sábado, 23 de abril de 2016

O PT e os erros não reconhecidos.

Primeiramente vamos limpar o meio de campo. Se você apóia o impeachment, mesmo sabendo que não foi configurado crime de responsabilidade contra a presidenta, sinto dizer-lhe: sim, você é golpista, por convicção ou por omissão. Há ainda a possibilidade de apoiar a destituição de Dilma Roussef por acreditar firmemente que determinado candidato ou candidata do seu agrado vai capitalizar o descontentamento da população e, quem sabe, se tornar o/a novo(a) mandatário(a) do país. Esta é, sem dúvida alguma, uma aposta perigosa, pois não há qualquer garantia de que a crise atual não resulte em um regime autoritário, não necessariamente uma ditadura militar. Aliás, de uns anos para cá temos vários exemplos de mobilizações sociais que não resultaram em regimes democráticos.

Em segundo lugar é preciso enfrentar alguns argumentos petistas. Grande parte da responsabilidade por tudo o que está acontecendo é sim do PT. Seu amoldamento às práticas patrimonialistas das elites políticas, suas alianças eleitorais - algumas espúrias - contribuiu para que hoje o Brasil tenha se tornado refém de uma quadrilha; além disso, não promoveu as reformas estruturais que o Brasil tanto necessita: não fez a reforma agrária, não democratizou os meios de comunicação e a propriedade, não taxou as grandes fortunas e não realizou a reforma política. Esta poderia ter evitado muitos dos transtornos porque passa nosso país.

Nesta semana vi pela internet uma foto dos anos 1980 em que estavam alguns dos fundadores do PT, entre eles o grande Manoel da Conceição, líder camponês do Maranhão. Quando lembro das alianças que o PT fez com a família Sarney, talvez a mais antiga casta de "coronéis" ainda atuantes no país e que controla boa parte do aparelho do Estado e das riquezas daquele estado, inimiga declarada dos(as) trabalhadores(as); e, ao mesmo tempo, das medidas que lançaram ao limbo partidário Manoel da Conceição e tantos(as) outros(as) petistas que se batiam contra a estratégia do partido para alçar o poder, fico com a sensação de que o PT realmente mereceu tudo o que está passando.

Defender o país do golpe em andamento não é defender o governo Dilma. Somente os/as petistas e alguns dos seus aliados relacionam uma coisa e outra. Uma parte considerável dos movimentos sociais e das pessoas que bradam contra o impeachment não pensa dessa forma. Para estes o PT deve sim explicações ao país. Contudo, chama atenção o discurso vago petista "sim, erramos, precisamos reconhecer", mas que nunca deixa explícito que erros estão sendo realmente reconhecidos. Não, não podemos aceitar tal postura. O por quê? Porque toda a esquerda está sendo alvo da extrema direita. Esta não quer somente tirar o PT do poder. Pensar dessa forma é deixar de fora o substancial: os apologistas da ditadura e seus aliados querem mesmo é destruir todas as forças de esquerda e progressistas deste país. É disso que se trata.

Os/As que contestam a estratégia petista adotada até aqui têm claro que não adianta o PT ficar no poder para aplicar uma agenda conservadora, da direita. Daí que em meio as mobilizações procura construir sua própria agenda política, econômica e social. Tal objetivo vai ser um dos nossos principais desafios.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Pingos nos "is".


  • A ordem democrática foi sim violada com a prisão arbitrária de Lula. Não há como negar a existência de um verdadeiro complô envolvendo setores do Congresso Nacional, do Judiciário e do Ministério Público; da mídia corporativa e de grandes grupos empresariais do Brasil e do exterior para retirar o Partido dos Trabalhadores (PT) do comando do executivo. Contudo, essa mesma ordem já vinha sendo violada pelo próprio governo através do uso da Força Nacional sobre os munduruku para garantir a realização de pesquisas para os Estudos de Impacto Ambiental (EIA), peça que se constituiu num mero rito formal para viabilizar grandes empreendimentos públicos e privados na Amazônia; da militarização das favelas cariocas e dos despejos forçados para a execução de obras de infraestrutura vinculadas às Olimpíadas; do uso da Polícia Federal para expulsar indígenas de suas terras no Mato Grosso e em outros pontos do país, como na Bahia; da aprovação da lei antiterrorismo que se tornou uma arma contra os movimentos sociais; do destroçamento da legislação ambiental para viabilizar os interesses do grande capital; do privilegiamento do agronegócio e da indústria extrativa em detrimento dos modos de vida de povos ancestrais, entre tantas outras situações de violação da ordem democrática.
  • Lutar contra o golpe capitaneado pela Globo não significa em hipótese alguma defender o governo petista. Isto para os que se colocam numa perspectiva socialista, de mudanças estruturais no Brasil. Defender a democracia e suas instituições é um compromisso de todos e todas realmente engajados(as) na construção de um país melhor. Além disso, é fundamental para garantir um campo adequado ao desenvolvimento das lutas sociais anti-hegemônicas, contra as desigualdades, por justiça socioambiental e pela paz. Portanto, para nós, o que está em jogo é muito mais do que a manutenção de um governo.
  • Se por um lado o discurso do ódio contra o PT e as forças progressistas e de esquerda tem resultado em ataques verbais e físicos por parte de grupos extremistas; por outro, respinga também nos partidos de oposição, principalmente o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que não tem conseguido capitalizar plenamente os descontentamentos – espontâneo e produzido – da população brasileira. Tal situação abre um flanco enorme para a aventura política e a busca por “salvadores da pátria”, como o próprio juiz Sergio Moro ou o deputado Jair Bolsonaro, este do Partido Social Cristão (PSC).
  • Infelizmente para a Amazônia a continuidade ou não do governo Dilma Roussef não altera substancialmente o papel da região no processo de acumulação ampliada do capital. O aprofundamento da conexão da Amazônia aos mercados internacionais, a instalação de complexos sistemas logísticos para dar vazão à exploração de seus recursos naturais, a violação continuada dos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, a alteração de marcos legais para viabilizar a exploração e expropriação de territórios, a criminalização de movimentos sociais e de suas lideranças, a inviabilização financeira das organizações que se opõem ao modelo de desenvolvimento hegemônico e o combate político-ideológico a elas com base nos discursos do progresso e da ordem social, permanecerão como elementos estruturantes da ação do Estado e das corporações econômicas nacionais e transnacionais nesta parte do território brasileiro. O PT não romperá com essa lógica.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

As responsabilidades que não são nossas.

Sejamos sinceros: a oposição partidária de viés conservador não teria tamanho poder de influência no Brasil se não fosse a mídia corporativa. Tal oposição não tem base popular justamente porque não possui qualquer compromisso com a superação das históricas desigualdades que nos assolam. Por incrível que pareça o único partido que rumava para se tornar socialdemocrata era o PT, mas os caminhos seguidos por este podem não levá-lo nem a isso. As empresas de comunicação se constituíram no intelectual orgânico do fascismo made in Brasil. Elas pautam a agenda política nacional e definem as estratégias que serão adotadas em diferentes espaços de poder, particularmente no Congresso Nacional. Sem essa mídia PSDB, DEM, Solidariedade, PTB e outros estariam em maus lençóis. O PSDB, por exemplo, pode ser comparado a um quarto escuro com pessoas armadas de faca. Ninguém confia em ninguém e ao mais leve contato haverá ao menos um morto ou ferido.

A mídia corporativa se tornou uma máfia corporativa, cujos métodos para eliminar seus adversários matariam de inveja Al Capone. Ocorre que essa mesma mídia também se engalfinha e apresenta rachas internos por conta de distintos interesses comerciais, políticos e ideológicos em jogo. Exemplo disso é o conflito instalado entre a Globo e canais religiosos de diversas denominações (muitos pentecostais) pela audiência. Além disso, a internet tem contribuído ao crescente sangramento das TVs abertas, fazendo com que a troca de jabes, diretos e cruzados entre elas atinjam, inclusive, as partes sensíveis dos adversários.

O problema é que numa débil democracia como a nossa a ação da máfia corporativa contribui para aprofundar o definhamento das instituições e aumentar a descrença das pessoas na política. Aliás, a despolitização das política é parte constitutiva da estratégia de neoliberais e seus aliados para manterem-se no controle do Estado e avançarem sobre outros espaços de exercício do poder. Contudo, é preciso ressaltar também o papel desestruturante executado pelo PT para o sucesso desse empreendimento. Este levou a esquerda brasileira a uma situação muito difícil por conta da sua adesão voluntária às velhas e corruptas práticas para se manter no poder.

Enfrentamos os mesmos problemas estruturais da época em que se instalou a ditadura civil-militar no nosso país: não houve reforma agrária, não se distribuiu a riqueza, os meios de comunicação não foram democratizados e o poder continua concentrado, talvez como nunca antes na história do Brasil; e num planeta cada vez mais globalizado, onde o poder das transnacionais se tornou extremamente perigoso à nossa própria sobrevivência enquanto espécie. Estamos falando de 52 anos. Não é pouco. Quanto tempo até a retomada do vigor massivo da luta pela esquerda? Não é possível dizer. Mas a história é um livro em aberto...


domingo, 6 de dezembro de 2015

A luta é contra o golpe.

Não há meio termo. Não há muro. A tentativa de impeachment de Dilma Roussef é golpe. Não há outra definição para a estratégia que une as forças políticas mais conservadoras do país. Alguns, como FHC, já haviam jogado suas biografias no lixo. Na atualidade apenas atiram as últimas pás de terra sobre elas. É o golpe dos entreguistas, dos que se comprazem com uma nação subordinada aos interesses dos EUA, dos que não querem negros(as) nas universidades, dos que acreditam que lugar de pobre é quele onde os ricos não frequentam, dos oportunistas, dos fascistas, dos que odeiam o feminismo, dos que preferiam que os índios já tivessem desaparecido da face da terra, dos que querem voltar aos tempos da casa grande e da senzala, dos que só confiam no poder das armas (do militarismo), dos que detestam GLBTs, dos que se opõem aos direitos humanos.

Entretanto, é preciso dizer claramente que a forma como o PT vem exercendo o poder nos últimos anos, não somente através do executivo federal, colocou as lutas de resistência sob a perspectiva histórica da esquerda numa situação bastante delicada. A elite petista se tornou parte das elites dominantes do país. Sua estratégia de alianças acabou reforçando o modelo político vigente: corrupto, e plutocrata (onde o poder do dinheiro é que comanda o exercício do poder). O modelo de desenvolvimento adotado reforçou nossa dependência externa, posto que fundada na exploração e exportação intensiva de recursos naturais. Problemas estruturais não foram enfrentados pelos governos petistas: a concentração da terra, do exercício do poder político, dos meios de comunicação e da riqueza, As bases sob as quais a ditadura civil-militar se manteve no Brasil permanecem intactas 30 anos depois da "redemocratização" do país.

Apesar de tudo isso, apoiar mesmo que indiretamente a estratégia conservadora de impeachment é atentar contra a própria resistência popular que ora segue neste país, com percalços e algumas vitórias. Não tem jeito: é ir às ruas e barrar o golpe, pois é disso que se trata. Da nossa parte, não sairemos em defesa do governo, mas pela garantia de um "ambiente democrático" para continuarmos lutando. Isso é o que nos interessa. Contudo, não podemos perder a oportunidade para qualificarmos nossas plataformas e agendas de luta. Eis algo que precisamos dedicar especial atenção.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A tolerância com a intolerância gera mais intolerância.

Tempos difíceis. Jovens fazem loas à ditadura militar, acusam o governo federal de comunista e os defensores dos direitos humanos de fazerem o jogo dos bandidos. O motivo: uma questão da prova do ENEM que fazia referência ao livro O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, publicado em 1949, a fim de tratar do grave problema da violência contra a mulher no Brasil. Argumentos absurdos e estúpidos se materializaram em bites,tinta, desenhos, vídeos e áudios. Alguns pregaram raivosamente a desideologização da educação, outros denunciaram a ameaça à liberdade de pensamento. Os mais criativos, porém, alertaram para o complô em andamento no intuito de implantar no Brasil uma não explicada e enigmática ditadura bolivariana. Tais indivíduos se mostram ignorantes, no sentido pleno da palavra, a algo fundamental: o machismo mata! O machismo não é um recurso de retórica, um mal entendido entre homens e mulheres, tampouco uma "brincadeirinha". Machismo é uma forma de poder, de dominação, de controle de homens sobre as mulheres. E em muitos casos, infelizmente, se transforma em crime da pior espécie. Desconhecer isso é viver numa realidade paralela, a-histórica, sem nexo com a realidade.

Para combater as ações da bancada evangélica no Congresso Nacional que, aliada às "bancadas da bala e do boi", denominada de BBB, vêm aprovando um conjunto de leis retrógradas, que atentam contra os direitos das mulheres, dos praticantes das religiões de matriz africana, dos povos indígenas e populações tradicionais, entre outros, segmentos sociais considerados progressistas incorrem algumas vezes na mesma lógica de intolerância. Abundam na internet mensagens, artigos, piadas etc., identificando os evangélicos como o mal encarnado. Contudo, é um absurdo acreditar que Silas Malafaia, Edir Macedo, Marcos Feliciano, Evaldo Pereira e Valdemiro Santiago falem em nome de todos.

Em São Paulo o ódio ao PT faz com que ciclistas sejam chamados de comunistas por motoristas descontentes em perder espaços nas ruas; que a mídia corporativa, parte da população e o Ministério Público Estadual vociferem contra o fechamento da Avenida Paulista aos domingos para o lazer de muitas famílias, mas que se mantêm "comportadas" quanto ao fechamento de centenas de escolas públicas por parte do governo estadual, bem como que a administração municipal seja violentamente atacada por implementar dispositivos do Estatuto da Cidade para coibir a especulação imobiliária. Ou seja, algo que é fundamental para o bem-estar de toda a população é combatido por conta de uma visão distorcida e retrógrada da luta política.

Seria possível citarmos uma quantidade enorme de exemplos. Todavia, o que nos interessa tão somente é sublinhar o perigo que nos ronda neste momento. A disseminação de ideias e comportamentos intolerantes no cotidiano da sociedade, devidamente alimentada pelas frações dominantes para legitimar suas iniciativas e interesses particulares. O medo, essa arma poderosa, vem sendo utilizada com maestria para que tais fins sejam atingidos.

Sem a intenção de abarcar todas as possíveis características do pensamento e do agir intolerantes, apresentamos abaixo o passo a passo do "intolerante  fashion", bem sucedido. Ou, os dez mandamentos dos BBBs:
  1. Identifique precisamente o segmento social a ser considerado inimigo: negros(as), indígenas, petistas, comunistas, evangélicos, umbandistas, mulheres, homossexuais ou outros.
  2. Identifique esses segmentos com os males que atingem a todos.
  3. Ressalte seus pontos negativos, mesmo que tenham que ser forjados e martele-os diuturnamente, principalmente pelos meios de comunicação de massa.
  4. Reconstrua o passado e torne o presente como algo excepcional. Exemplo: "nunca houve tanta corrupção como agora".
  5. Apresente-se como a única solução possível.
  6. Generalize, generalize sempre. Não apresente nada muito concreto. A superficialidade é essencial para construir um discurso que atinja a todos. Cada um deve pensar que você está falando diretamente a ele/ela.
  7. De vez em quando lance as mais loucas ideias ou faça o discurso mais agressivo. As palavras e a tonalidade com que são expressas rendem bons dividendos.
  8. Faça o uso intensivo de estatísticas. Números, mesmo quando falseados, passam a ideia de domínio, de segurança.
  9. Mostrar-se como uma pessoa religiosa, defensora dos bons costumes e da família, ou mesmo da pátria, ajuda bastante.
  10. Diga aos quatro ventos que você odeia a política, os políticos, o sistema e o governo. Isso é tiro e queda. A despolitização da política é o combustível de todos os mandamentos anteriores.
Por fim, segue uma poesia que fiz num momento de pessimismo da razão, mas de otimismo na vontade. Como assinalou certa vez Gramsci. Os/As intolerantes que me perdoem...



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Fico pensando...

Defendo o ponto de vista de que uma das grandes diferenças históricas entre a estratégia petista para alçar essa parcela de poder que é o executivo federal e as anteriores realizadas por partidos ou forças políticas de esquerda é que na primeira, além de ter conseguido "chegar lá", reside o fato de que o PT, seus dirigentes e grupos que controlam efetivamente o partido, passaram a se constituir em parte das elites dominantes no país. Nas experiências anteriores da esquerda, imersas na ideia de apoio a uma burguesia nacional não-imperialista, de luta contra um modelo feudal ou na convicção de que o país deveria passar por um "choque" capitalista, as forças de esquerda sempre estiveram a reboque, caudatárias mesmo, de poderosos grupos políticos e econômicos do Brasil e do exterior.

Com o PT a situação é diferente. Recomendo o leitura do livro escrito pelo uruguaio Raul Zibeck, intitulado Brasil Potência. Nele está registrado de modo muito interessante como o PT se preparou para chegar ao poder. O papel dos fundos de pensão na modernização do capitalismo brasileiro e o controle sobre eles exercido pelo partido, as mudanças ocorridas no mundo sindical, particularmente daquele segmento próximo ao PT, o controle da máquina governamental e por aí vai. Paulatinamente, ao longo dos anos, a elite petista, não dá pra estender isso ao conjunto da militância, passou a se constituir em parte orgânica da elite dirigente do país, as "classes dominantes". Essa é a diferença com processos pretéritos. Daí o porquê hoje é muito difícil contar com o apoio do partido às lutas contra o modelo neoextrativista de desenvolvimento, ou à expansão desenfreada de grandes projetos de infraestrutura na Amazônia. Dai ser cada vez mais difícil afirmar que ainda estamos do mesmo lado.

Entretanto, por mais contraditório que possa parecer, não é possível afirmar também que PT e PSDB são a mesma coisa. Não são. Há diferenças substanciais que precisam ser reconhecidas sob o risco de ignorarmos a complexidade do real. Por exemplo: O que seria do governo Morales (Bolívia) durante a retomada do controle do setor petroleiro num governo Aécio Neves? Ou as relações do nosso país com a Venezuela? Ou ainda com os Estados Unidos no que diz respeito à "guerra contra o terrorismo"? Na dimensão interna, o que seria da política de cotas? Haveria política de cotas? Em princípio isso pode parecer apenas penduricalhos diante da aplicação da ortodoxia macroeconômica, mas são mesmo questões insignificantes?

Por outro lado, há também confusão no que diz respeito ao nosso posicionamento em relação às tentativas da oposição de provocar o impeachment de Dilma Roussef. A defesa da democracia e de suas instituições - incluídas as nossas instituições como sindicatos, associações, fóruns, ONGs etc. - não é a defesa do governo. Ao nos posicionarmos contra o golpe desencadeado por forças conservadoras xenófobas, racistas e fascistas não estamos nos posicionando a favor do PT e seu bloco de poder, pois o que está em jogo não é o mandato presidencial, mas, fundamentalmente, o "ambiente" sob o qual queremos desenvolver as nossas lutas de resistência. Particularmente estou anos-luz de distância da concepção de que as crises levam necessariamente a uma situação melhor, em que o "povo assume as rédeas de seu destino". Os processos ocorridos no Egito e em outros países que passaram por intensas mobilizações a partir de 2010 no mínimo levantam dúvidas sobre tal ponto de vista. Isto ocorre justamente porque a "história é um livro em aberto". Ou seja, nada está dado de antemão. Podemos tanto avançar para uma situação qualitativamente melhor, como podemos regredir a uma situação de barbárie.

Então, temos que abrir mão das mobilizações e das iniciativas de reconstruir um bloco de esquerda no Brasil? Não! O PT e alguns de seus aliados não se colocam mais na perspectiva de destruir o capitalismo. Nessa questão fundamental já não comungamos das mesmas perspectivas. Contudo, se for preciso ir às ruas para lutar contra o impeachment lá estarei porque, como disse, o que está em jogo é muito mais que um mandato.

Fico imaginando cá com os meus botões o que teria acontecido se os comunistas e os sociais-democratas tivessem se unido contra os nazistas a partir do final da década de 1920. Não tem relação direta com o que foi escrito acima. Só fico pensando... Será?