segunda-feira, 10 de junho de 2024

Os/As extremistas estão chegando. Estão chegando os/as extremistas.

 E eis que a extrema-direita saiu fortalecida na eleição ocorrida neste último final de semana ao parlamento europeu, particularmente em países como Alemanha, França e Itália. Os discursos de ódio, antimigração e contra as instituições democráticas ganharão mais espaço ainda nas agendas político-ideológicas. Evidentemente, tais resultados tendem a repercutir para além das fronteiras europeias. Caso Trump não seja impedido legalmente de concorrer às eleições estadunidenses e as vença, o quadro favorável ao extremismo se acentua ainda mais. Uma das questões que se coloca no momento é: esses resultados eleitorais são somente uma "nova" onda conservadora, ou na realidade se trata de uma tendência em escala global?

No Brasil, creio eu, não compreendemos nos devidos termos todo o significado do que foi o governo Jair Bolsonaro. Com este, os grupos sociais extremistas ganharam voz e visibilidade. O que temos hoje são movimentos sociais com grande capacidade de mobilização, capazes de interferir e pautar a agenda política nacional e que vêm crescendo em todos os cantos do país, mesmo que não uniformemente. Um projeto que articula poderes econômico e político (controle de territórios e dos recursos neles disponíveis, destruição de garantias constitucionais, fragilização das legislações socioambientais, expansão do agronegócio, padronização socioprodutiva e das paisagens etc.), fé e religião (defesa da submissão a autoridade dos/das pastores(as) e projeto de poder fundado na teologia do domínio), comunicação de massa, contínuo avanço sobre o aparelho de Estado (representação parlamentar e controle sobre órgãos de segurança pública, por exemplo), a relativização da verdade (a verdade virou mera opinião distribuída fartamente pelas redes sociais confrontando, inclusive, aquelas demonstradas cientificamente, vide o caso dos segmentos antivacina, e onde a mentira é tão somente a ponta do iceberg desse processo mais profundo); adoção de medidas para avançar o controle dos homens sobre o corpo, a mente e o trabalho da mulher, tornando-as políticas governamentais; racismo, xenofobia e homofobia.

Chega a ser risível as análises de que não podemos contribuir para o acirramento das disputas político-ideológicas no país. A extrema-direita e seus aliados fazem isto diuturnamente, pois tomaram para si a iniciativa de enfrentar e derrotar a esquerda e os setores progressistas do país. Num cenário como esse há quem pense no nosso campo que o zero a zero é um ótimo resultado. Afinal, de acordo com esse "ponto de vista", o gol é um mero detalhe.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Um Barbalho, dois Barbalhos, três Barbalhos...

Circula pelos meios políticos a informação de que Helder Barbalho (PMDB) possui 82% de aprovação somente na capital paraense. Mesmo que o índice não chegue a tanto é notório a ampla base de apoio político e popular alcançado por ele não somente aqui, mas em todo o estado. Tal situação é fruto de um conjunto de fatores, tais como execução de diversas e vistosas obras públicas, eficiente e profissional estratégia de marketing/propaganda, a incorporação à estrutura de governo de caciques das mesorregiões Oeste e Sul/Sudeste do Pará na tentativa de controlar os descontentamentos das elites locais e com isso arrefecer o ímpeto separatista das mesmas, além da construção de amplo leque de alianças políticas que agregam desde segmentos neopentecostais bolsonaristas até parcela de setores progressistas, como o Partido dos Trabalhadores (PT). É também digno de nota o choque de imagem que Helder promoveu ao longo dos últimos anos, desde que foi prefeito do município de Ananindeua, integrante da Região Metropolitana de Belém, revertendo em grande medida a antipatia e ojeriza que parte significativa da população paraense nutria contra as famílias Barbalho e Zaluth, esta última a vertente da mãe do governador.


A habilidade demonstrada para articular apoios partidários, bem como parcerias com organizações da sociedade civil não encontra paralelo em outros governos. Ao menos desde a retomada das eleições para governador em 1982. Talvez a referência mais próxima seja justamente com o primeiro governo do pai dele e atual senador, Jader Barbalho. O clamor popular pelo fim da ditadura e a possibilidade concreta de infligir derrota eleitoral contra os militares e sua base civil/empresarial fez com que diversos setores da esquerda à época se somassem à campanha e depois ao governo de Jader. Foram os casos, por exemplo, de parcela do então Partido Revolucionário Comunista (PRC) - parte abrigada no MDB e outra no PT -, MR-8, PCB e PC do B. De lá para cá nenhum outro mandatário havia conseguido tal feito. Helder, sim. Seu governo é uma colcha de retalhos de siglas partidárias. O que lhe garante céu de brigadeiro não somente no parlamento. O Tribunal de Contas do Estado (TCE) que o diga.

O "novo" modelito barbalhiano inclui também a recauchutagem no discurso político-ideológico. Profundamente comprometido com as alternativas de mercado às crises climática e ambiental, Helder abraçou a economia verde como elemento estruturante da sua estratégia, inclusive para alçar voos mais longos. Com isso, cacifou-se diante de diferentes setores da comunidade internacional - ONGs, governos e grupos empresariais -, trouxe para sua base segmentos dos movimentos sociais e tornou-se o principal interlocutor do governo Lula na Amazônia. Com Helder Barbalho a bioeconomia passou a ser um mantra, que a tudo justifica e promove.


Entretanto, o lado B helderiano comporta sólidos compromissos com o agronegócio (soja e dendê, em especial), mineração, madeireiros, empresas dos setores logístico e de cosméticos e, como não podia deixar de ser, com consultores, certificadores e investidores do mercado financeiro vinculados à economia verde. Por trás disso tudo, a implementação de diferentes iniciativas para garantir acesso aos territórios de povos indígenas e de comunidades tradicionais, além de áreas de conservação ambiental, à exploração empresarial nacional e transnacional. O mercado de carbono, com estímulo à assinatura de contratos de crédito de carbono por parte das comunidades, e a Lei de Terras, esta aprovada pela Assembleia Legislativa do Pará, servem de exemplo.

Enquanto isso, os crimes socioambientais continuam a solta no estado. É o que ocorre no município de Barcarena, cujo Distrito industrial até hoje não possui sequer licença ambiental. Também podemos incluir as ações das mineradoras Hidro e Imerys em territórios quilombolas (no município de Moju, por exemplo) e do povo Tembé (Tomé-Açu); o apoio irrestrito à construção da Ferrogrão - que promoverá destruição em larga escala nos territórios do povo Munduruku (Oeste do Pará), a instalação de portos que atingirão diversas comunidades ribeirinhas - Maicá, em Santarém, e no Baixo Tocantins.


Outro passo importante na recauchutagem da imagem familiar foi o estabelecimento do "acordo de paz" com os Maiorana, representantes locais das organizações Globo. Evidentemente, tal acordo passou pela retomada da veiculação de propaganda oficial nos veículos de comunicação de propriedade daquela família, entre outras medidas. O fato é que os "radicais" da família perderam poder interno e Helder passou a contar com a "simpatia" do grupo empresarial.


A tendência predominante é que Helder Barbalho eleja a maior parte dos(as) prefeitos(as) e dos(as) vereadores(as) paraenses em outubro próximo, com a direita/extrema-direita dentro e fora desse arco de alianças conquistando fatia importante dos governos locais. Já os setores progressistas e de esquerda devem manter-se como coadjuvantes nesse processo. Nada indica o contrário até este momento.


A perda das eleições em Belém por parte da esquerda é uma possibilidade real. Eder Mauro, o pré-candidato de extrema-direita, tem chances de obter uma votação relevante. Contudo, quando Helder colocar as máquinas governamental e partidária para funcionar as chances do delegado miliciano devem reduzir-se consideravelmente. Talvez, para Eder Mauro, as próximas eleições sejam apenas um teste em vista do seu objetivo principal: eleger-se senador em 2026.

Uma das formas de enfrentar esse processo avassalador passaria pelo estabelecimento de alianças estratégicas dos movimentos sociais em torno de candidaturas de esquerda nos diferentes municípios. Creio ser um  erro deixar tarefa tão importante nas mãos exclusivas das direções partidárias e às suas lógicas internas de disputas, porque precisamos de pessoas comprometidas com as lutas populares e suas pautas. Para nós, pouco adianta que sejam eleitas figuras que, mesmo sendo de partidos de esquerda ou do campo progressista, estejam mais próximas de uma agenda liberal - a consolidação do mercado de carbono, por exemplo. É importante que as eleições sejam mais um passo na construção de um campo contrahegemônico. É disso que precisamos.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

É logo ali.

Estamos vivenciando um momento bastante delicado. Isto porque ele se materializa enquanto um ponto de bifurcação histórico, daqueles em que as incertezas dominam o cenário. Há tantas possibilidades em aberto que fica difícil apreender adequadamente as consequências das decisões que estão sendo tomadas agora. Há aqui uma primeira questão a ser abordada: a política vem sendo diuturnamente atacada de diferentes formas justamente quando ela é mais necessária diante dos enormes desafios que se apresentam. A política aqui entendida como uma das ações humanas da mais alta relevância.

A despolitização da política levada a cabo diuturnamente ao redor do planeta agrega, por motivos diversos, (i) a extrema direita e sua tentativa de impor regimes autoritários fundados no medo, na violência, no ódio, no individualismo exacerbado acoplado à destruição da perspectiva da universalização de direitos, bem como no completo repúdio à democracia e suas instituições, turbinadas pelo manuseio dos algoritmos e da inteligência artificial para atingir tal finalidade; (ii) os conglomerados midiáticos e segmentos encastelados nos aparelhos de Estado no uso do lawfare[1], da mentira e da manipulação como estratégia de destruição de adversários; (iii) setores religiosos conservadores que em nome de um suposto deus justificam a guerra, o armamentismo, os ataques a grupos minoritários, a violência contra mulheres, negros(as) e integrantes de distintas periferias (sejam moradoras de bairros populares, população de rua e/ou de países e regiões marginais do capitalismo), bem como demonizam as esquerdas e seus programas partidários; (iv) atores sociais diversos, inclusive do "nosso campo", comprometidos com a implementação de soluções de mercado às múltiplas crises porque passam nossas sociedades, que abrange desde a ideologia do empreendedorismo em substituição paulatina à noção de cidadania até às "alternativas" para as crises climática/ambiental, como o mercado de carbono. Em variados momentos do debate sobre as mudanças climáticas, por exemplo, a crença de que a tecnologia - eficiente e neutra - evitará o pior se apresenta concorrendo com as soluções pela política.

As bifurcações que se apresentam são fundamentalmente de três ordens. A primeira diz respeito justamente às crises climática e ambiental. As mudanças no clima demonstram de maneira muitas vezes trágicas que o capitalismo, este um dos resultados históricos das ações/decisões humanas, nos colocou diante da possibilidade concreta de desaparecermos enquanto espécie da face da Terra. Nossa desgraça está no fato de que o sistema capitalista não demonstra qualquer capacidade de efetivar mudanças estruturais que revertam tal situação. Pelo contrário, o que "os donos do mundo" buscam a todo custo é encontrar formas de lucrar com essas crises. Os acordos que estão sendo costurados seguem de alguma forma por esse caminho. Nossa perspectiva conflita com tal trilha e nos leva a parodiar uma frase que ficou famosa e dizermos que o problema não é a molécula de carbono e sim o sistema, idiota! Não consigo ver saídas duradouras nos marcos do sistema. A segunda, é a possibilidade de uma hecatombe (massacre de um grande número de pessoas, mortandade, carnificina) nuclear. Nunca é demais lembrar que a guerra sempre foi usual para a recomposição/redefinição dos instrumentos e das formas de exercício de poder. Mais uma vez nossa espécie estaria em risco de desaparecimento, assim como ocorreu com outras espécies ao longo da história do nosso planeta. A terceira está relacionada ao rearranjo geopolítico mundial. Guerras na Ucrânia e na Palestina, disputa feroz por recursos energéticos, BRICS, aliança estratégica entre China e Rússia, desdolarização das economias, Rota da Seda, crise da OTAN, ascensão da extrema direita, crise da democracia liberal e de suas instituições e outros eventos provocam abalos nas estruturas que antes se mostravam sólidas. Essa miscelânea de processos imbricados uns nos outros também tem potencial para provocar conflitos de grande magnitude.
A tendência que se apresenta com forte possibilidade é o da generalização das crises e de confrontos em larga escala. Porém, tendência significa a disposição por um determinado caminho. Não é algo taxativo. Aí é que entra a política. As decisões que tomarmos agora é que vão confirmar ou não essa tendência. Se depender dos "senhores da guerra" é a trilha predominante. A questão é: nós os/as anticapitalistas, antipatriarcais e antirracistas acumularemos força suficiente para impormos alterações de rotas que efetivem outras tendências?


[1] Lawfare é uma palavra-valise introduzida nos anos 1970 e que originalmente se refere a uma forma de guerra na qual o direito é usado como arma. Basicamente, seria o emprego de manobras jurídico-legais como substituto de força armada, visando alcançar determinados objetivos políticos. Vide o caso da Lava-Jato no Brasil ou das ações judiciais que poderosos grupos empresariais empregam para criminalizar movimentos sociais e/ou suas lideranças.


terça-feira, 4 de outubro de 2022

Sobre cristãos que não acreditam em Deus.

Nós cristãos e cristãs aprendemos desde cedo que Deus é Onipotente, Onisciente e Onipresente. Isto é, não há nada ou ninguém mais poderoso que Deus (Onipotente). Ele tem conhecimento infinito sobre todas as coisas (Onisciente). E que Deus se encontra em todos os lugares: na natureza, no universo e dentro de cada um e cada uma de nós (Onipresente). Além disso, acreditamos que em algum momento seremos julgados pelas nossas ações e omissões, pelo bem e pelos males que fazemos em relação a nós mesmos, às demais pessoas e a tudo à nossa volta. Entretanto, não é isso que uma parcela significativa de cristãos e cristãs parece acreditar.

Em primeiro lugar, há aqueles/aquelas que colocam o demônio tão poderoso quanto Deus. Diariamente invocam o demônio nos cultos e às vezes falam mais o nome dele do que o do próprio Deus nas suas pregações. Destinam ao Belzebu enormes poderes a fim de incutir o medo e o terror nas mentes de seus seguidores. A vida passa a ser orientada não pela confiança no Deus Onipotente, mas no medo de cair nas garras poderosas do diabo. Dessa forma, é Satanás que prevalece como referência cotidiana e não um Deus Todo Poderoso que nos livra de todo mal.

Em segundo lugar, tais cristãos/cristãs não acreditam realmente no julgamento divino. Daí darem a si próprios(as) o poder de julgar e decidir quem vai ou não ao "paraíso". Tomam o lugar de Deus. Lançam maldições aos/às que consideram pecadores(as), se regozijam por já estarem entre os/as eleitos(as), assumem o papel de juízes/juízas e determinam o destino de cada um(a). É mais um recurso dos/das cristãos/cristãs que não acreditam em Deus para exercer poder de influência sobre determinado rebanho.

Em terceiro, ignoram completamente os mandamentos divinos. No Brasil percebemos nos últimos anos que muitos(as) cristãos/cristãs demonstram mais amor aos fuzis, às metralhadoras e às pistolas do que à Deus sobre todas as coisas. Usam a mentira como arma política e como base de suas pregações, reproduzindo-as em larga escala por whatsapp e outros meios. Em vez de A verdade vos libertará, proclamada por Jesus, o lema desses(as) cristãos/cristãs é A mentira nos beneficiará. Cultuam a morte, defendem a pena de morte e afirmam que Jesus andaria armado com uma pistola em seu tempo se pudesse. Ou ainda que gays devem morrer. Os mandamentos Amar ao próximo como a si mesmo e Não matarás se tornam então apenas letras mortas. Deus que é todo amor é visto por esses/essas cristãos/cristãs como Deus guerreiro, vingativo, com todas as imperfeições humanas. Um Deus que na realidade não é Deus. Dai não verem qualquer problema em usar o seu Santo Nome para enriquecer, barganhar cargos, obter concessões para rádios e TVs; exigir os votos dos seus rebanhos para si, parentes ou aliados. Os cultos parecem mais comícios eleitorais do que atos de fé. Também estimulam e celebram as perseguições a outras religiões, grupos sociais e pessoas. É o ódio que prevalece e Deus é utilizado para referendá-lo.

Em quarto lugar, para tais cristãos/cristãs Deus não é Onipresente, mas somente pode ser encontrado nos prédios das igrejas. A ideia de que Deus existe dentro de cada um(a) de nós é deixada de lado. O divino presente em cada pessoa é retirado, restando somente o corpo.


Por fim, esses/essas cristãos/cristãs clamam em som alto que Jesus está retornando. A verdade é que Jesus vem todos os dias na forma de pessoas necessitadas, que passam fome, que têm sede de justiça, que são marginalizadas, que sofrem preconceito, que fazem caridade, que lutam por um mundo justo e solidário, que defendem a natureza, que não aceitam as desigualdades sociais, que andam no meio das que são levadas à condição de párias da sociedade, mas que são perseguidas e assassinadas cotidianamente por ações e omissões. Todavia, os/as cristãos/cristãs que não acreditam em Deus acham tudo isso apenas mi-mi-mi.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Sobre o nosso olhar

Certo vez li um comentário que dizia mais ou menos o seguinte: É duro acordar todo dia e ter que escolher uma entre as muitas notícias ruins de toda manhã. De fato, a situação é difícil. A capacidade dos poderes hegemônicos é espantosa. Vivemos atualmente sob o "império da cultura da morte". A morte e o sofrimento como política de Estado e das forças destruidoras do capital. Nela os indesejáveis precisam desaparecer. No Brasil, materializada pelo bloco de poder capitaneado por Bolsonaro.
Cultura da morte
O filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu um livro que eu gosto bastante intitulado O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Um dos artigos reproduz parte do título do livro: O que é contemporâneo? Um texto maravilhoso. As questões nele abordadas ofereceram a mim algum alento nesses tempos sombrios. Todavia, um alento compromissado, se podemos dizer desta forma, pois, ao contrário do que possa parecer num primeiro momento, não há passividade na medida em que nos conclama a entender o mundo. Uma atitude pró-ativa, engajada. E isto nunca foi tarefa das mais fáceis. Agamben apresenta chaves de leitura importantíssimas para a compreensão do que está ocorrendo à nossa volta.

A primeira questão é que não nos fixemos somente na luz. Olhar fixamente pra luz cega ou turva a visão de quem o faz. Olhe para o interior de uma fogueira de São João que você vai perceber isso facilmente. Ou seja, você terá grande dificuldade de entender o que se passa no mundo hoje se se dedicar somente ao que é facilmente visto, o que está à luz, na superfície ou na moda. Daí a importância de termos uma visão crítica sobre a mídia corporativa - desde as emissoras tradicionais de rádio, TV e jornais impressos até o Google, Facebook e outras gigantes do mundo virtual -, pois ela orienta o nosso olhar, incutindo em nós definições sobre o que é ou não importante, o que é ou não falso e verdadeiro. Precisamos educar nosso olhar para tentar enxergar aquilo que não é facilmente visto, ou que não está completamente exposto. Mirar o subterrâneo para tentar identificar as mudanças tectônicas, lentas, que não são lidas pelo olhar de quem só se fixa nas manchetes ou na "orelha" dos livros. Afirmar que Bolsonaro é autoritário ou fascista não é tão difícil. Gritar que a Lava-Jato foi uma das bases para a sustentação de um golpe de Estado que se efetivou também não é tão complicado. Difícil é explicar as entranhas da nossa sociedade que oportunizaram a Bolsonaro e seus acólitos chegarem ao comando do Estado brasileiro. Essa busca, porém, de romper com um tipo de conhecimento fundado no que reluz comporta uma armadilha que é o de cairmos no subjetivismo reacionário, que leva algumas pessoas a defenderem que a terra é plana, negar a ciência e a verdade científica, fazer campanha contra a vacinação em massa, afirmar que cada um tem a sua própria verdade ou ainda que Bolsonaro é um enviado de Deus. Vade retro!
Luz que cega


A segunda questão é que às vezes o distanciamento é a melhor maneira para enxergarmos adequadamente o que está acontecendo, compreendermos de forma aprofundada um processo ou um fato. Nem sempre quem está no centro da briga tem a melhor visão sobre o que realmente está ocorrendo. Manter um certo distanciamento ao mesmo tempo em que se é ator social não é tão simples. Uma questão que pesquisadores e pesquisadoras se colocam a todo momento. Não obstante, olhar com uma certa distância a fim de observar de maneira mais ampla possível exige também que tenhamos a capacidade de parar e observar. E no chamado mundo moderno ou pós-moderno, como afirmam alguns(mas), isto é cada vez mais difícil. Lembro quando usava a internet discada e esperava minutos e mais minutos para baixar um arquivo. E tudo bem. Hoje, se uma propaganda de dez segundos interfere eu fico estressado, acho uma eternidade. Por outro lado, quando sou o passageiro de um taxi e ando pelas mesmas ruas que trafego cotidianamente no banco do motorista me surpreendo com coisas e cenários que jamais tinha notado. Da mesma forma, quando tenho a oportunidade de caminhar pelo centro histórico de Belém num final de semana ou feriado percebo os desenhos dos ladrilhos das antigas construções, lembro das batalhas que ocorreram naquelas travessas do centro da cidade durante a Revolução Cabana - década de 1830 -, bem como recordo meu tempo de criança quando ia com a minha mãe fazer compras no Ver-o-Peso ou no centro comercial. Nada disso me vem à cabeça quando estou embebido da velocidade cotidiana. Parar, contemplar, pensar, formular e tirar conclusões na maioria das vezes são incompatíveis com a pressa. O distanciamento ajuda.
A luz mesmo quando não vista

A terceira questão é mesmo que não seja possível enxergar a luz, você sabe que ela está lá
. O universo - ou os multiversos - está se expandindo de tal forma que as distâncias entre as "bordas" e o interior serão tão grandes que chegará um momento que nem a luz emitida por uma grande estrela será percebida. Apesar disso, ela existirá. mesmo que você não enxergue. Talvez isso seja a própria Utopia. Hoje, com Trumps, Bolsonaros, guerras híbridas, golpes e violências institucionalizadas, às vezes fica difícil imaginar que é possível algo diferente. Que haja luz em vez desse mundo cada vez mais cinzento. Mas a Utopia é esse rasgo de luz atravessando o universo. A sociedade é capitalista. Com todas as suas mazelas, destruição, mortes e desigualdades. Contudo, é também esperança, resistências cotidianas, conquistas - às vezes microscópicas -, afetos e compromissos. Não vivemos numa sociedade igualitária e estamos muito longe dela, tal qual a luz emanada das partes mais longínquas do universo. Mas sabemos que ela está lá. Na luta política são nossas vontades, compromissos e projetos políticos os únicos caminhos para enxergá-la.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Bonner, viva até os 100 anos. Ou mais...

Circula pelas redes sociais a informação de que William Bonner, o editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional, o principal noticiário televisivo da Rede Globo, quer abandonar as funções porque não aguenta mais tanta pressão. Sente-se cansado depois de tantos anos à frente do telejornal.

Com a crise provocada pela expansão do COVID-19 no nosso país o Jornal Nacional recuperou boa parte da audiência perdida nos últimos anos. Não há como negar a importância do telejornal na produção de matérias de qualidade sobre os riscos da pandemia. Ainda mais num contexto em que negacionistas, terraplanistas, religiosos ultraconsercadores, oportunistas e outros desqualificados estarem à frente da coalizão que momentaneamente conduz o Estado brasileiro. Isto sem falar na desconfiança de que haja até mesmo pessoas vinculadas ao crime organizado, como retratam diversas reportagens no Brasil e no exterior.

Entretanto, não podemos esquecer jamais o papel crucial desempenhado pela Globo no golpe de Estado que destituiu a presidenta Dilma Roussef. As tantas horas dedicadas exaustivamente a criminalizar o PT e a política em geral, o seu apoio estratégico aos grupos de direita e extrema-direita que estiveram à frente das mobilizações pelo impeachment da presidenta, o papel jogado pela empresa para mobilizar diariamente a população contra o governo e os movimentos sociais do campo democrático e popular, seu apoio incondicional às ilegalidades e atrocidades jurídicas cometidas por Sérgio Moro e os golden boys da Lava-Jato, devidamente demonstrado pelo Intercept através da Vaza-Jato. Enfim, a Globo, como naquela história em que o escorpião atravessa o rio no casco de uma tartaruga, mas que no meio da viagem pica esta última por ser "de sua natureza", nunca perdeu sua natureza autoritária e golpista. Contudo, não há como esperarmos por mais 50 anos para ouvirmos seus pedidos de desculpas.

Em toda essa trajetória o papel desempenhado por William Bonner no comando do Jornal Nacional não foi pequeno ou inexpressivo. Ele foi uma peça importantíssima nesse processo de completo desmantelamento da democracia e dos direitos sociais no Brasil. E a história lhe cobrará muito caro por isso.

Não há segredos que durem pra sempre. E a cada dia somos brindados com mais revelações sobre os bastidores do golpe. As máscaras caem uma a uma. E em pouco tempo não restará um lugar sequer para os falsos profetas, bandidos, os "senhores da justiça" ou oportunistas se esconderem. Vide Joaquim Barbosa, completamente relegado ao limbo. Sergio Moro é outro cuja imagem se esfarela rapidamente. Um castelo de areia sob o rigor dos ventos da história e dos fatos.

Bocas se abrirão. Memórias serão escritas. Documentários serão produzidos. Segredos sucumbirão. No Brasil isto tem acontecido frequentemente nos últimos anos. Desde Collor de Mello pra cá os exemplos são muitos. Menos por espírito público e mais por vingança e o desejo de acertar contas. Como na máfia ou em qualquer grupo criminoso.

William Bonner não estará impune a isto. As entranhas da Globo e do golpe serão revolvidas. O odor fétido dos cadáveres insepultos contaminarão os ambientes. Daí o motivo da torcida para que William Bonner viva 100 anos ou mais. Eu nem preciso estar aqui para ver com os meus próprios olhos, mas imagino o quanto será prazeroso vê-lo confrontado aos fatos que levaram ao definhamento da nossa fragil democracia e o papel desempenhado por ele na bancada do Jornal Nacional. Boa noite, Bonner.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

A doença nossa de cada dia.

O desmonte do indivíduo.
Durante a semana que passou recebi por whatsapp uma charge em que o médico perguntava ao paciente onde doía. Este, por sua vez, respondia: "a realidade". De fato, a realidade tem se mostrado muito dura, particularmente às pessoas que definem o capitalismo como um sistema incapaz de resolver os principais males que afligem a humanidade. Para estas a destruição das políticas sociais inclusivas, o desmantelamento do Estado nacional, o recrudescimento das desigualdades, os ataques aos direitos humanos, a desconstrução da democracia e o avanço destruidor sobre o meio ambiente doem de maneira profunda.
Vivemos numa sociedade doente que custa a reconhecer-se dessa maneira. A algum tempo atrás li sobre uma pesquisa realizada em Paris na qual os/as cientistas recolheram amostras das águas dos esgotos da capital francesa para analisá-las. Os resultados divulgados evidenciaram que os parisienses estavam consumindo quantidade expressiva de medicamentos antidepressivos, antibióticos e outros cuja venda é controlada. Certamente um  sinal de alerta importante não somente para quem vive naquela cidade. Todavia, numa sociedade capitalista (re)alimentada pela busca incessante do lucro, as doenças não se configuram num problema ou risco ao sistema posto que lhes são funcionais:
A sociedade disciplinar é uma sociedade da negatividade. É determinada pela negatividade da proibição. O verbo modal negativo que a domina é o não-ter-o-direito. Também ao dever inere uma negatividade, a negatividade da coerção. A sociedade de desempenho vai se desvinculando cada vez mais da negatividade. Justamente a desregulamentação crescente vai abolindo-a. O poder ilimitado é o verbo modal positivo da sociedade de desempenho. O plural coletivo da afirmação Yes, we can expressa precisamente o caráter da positividade da sociedade de desempenho. No lugar de proibição, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados.¹
Na sociedade do desempenho você "tem que matar um leão a cada dia". Lutar incansavelmente para ser o/a melhor em qualquer circunstância. Não ser passado para trás. Enfim, ser competitivo. Vencer! A propaganda é uma arma poderosa dessa "motivação" mercadológica. Estude. Trabalhe. Se empenhe. Aí vem o discurso da meritocracia para dar o verniz, dourar a pílula, numa situação que é em si mesma insustentável posto que fundada em relações completamente desiguais. Mas aí os cérebros em massa "reeducados" para a competição têm dificuldades para romper com os grilhões das "motivações" da sociedade do desempenho.
O neoliberalismo é um fracasso econômico, mas poderoso dos pontos de vista político e ideológico. A sociedade como empresa moldada pela perspectiva neoliberal é o "corpo", cujo "espírito" é constituído pelos pressupostos da sociedade do desempenho. Nesta, a solidariedade foi expurgada. Em seu lugar tão somente a redenção pela esmola, pelo paternalismo e pela demagogia. Eis algumas das raízes do bolsonarismo.

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1. HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2a edição ampliada - Petrópolis, RJ : Vozes, 2017, p. 24-25.