o próprio Duque de Caxias, em 1832, quando a instituição era denominada Corpo de Guardas Municipais Permanentes. Aliás, esse foi o primeiro comando militar de Caxias - cujo título se deveu ao enfrentamento aos revoltosos do Maranhão (Balaiada). Este se notabilizou por combater diversos movimentos insurgentes no país durante o império (Revolução Farroupilha, revoltas liberais em São Paulo e Minas Gerais) e teve papel destacado na Guerra do Paraguai, cujas estratégias de ação foram e ainda são muito questionadas pelos(as) paraguaios(as). Também liderou as forças brasileiras na Campanha Cisplatina.
"Dança Macabra" de Hans Holbein, 1491.

Pois bem, Cabral e Beltrame em sua sanha de controlar as mobilizações nas ruas ampliaram a insegurança e colocaram a nu a incapacidade dos dois de controlar seus subordinados. Abriram as portas do inferno e não têm como fechá-la, pois a PM mostrou mais uma vez sua condição de força de repressão, cujas regras internas nem sempre dialogam com os preceitos legais ou se preocupam com hierarquia. O fato é que os dois se encontram numa delicada encruzilhada. De um lado, recuar significará o reconhecimento público de sua incompetência no tratamento dos conflitos sociais. De outro, Sergio Cabral, com a preciosa ajuda da mídia corporativa, de grandes grupos empresariais e de integrantes do legislativo e judiciário, precisa tirar o foco da sociedade sobre as atividades, digamos, nada convencionais, praticadas por ele próprio e por outros integrantes de seu governo. Esse "malabarismo" parece ter atingido um limite, pois parece cada vez mais evidente que as manifestações não cessarão tão cedo por mais que Cabral e Beltrame mobilizem todas as forças do inferno liberadas por eles.




sábado, 22 de junho de 2013

Aos meus amigos conservadores...

As mobilizações que ocorrem no momento em todo o Brasil estão promovendo profundas reflexões de diferentes tipos por parte dos partidos e das elites políticas, por parte dos movimentos sociais, por parte dos governos e mesmo do judiciário, entre tantos outros. A incertezas quanto ao que acontecerá daqui por diante não é uma coisa ruim, como apregoam determinadas análises. Como diria Ilya Prigogine, o caos não é apenas desordem, mas é também construtor de novas ordens numa cadeia infinita. Estamos vivenciando uma bifurcação histórica? Ao menos para determinadas forças políticas essa parece ser uma dura realidade.

O que tem chamado a minha atenção nos últimos dias é o encarniçado ativismo político por parte de conhecidos meus pela internet. De um modo geral, compartilho com eles da esperança de que ocorram mudanças substanciais no país, que não se restringem tão somente a aspectos econômicos, pois, como diriam os Titãs, "a gente não quer só comida". Contudo, chama atenção o caráter conservador e às vezes despolitizados de muitas das críticas apresentadas. De um lado, o discurso contra a política, os partidos e os movimentos sociais - como se o povo brasileiro somente agora se mobilizasse - se tornou uma palavra de ordem que, ingenuamente, acreditam ser "a salvação do país". De outro, um misto de raiva e indignação são canalizadas tão somente em direção ao governo federal. E as grandes empresas e poderosas instituições financeiras (do Brasil e do exterior) que financiam quase a totalidade dos partidos políticos? Estas não têm qualquer parcela de culpa pelo que ocorre no Brasil? E a concentração da renda? Particularmente não vi um mísero cartaz propondo a taxação das grandes fortunas, por exemplo. Essa questão não foi incorporada pelo Arnaldo Jabor na pauta que ele apresentou aos manifestantes. Por que?

Governador Simão Jatene (PSDB)
Saí do PT e dele me tornei um dos seus críticos por conta da sua acomodação à ordem estabelecida. Todavia, não posso compactuar com as análises que depositam nele toda a culpa pelo estado a que chegou o nosso país. Aqui no meu estado, o Pará, o PSDB vai completar 16 anos de governo em 2014. Vários indicadores sociais do Pará encontram-se entre os piores do país, a educação está em frangalhos, os servidores públicos ganham mal; o governo estadual está mergulhado em falcatruas, corrupção, nepotismo. Aqui há um verdadeiro pacto pela impunidade envolvendo setores importantes do legislativo, do judiciário e da mídia. Somente em 2010, a Assembleia Legislativa do Estado gastou com combustível mais do que toda a frota de segurança pública. O judiciário não se move quando as ações envolvem gente graúda. É só ver a estapafúrdia e abjeta condenação do jornalista Lúcio Flávio Pinto que, ao defender o patrimônio público, foi perseguido implacavelmente. O PSDB e o "Democratas" elegeram o ex-prefeito Duciomar Costa (PTB) para a prefeitura de Belém. O mesmo que teve recentemente os seus direitos políticos cassados por malversação dos recursos públicos. Belém é a capital onde o sentimento de insegurança é avassalador. A rede de abastecimento de água em todo o Estado é uma vergonha, nem preciso falar algo sobre o saneamento básico, que em muitos lugares simplesmente não existe. Os tucanos e demos destruíram a capacidade de planejamento do Pará, gastam uma fortuna em propaganda que, coincidentemente, é gerida há anos pela empresa que faz a campanha eleitoral do PSDB e ninguém faz nada contra isso. Cerca de 30 bebês morreram nesses últimos dias na Santa Casa de Misericórdia. O Pará gera pouco empregos. Nossa economia está atrelada aos interesses das grandes mineradoras, do agronegócio e das madeireiras. Isto sem falar no Jader Barbalho e seu PMDB, cujo currículo é conhecido nacionalmente. Além do Jader, os dois outros senadores paraenses - Mario Couto e Flexa Ribeiro, ambos do PSDB - foram ou estão envolvidos em escândalos de desvio de dinheiro público. Poderia escrever páginas e mais paginas das mazelas que atingem a todos(as) nós paraenses. 
Senador Jader Barbalho (PMDB)

Apesar de tudo isso, meus amigos conservadores só falam na Dilma e no PT. Quanto ao descalabro que PMDB, PSDB, PTB e Demos promoveram nas contas públicas, nos milhões desviados, na destruição do serviço público, não falam nada, absolutamente nada. Não pedem o impeachment de Jatene, não falam da corrupção escancarada etc. É como se estes fossem vestais, verdadeiros patriotas e símbolo de bons governantes. Para os meus amigos conservadores tudo está uma maravilha no nosso estado.

Não, não posso concordar com isso. Se é pra cobrar, vamos cobrar de todo mundo. Vamos exigir nossos direitos diante de quem quer que seja. Ética pela metade não é ética. É hipocrisia e oportunismo.

* Recomendo aos meus amigos conservadores que visitem o Blog A Perereca da Vizinha. Leiam os artigos e vejam as provas cabais da corrupção desenfreada envolvendo a cúpula do governo estadual.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Globo: a notícia que vem do alto.

Absolutamente todos os jornalistas da Globo que falaram das manifestações que ocorrem neste momento em diversas capitais do país estavam posicionados em helicópteros, ou nos telhados de edifícios. O fato é que a Globo tem recebido sonoro repúdio dos que protestam. Sinais dos tempos...