O ar anda carregado. O clima
tenso. A negatividade parece dominar as mentes e as energias. O pior
das pessoas a quem dedicávamos afeto e considerávamos próximas
veio à tona de uma maneira que nos pegou de surpresa. Muitos(as)
agora preferem que seus filhos manuseiem armas do que o lápis, que
profiram impropérios em vez de palavras construtivas; que sintam
orgulho das maldades praticadas contra pobres, pretos(as),
favelados(as), gays, lésbicas, indígenas e quilombolas do que defender os direitos humanos,
que se deliciem com a destruição da nossa casa comum do que
defendê-la contra as atrocidades do capitalismo globalizado. Não
esperávamos. Contudo, de alguma forma foi bom que isso tenha
acontecido. Máscaras caíram. O “eu” de cada um(a) não consegue
mais ser abafado. Para o bem ou para o mal.
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| Ser e ser |
Vivemos numa atmosfera
envenenada. Porém, o acaso aqui não existe. É meticulosamente
construída pelas redes hegemônicas de poder. O medo se consolidou
como o instrumento da manipulação mais sórdido da sociedade.
Religião, desinformação e armas são vetores da autofagia em
massa. O Estado de exceção tem sido naturalizado, coberto por uma
aura de legalidade que se sabe falsa. O ônus da prova cabe a quem é
perseguido, a quem o direito foi negado. O ardente desejo dos
fascistas vai se disseminando, parecendo dar razão ao que nos disse
George Orwell em seu livro 1984:
“Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”.
Aos poucos uma multidão vai sendo “reeducada” todos
os dias a acreditar
firmemente nisto. Nessa
atmosfera de retrocessos o passado vai sendo reescrito a fim de que
não haja futuro para além do sistema vigente. Mais uma vez
recorramos a Orwell: “Quem
controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente,
controla o passado”. O
maior objetivo do sistema dominante é fazer com que grande parte da
sociedade acredite nas boas intenções do “Grande Irmão”.
As
redes hegemônicas de poder tentam nos incutir a ideia de que a
história acabou, que atingimos o auge. Tal situação busca nos
fazer crer que só resta a nós remendar o que existe. Colocar remendo
novo em roupa velha, como evidencia um determinado dito popular.
Dessa forma, nos condenam a viver numa sociedade
do cubículo,
sem portas e sem janelas, com o ar se tornando gradualmente mais
tóxico. Todavia, às vezes, ao solavanco.
Nesta
sociedade
do cubículo
o presente é a eterna continuidade dele mesmo. Nela a novidade é o
novo envelhecido. Muda-se a maquiagem, mas o rosto carcomido do
capitalismo é o que se encontra em baixo das camadas de tinturas e
cremes. A informação instantânea das redes sociais já se mostra
efêmera no próprio ato da sua divulgação. Não ajudam a explicar
a complexidade do mundo. Reforça-se as aparências. Sufoca-se os
conteúdos.
Para
manter-se vivo(a) na sociedade
do cubículo
é necessário competir, lutar, subjugar, desprezar e abandonar, pois
não há espaço para todos(as). Talvez este seja o fundamento da
necropolítica
de que nos fala Achile Mbembe.
Nesta
sociedade os meios de comunicação e de transporte encurtam as
distâncias. Contudo, preferencialmente para as mercadorias, não
para as pessoas. Ao menos para determinadas pessoas. Uma sociedade em
que o núcleo central das estratégias tem como foco derrotar os/as
competidores(as).
A
maioria das pessoas já vive em diferentes modalidades de cubículos:
nas favelas, nas periferias, nos guetos dos centros das cidades, nos
fundos dos travessões ou ramais, nos corredores dos hospitais e
postos de saúde, apertadas nos ônibus e trens, nas unidades
habitacionais construídas pelos governos, nas ruas escuras que
colocam a vida das mulheres em risco e na violência doméstica que
comumente as imobiliza, nas salas de aula multisseriadas; na
demonização da história, da filosofia e da sociologia, buscando
tornar nossas mentes um cubículo. Nossa luta é para criar as
fissuras, aumentá-las a ponto de um dia romper os cubículos
impostos em vista de uma sociedade que não caiba em si mesma.