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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Os capitalistas nos lembram: aprofundar a luta de classes é o seu programa.

Durante muito tempo o discurso conservador repetiu como um mantra a ideia de que a esquerda é quem promovia a luta de classes, que está somente existia por conta da atuação de grupos sociais avessos à democracia e ao diálogo. Tal argumento, incutido diuturnamente nas mentes das pessoas pelas escolas e outros aparelhos ideológicos do Estado; além dos meios de comunicação, instituições e demais instrumentos disponíveis aos capitalistas, serviu de base para perseguições, prisões e assassinatos de socialistas, comunistas, humanistas e libertários de diferentes matizes.

Ocorre, porém, que a luta de classes não é uma invenção, uma ideia ou devaneio de uma ou outra pessoa, de um ou outro grupo social. A luta de classes atravessa a sociedade. É material. Movimenta a história. Produz avanços e retrocessos. Aponta caminhos possíveis e produz incertezas. Destrói o velho, faz surgir o novo e retoma o passado continuamente. Não é algo que possa ser abolido, ou negligenciado. Todos e todas estão envolvidos(as), são sujeitos. Queiram ou não.

Entretanto, parte do que poderia ser denominado de esquerda acreditou que era possível alterar estrutural e profundamente a sociedade por medidas de conciliação, como se elas fossem capazes de suprimir a luta de classes. Foi assim com a experiência da II Segunda Internacional Socialista ao final do século XIX, tem sido assim em muitos governos chamados progressistas na atualidade. Portanto, ganhou musculatura a ideia de pactos envolvendo atores sociais com capacidade de poder diametralmente distintas. Um acordo entre o leão e a gazela, pra ficarmos nas referências do mundo não humano.

Eis que a burguesia brasileira resolveu romper o pacto de mediocridade e dizer em alto e bom som: Queremos tudo o que acreditamos nos pertencer e vocês nos entregarão por bem ou por mal, sem intermediários, sem complacência. A partir de então declarou guerra aberta. Foi um adeus à "guerra de posição". Agora é "guerra de movimento", de extermínio das conquistas sociais, de destruição da democracia, do desmantelamento do Estado, da subserviência completa aos ditames das forças do mercado - do laissez-faire, da criminalização dos movimentos sociais, do não reconhecimento de direitos, da imposição de padronizações, do desprezo à diversidade, do individualismo, da fé sem espírito, do rechaço à solidariedade; do lançar novamente milhões de pessoas à fome e impossibilitá-las do acesso à educação, ao lazer e à cultura.

A "esquerda" que já imaginava viver em outro momento encontra-se atônita: Como os empresários se puseram contra mim se no meu governo eles ganharam dinheiro como nunca antes? Como a Globo se tornou artífice do golpe se investi tantos milhões em propaganda? O problema é que a luta de classes nunca foi negligenciada por eles, nunca deixou de fazer parte do seu programa. É a execução deste que experimentamos em toda sua crueza.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Tempo perturbadores....

Vivemos tempos perturbadores. A reflexão parece estar sendo paulatinamente varrida do mapa. Entramos na era das "torcidas organizadas", mesmo quando não nos referimos ao futebol ou outra modalidade esportiva. Há os que têm dificuldades para refletir sobre o que está ocorrendo já que a realidade não se adéqua às suas formulações teóricas, assim como há aqueles que simplesmente se recusam a pensar. Estes são os mais perigosos. Xingamentos, acusações, uso da violência verbal ou física tomam conta do cotidiano. Não basta vencer é preciso destruir o adversário, seja ele um candidato às eleições ou um time. Processo alimentado cotidianamente por diferentes segmentos, mas não há como negar o peso brutal da mídia corporativa para a consolidação desse cenário.

No Brasil, quem é contra o governo federal ou o PT são contra e ponto final. Não conseguem identificar qualquer avanço alcançado nos últimos anos, pois reconhecer isto pode representar um "ato de fraqueza". Neste campo encontram-se desde neoliberais às extremas esquerda e direita. Quem é a favor também age da mesma forma, negando o fato de que o PT se tornou efetivamente um partido da ordem, que abandonou bandeiras históricas da esquerda como a reforma agrária, a democratização dos meios de comunicação ou a distribuição justa da riqueza produzida. Estes também se tornaram perigosos porque buscam de todas as formas amortecer os movimentos sociais que lutam pela transformação estrutural da sociedade brasileira.

Nas décadas de 1920 e 1930, portanto, entre as duas grandes guerras mundiais, o clima também era "pesado". O avanço do totalitarismo, a perseguição às minorias, o belicismo escancarado  - militar, na política e nas relações sociais -, a profunda crise econômica, as catástrofes humanitárias, a perda do glamour da noção de progresso, elemento político-ideológico fundamental na própria constituição do capitalismo, resultaram, entre outras consequências na renovação profunda do pensamento: a Escola de Frankfurt, a psicanálise, as contribuições de Fernand Braudel e de Antonio Gramsci, além de muitas outras. Contudo, esse processo de renovação reflexiva exigiu de seus formuladores que não se rendessem aos fatos, que fugissem do "efeito manada" e não se diluíssem nas "torcidas organizadas". Como nos diz uma certa análise do filósofo italiano Aganben, que eles não fossem completamente contemporâneos ao seu tempo.

Nosso tempo é o tempo da "guerra contra o terror", da mercantilização da natureza, da transformação do meio ambiente em ativos econômicos, da gestão neoliberal da segurança pública, da criminalização dos movimentos sociais, do poder incontrolável das grandes corporações econômicas, do descolamento cada vez maior do setor financeiro da economia real, do crescimentismo econômico como a nova utopia da esquerda, do neoextrativismo, do recrudescimento das ideologias totalitárias, da xenofobia etc. Ser contemporâneo desse tempo é, em suma, abandonar generosas utopias, crer que chegamos ao fim da história, é render-se completamente ao capitalismo e suas mazelas. Por isso não podemos estar acomodados - mentalmente, de modo especial - a estes tempos perturbadores que tentam sufocar a reflexão.

Todavia, é também o tempo do Buen Vivir, da luta feminista, da crescente capacidade de mobilização do movimento socioambiental, da afirmação de identidades e da solidariedade internacionalista, entre outros. A estratégia "torcida organizada" na política e em outras formas de relação social jamais será positiva para quem acredita que a história está em aberto, que vivenciamos um período espetacular de bifurcação histórica, onde todos os caminhos são possíveis, dependendo somente das nossas próprias decisões sobre para onde queremos seguir.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Estive no meu velório.

Hoje eu estive no meu próprio velório. Estava lá sentado num dos cantos da sala vendo parentes e amigos rendendo homenagens, lembrando histórias e contando fatos inusitados da minha breve vida. Outros, porém, faziam críticas aos meus posicionamentos políticos e/ou pessoais, revelando seu descontentamento com  coisas que fiz ou das omissões que, segundo eles, provocaram algum tipo de prejuízo.

Transitei tranquilamente entre os diversos grupos sem que fosse notado. Dessa forma pude ouvir atentamente a tudo o que falavam de mim. Dei-me conta, então, que visitei muito pouco quem merecia minha atenção e que necessitava nem tanto de conselho, mas da minha simples presença. Lembrei-me dos compromissos não cumpridos e que causaram tristeza a pessoas que queria bem. Alguns desses compromissos pareciam-me tão banais que nem dei importância. Todavia, depois da visita ao meu velório tive a exata noção do quanto eles eram relevantes a quem me queria ter por perto.

Ouvindo as diferentes histórias contadas percebi também que conferi demasiado peso a bens e objetivos cujo alcance estava muito além da minha governabilidade, mas que ao persegui-los sem a devida reflexão afetaram a minha saúde física e o meu equilíbrio emocional. Tomei consciência de que usei menos do que devia as frases "eu te amo", "peço desculpas", "muito obrigado", "conte comigo" e "estou aqui", bem como que tomei muitos remédios em vez de tão somente cuidar mais da saúde.

Algumas coisas simples que fazem a vida valer mesmo a pena foram secundarizadas por mim. Percebi isto quando alguém criticou-me pelo fato de aborrecer-me por bobagens e, por conta disso, ter lançado palavras ofensivas a quem não merecia. Ou ainda por ter deixado de fazer coisas devido ao meu comodismo: eu podia ter saltado de paraquedas, mergulhado naquele determinado rio, cantado, dançado, tomado alguns porres, contado mais piadas, rido, chorado, dormido, lido, estudado, calado em muitas ocasiões, ouvido mais, acordado cedo pra curtir o sol da manhã, escrito mais poesias, abraçado e beijado sem motivo....

Realmente foi uma sensação muito estranha ter acordado do meu sonho e ver-me em meio ao velório da minha vida passada, pois a partir de hoje muita coisa vai ser diferente. Ou será mais uma promessa de fim de ano?